sexta-feira, 7 de agosto de 2026

O que é justificação para Wittgenstein? O que é justificação para Habermas?

 A justificação é um recurso de atos de fala, de certo jogo de linguagem que se caracteriza por chegar a um fim, a um resultado, do contrário não se sustenta, segundo Wittgenstein. Quando se trata de uma ordem, de um pedido, a justificação requer que se atenda o pedido, ou que se recuse o pedido, mas, atentar para a satisfação desse pedido não é uma justificação. O apropriado seria justificar por meio de uma experiência e chegar a um termo, como por exemplo ser bem sucedido. 

A melhor justificação, melhor do que a certeza, é o fato de dar certo, confiar no resultado, por exemplo, que fogo queima. E essa questão para Wittgenstein, à diferença do racionalismo e do empirismo, não é a do raciocínio indutivo e sim algo que diz respeito às nossas formas de vida, àquilo que aceitamos como uma justificação. Outro exemplo: para projetar as dimensões de uma ponte, há certas razões que justificam imaginar tais ou tais dimensões, mas não quanto às escolhas das dimensões imaginadas. Estas escolhas precisam ser postas em prática, algo para além da justificação. O papel do contexto é crucial, decisivo para Wittgenstein em Investigações Filosóficas.

Seguir uma regra justifica-se, justificações podem ser requeridas até o ponto em que se esgotam e se atinge, então, o solo firme. Não vale como justificação o caso seguinte: alguém pergunta, você sabe dirigir? A pessoa afirma que sabe, mas quando posta à prova, mostra-se inepta, fica evidente que não sabe. A resposta de que sabia não vale como justificação. É preciso certas circunstâncias para justificar que se sabe qual é o caso, que houve compreensão do que está em jogo. Outro exemplo: alguém ser guiado em uma caminhada, as circunstâncias podem variar, é porque não sabe o caminho, é cego, está sendo puxado pela mão. Ao justificar o uso de uma palavra, isso quer dizer que houve ressonância, que o outro entendeu.

§ 486 "Como a palavra 'justificação' é usada? Descreva jogos de linguagem. A partir disso você será capaz de ver a importância de ser justificado" (in Investigações Filosóficas).

Em contraste, Habermas leva a justificação para outro patamar, o da validade dos atos de fala, o valor ilocucionário de comprometimento, de dar razões, de ser arguido e ser capaz de responder com veracidade, de acordo com as normas sociais e com sinceridade. 



Teoria da Ação Comunicativa

Para explicar algo, precisamos ir à realidade providos de regras de significado próprias a um enunciado verdadeiro, com explicações e práticas de justificação guiadas por critérios: coerência, convicções compartilhadas em usos  da linguagem juntamente com nossas ações. A linguagem é usada juntamente com as ações, ação comunicativa é o conceito base para Habermas, nos entendemos e por detrás desse entendimento há um mundo objetivo. 

Nosso modo de vida, com os conceitos de saber e verdade, fornece referências que transcendem a justificação, estas podem falhar. Daí a conexão entre verdade e justificação, com lugar para aquilo que se tem por verdadeiro na prática em realizações bem-sucedidas. O questionamento da verdade, da veracidade e da normatividade deve poder ser justificado por discursos que fornecem certificação para a ação. 

Para Habermas a justificação de um enunciado e a verdade de um enunciado dependem do uso respectivo, enunciados bem justificados podem ser falsificados, por isso a prática da justificação não pode dispensar a verdade, é preciso usar de razões para corrigir, para explicar normas justificáveis.

Assim é possível distinguir entre convencer e persuadir, entre a escolha por meio de razões e usar de influência, entre aprender e ser alvo de doutrinação.

Ao que parece, nos meios de comunicação atuais prevalecem persuasão, influenciação e doutrinação.

Para Wittgenstein bastam os jogos de linguagem, os múltiplos usos sem um critério acima desses usos, prevalecente. Para Habermas há critérios que validam ou não as ações comunicativas, estas diferem das ações estratégicas que visam apenas sucesso.

Que dizer de atos sem nenhuma justificação? Na próxima postagem Camus em "O Estrangeiro" responde.

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