Desde os anos 60 professores têm sido instados e doutrinados nos cursos de ciências humanas, principalmente Pedagogia, História, Sociologia e Filosofia que é necessário engajamento político. Chamam a esse engajamento de "consciência crítica" e o conteúdo, a doutrina marxista. Condenam a suposta neutralidade tanto da parte dos professores, quanto ao teor dos livros didáticos.
E o que pretendem com isso? De início, a luta contra a ditadura, contra a censura, o que era um pleito mais do que justo, necessário resistir à ditadura militar, que impôs medo, impôs a doutrina da pátria e de sua segurança, manietou a imprensa, enfim, um regime de força.
A ditadura caiu, mas a mentalidade de grande parte dos professores ainda acha que precisa doutrinar, fazer a apologia do socialismo, derrotar a sociedade dividida em classes sociais; proletariado, estudantes, sem terra devem lutar para acabar com o capitalismo, fonte de todos os males econômicos e sociais.
Em grande parte dos livros didáticos de História Antiga (e agora a proposta é de acabar com a própria história, que é coisa das elites...), nas décadas de 70 e 80 a orientação pedagógica era e até hoje persiste, substituir o descritivismo (datas, batalhas, feitos) pela leitura que chamo de "marxizante". Esta, sob o pretexto de ser participativa, engajada, anti-positivista, pratica o pior dos reducionismos, travestido em "práxis revolucionária". Generaliza e empobrece a riqueza enorme da história universal e nacional, que não cabe na estreiteza das lutas de classe. Definitivamente, nações, países, culturas não se modificam por meio da única visão, empobrecedora da realidade, enfaixada no rótulo "luta de classes".
A reação veio recentemente, nas propostas de "escola sem partido", em que o professor ofereceria uma visão mais ampla, menos política, mais neutra. Haveria uma lista de obrigações, entre elas, evitar a tomada de partido, justamente o da esquerda, acima resumido.
Quem tem razão?!
Nenhum dos dois. Escolas há que têm fundamento em religião, outras são laicas, algumas adotam métodos pedagógicos na linha de Paulo Freire, outras de Piaget, algumas são montessorianas, e assim por diante.
E isso tem a ver com a missão da escola, com sua visão do que é educar. Nenhum problema!
O problema começa quando se imiscuem nos projetos pedagógicos, nas disciplinas escolares, nos livros didáticos, uma orientação sobre como o professor deve ou não deve abordar certos temas.
A alegada impossibilidade de ser neutro por parte dos defensores da escola politicamente engajada (esquerda anticapitalista), e a de que se deve ser neutro (escola sem partido), ambas se equivocam.
E isso porque expor, apresentar, argumentar, criticar, fundamentar, analisar, explicar, todas essas ações didáticas implicam que ensinar e aprender requerem dos professores, diretores, pedagogos acima de tudo, responsabilidade.
Crianças e jovens não estão na escola para serem doutrinados, nem para fazerem o papel de marionetes. Educar é uma atividade, um compromisso com asserções fundamentadas, que podem ser expostas ao crivo da crítica, do aprofundamento e seriedade com que são abordados temas e conteúdos, seja nas aulas de redação, de História, Geografia, ciências naturais.
É muito mais difícil dialogar, argumentar, pesquisar para que suas aulas sejam abertas, sérias, sem manipulação, sem agredir o saber e o conhecimento. Saber e conhecimento são as raízes do ensinar e do aprender.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
terça-feira, 27 de outubro de 2015
A primeira aula de Filosofia
Como em geral se inicia um curso de Filosofia, seja para alunos do Ensino Médio, seja para universitários?
Com a definição do termo, "amigo da sabedoria" (philos = amigo; sophos = sabedoria), os primeiros filósofos (desde Tales até Sócrates, Platão e Aristóteles); em seguida entram os temas ou a divisão da filosofia em suas sub-especialidades:
- o Ser = Metafísica, Ontologia, Teodiceia
- o Conhecer = Teoria do Conhecimento, Epistemologia (ou Filosofia da Ciência), Lógica, Filosofia da Linguagem, Filosofia Social, Filosofia da História
- o Valor (ou o Agir) = Ética, Estética, Teoria dos Valores
Alguns professores iniciam com a História da Filosofia antiga, mas como levar os alunos a compreender noções básicas como a de "ideia" para Platão? E que dizer, mais adiante, de filósofos complexos como Kant? ou Hegel?
A tentação é ir logo para a chamada filosofia prática, engajada, para plantar na cabeça dos alunos uma linha, a da dialética, a da luta social, a do poder à classe oprimida, aos camponeses, aos pobres em geral. Insufla-se a ideia de que a injustiça social é um problema básico do capitalismo, que este é basicamente o mal social maior. Visa o lucro.
