Em romance curto, denso, Camus narra a história de Mersault, em primeira pessoa, num curto espaço de tempo iniciado com a morte da mãe e que termina com sua condenação à morte por homicídio.
O local, Argélia na década de 30 colônia francesa. Na cidade à beira-mar o calor, a paisagem, céu e praia, são onipresentes. A mãe vivia em um asilo, ao qual se habituara, "como em tudo na vida". Ter que participar do velório, a noite toda com os colegas dela um tanto adormecidos, ele se cansa, o funcionário oferece café com leite, ambos fumam. Enterro no dia seguinte, sol, sinos, caixão, calor que perturba a vista e as ideias. Alívio chegar em Alger, com direito a dois dias de folga aos quais se acrescentou o fim de semana. Encontra ex-colega, Marie, "semblante de flor", namoram vão à praia, nadam juntos, depois vão ao cinema, filme de Fernandel (ator cômico famoso à época).
Dois vizinhos, o velho que bate no cachorro mas dele não se separa e Raymond que namora a irmã de um árabe, bate nela, diz que pode porque a sustenta. Domingo, na praia, avistam um grupo, entre os quais o irmão da amante de Raymond, que quer vingança. Mersault retorna à praia, com a arma do amigo esquecida no bolso, calor extremo, avista o rochedo com sombra e fonte de água, onde o árabe estava deitado, este levanta, aponta faca como "espada fervente", Mersault o alveja com tiro mortal, dispara mais quatro vezes. Compreendeu que "havia destruído o equilíbrio do dia" (p. 54), "o silêncio de uma praia onde eu tinha sido feliz" (injustificável).
Filme de F. Ozon, 2025
Segunda parte do livro, prisão e julgamento. No interrogatório o destaque é a insensibilidade com a morte da mãe, o advogado pergunta se preferia que ela não tivesse morrido, ele responde que pessoas sãs haviam desejado a morte de pessoas que elas amam. O advogado pede que ele não diga isso no dia do julgamento (injustificável).
O juiz pede que ele relate todo aquele episódio, Mersault pensa consigo que nunca falou tanto, por que os quatro tiros? Você não acredita em Deus, pergunta o juiz com um crucifixo na mão? Não sou cristão, responde Mersault tomado por aborrecimento (injustificável).
Na prisão tenta dominar seu dia a dia preenchendo com lembranças, passou a dormir muito, recorda que a mãe dizia que a gente se acostuma com tudo. Um ano se passa, enfim o julgamento de um crime que atraiu a atenção até de jornalista de Paris. Por que internou sua mãe? Falta de dinheiro (injustificável). Por que fumou, tomou café com leite e não chorou durante o velório? (injustificável). Mersault sentiu que o odeiam. "Eu o acuso de haver enterrado uma mãe com o coração de um criminoso" (injustificável). Promotor: você premeditou, é inteligente, desalmado, insensível, monstruoso (injustificável). Por que matou? Devido ao calor, resposta que provoca risos (injustificável). Calor, luz solar, abafamento são circunstâncias onipresentes no livro.
À espera do dia da execução, sem que ele solicitasse, recebe a visita do capelão que não entende como alguém não crê na vida após a morte (injustificável), tenho certeza, diz o capelão, que lhe ocorreu desejar outra vida, Mersault se irrita, acusado porque não chorou no enterro da mãe, porque é ateu, que importância têm os fatos, as pessoas e suas escolhas?
Camus abre uma fresta para a justificação, filosófica a meu ver: "Eu me abri para a terna indiferença do mundo" (p. 101).
Conclusão: a existência pesa, Mersault/Camus mostram que não há necessidade de se justificar perante expectativas da sociedade, da moral e do direito. É possível defender sua própria moral, seu próprio modo de ser.
Obs: Há centenas de estudos sobre Camus nas redes sociais, filme de Luchino Visconti de 1967 sobre "O Estrangeiro"; Mersault é visto como "apático", qualificativo do qual discordo. A minha primeira leitura de "L'Étranger" foi para o exame de Nancy, Aliança Francesa, décadas atrás, 1967!

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