Ora, é fácil e perigoso instilar esse tipo de ideologia, evidentemente não se trata de Filosofia... Trata-se de desonestidade intelectual, pura e simples.
Por outro lado, o ensino tradicional requer o uso de muitos conceitos abstratos, aos quais os alunos não estão habituados. E, nessa altura, com tanta nomenclatura, o interesse dos alunos se esvazia...
Como contornar o problema didático (ensinar temas e conteúdos, e também História da Filosofia) e despertar o interesse, levar os alunos à compreensão do que seja Filosofia e filosofar?!
Sugestão: sem deixar de lado o compromisso didático com os temas e conteúdos, a cada vez que se introduzir um tema (por exemplo, em Metafísica, o tema do ser, da existência, das causas), entraria um filósofo para ilustrar o conceito em questão, e, importantíssimo,o professor começa a levantar dúvidas, a fazer perguntas. O meio para atingir o interesse é estimular a curiosidade, levar a reflexão à experiência pessoal, à vida, aos interesses, ao modo de agir e de pensar dos adolescentes e dos jovens.
Tomando o exemplo da questão do ser (que é das mais abstratas), o professor pode indagar sobre tudo o que existe, como existe, e que todos os seres vivos fatalmente acabarão, morrerão. Se alguém teve a dolorosa experiência da morte de alguém próximo, que é "fim", "não ser mais", pedir que o aluno tente expor como é não ser mais, a ausência, a sensação de nada, de vazio. Na medida do possível, o professor deve usar vocabulário do dia a dia para facilitar a reflexão.
"Como é carregar em você um ser que não é o seu ser?" E indagações como essa podem levar a insights filosóficos. O professor pode pedir para que seus alunos escrevam respostas a esses questionamentos do cotidiano.
Quando o mestre menos esperar, seus alunos estarão se iniciando no caminho filosófico.
Com a definição do termo, "amigo da sabedoria" (philos = amigo; sophos = sabedoria), os primeiros filósofos (desde Tales até Sócrates, Platão e Aristóteles); em seguida entram os temas ou a divisão da filosofia em suas sub-especialidades:
- o Ser = Metafísica, Ontologia, Teodiceia
- o Conhecer = Teoria do Conhecimento, Epistemologia (ou Filosofia da Ciência), Lógica, Filosofia da Linguagem, Filosofia Social, Filosofia da História
- o Valor (ou o Agir) = Ética, Estética, Teoria dos Valores
Alguns professores iniciam com a História da Filosofia antiga, mas como levar os alunos a compreender noções básicas como a de "ideia" para Platão? E que dizer, mais adiante, de filósofos complexos como Kant? ou Hegel?
A tentação é ir logo para a chamada filosofia prática, engajada, para plantar na cabeça dos alunos uma linha, a da dialética, a da luta social, a do poder à classe oprimida, aos camponeses, aos pobres em geral. Insufla-se a ideia de que a injustiça social é um problema básico do capitalismo, que este é basicamente o mal social maior. Visa o lucro.
Ora, é fácil e perigoso instilar esse tipo de ideologia, evidentemente não se trata de Filosofia... Trata-se de desonestidade intelectual, pura e simples.
Por outro lado, o ensino tradicional requer o uso de muitos conceitos abstratos, aos quais os alunos não estão habituados. E, nessa altura, com tanta nomenclatura, o interesse dos alunos se esvazia...
Como contornar o problema didático (ensinar temas e conteúdos, e também História da Filosofia) e despertar o interesse, levar os alunos à compreensão do que seja Filosofia e filosofar?!
Sugestão: sem deixar de lado o compromisso didático com os temas e conteúdos, a cada vez que se introduzir um tema (por exemplo, em Metafísica, o tema do ser, da existência, das causas), entraria um filósofo para ilustrar o conceito em questão, e, importantíssimo,o professor começa a levantar dúvidas, a fazer perguntas. O meio para atingir o interesse é estimular a curiosidade, levar a reflexão à experiência pessoal, à vida, aos interesses, ao modo de agir e de pensar dos adolescentes e dos jovens.
Tomando o exemplo da questão do ser (que é das mais abstratas), o professor pode indagar sobre tudo o que existe, como existe, e que todos os seres vivos fatalmente acabarão, morrerão. Se alguém teve a dolorosa experiência da morte de alguém próximo, que é "fim", "não ser mais", pedir que o aluno tente expor como é não ser mais, a ausência, a sensação de nada, de vazio. Na medida do possível, o professor deve usar vocabulário do dia a dia para facilitar a reflexão.
***
Moore, um filósofo contemporâneo, intrigado com a experiência de que seria pai, perguntou a sua esposa:"Como é carregar em você um ser que não é o seu ser?" E indagações como essa podem levar a insights filosóficos. O professor pode pedir para que seus alunos escrevam respostas a esses questionamentos do cotidiano.
Quando o mestre menos esperar, seus alunos estarão se iniciando no caminho filosófico.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Essência e Existência II
Volto a abordar o tema acima, um dos pontos principais de toda a história da filosofia.
A busca do fundamental e do que funda todas as coisas existentes em geral os filósofos resumem pelo conceito de "essência". Tal como no vocabulário do dia a dia, essência é o sumo, o suprassumo, isto é, o que permanece depois de sofrer mudanças, depois, digamos assim, de ser "espremido".
A essência, é, portanto, invulnerável, imprescindível, sem ela a existência se dispersaria, seria nada.
No pensamento medieval, representado principalmente por Santo Tomás de Aquino (1225-1274), a essência se concretiza de três modos nas substâncias (substância caracteriza a permanência, algo não derivado nem secundário):
- o modo de ser de Deus, que ao mesmo tempo existe e é sua própria essência, tudo dele depende e ele não depende de nada;
- os seres criados, as criaturas, recebem sua existência e sua essência de Deus, elas diferem entre si em gênero e espécies, por exemplo, plantas, animais, homens;
- há ainda essência em tudo que se compõe de matéria (perecível) e forma (responsável pelas características individuais).
A busca pela essência prossegue nessa mesma direção nas filosofias de tipo clássico, Deus como causa eficiente e final de tudo o que existe. Essas filosofias consideram que existe mesmo o mundo religioso e sobrenatural, um tipo de metafísica da realidade última e superior para a maioria das religiões, que se impõe como um guia superior e inquestionável para a conduta humana; ao lado desse mundo de essências, que só pode ser apreendido pela filosofia, há a existência do mundo que pode ser estudado pela ciência, o mundo empírico dos fenômenos. Assim Dewey, filósofo pragmatista norte-americano, resume a filosofia tradicional em Reconstruction in Philosophy (1948).
Note-se que Dewey historiciza, quer dizer, sua reflexão se baseia na história social e cultural da humanidade.
E esse já é um pressuposto da filosofia moderna e contemporânea.
Heidegger, também se volta para a história, em particular a história da filosofia a fim de elucidar as diversas abordagens da relação essência/existência. Para ele filosofar é dialogar com os filósofos, debater com eles, abrir nossos olhos e ouvidos para o que disseram, e todos se preocuparam com o "ser do ente".
O que isso significa?
Ater-se à linguagem de cada tradição filosófica, procurar compreender como cada uma respondeu àquela questão: o que fundamenta, qual é a essência, como se "produz" o ser que determina toda e qualquer entidade (criatura, átomo, espírito, corpos, objetos, mundo, cosmo, etc., etc.).
Um exemplo: Heidegger escreveu sobre a filosofia grega, sobre Leibniz, sobre Kant, tem um elaborado e denso estudo sobre Nietzsche. Em todos procura enxergar como cada um entende o ser, e para Heidegger a linguagem é a "casa do ser". Seu diálogo com Kant mostra o poder do entendimento humano, o ser só pode ser apreendido pelo modo de conhecer transcendental, fundado em conceitos e categorias.
Interessante observar que a filosofia tradicional toma a essência e a existência como dependentes uma da outra e consideradas em si, de um modo absoluto.
Ao passo que a filosofia pós-metafísica, que Kant inaugura, toma a essência e a existência como inerentes à razão e ao nosso entendimento. Elas se enraízam em nosso pensar, em nosso filosofar, e, por isso mesmo, na construção de nossa própria humanidade, em como existimos e nos manisfestamos. Isso fundamenta tanto a essência como a existência.
A busca do fundamental e do que funda todas as coisas existentes em geral os filósofos resumem pelo conceito de "essência". Tal como no vocabulário do dia a dia, essência é o sumo, o suprassumo, isto é, o que permanece depois de sofrer mudanças, depois, digamos assim, de ser "espremido".
A essência, é, portanto, invulnerável, imprescindível, sem ela a existência se dispersaria, seria nada.
No pensamento medieval, representado principalmente por Santo Tomás de Aquino (1225-1274), a essência se concretiza de três modos nas substâncias (substância caracteriza a permanência, algo não derivado nem secundário):
- o modo de ser de Deus, que ao mesmo tempo existe e é sua própria essência, tudo dele depende e ele não depende de nada;
- os seres criados, as criaturas, recebem sua existência e sua essência de Deus, elas diferem entre si em gênero e espécies, por exemplo, plantas, animais, homens;
- há ainda essência em tudo que se compõe de matéria (perecível) e forma (responsável pelas características individuais).
A busca pela essência prossegue nessa mesma direção nas filosofias de tipo clássico, Deus como causa eficiente e final de tudo o que existe. Essas filosofias consideram que existe mesmo o mundo religioso e sobrenatural, um tipo de metafísica da realidade última e superior para a maioria das religiões, que se impõe como um guia superior e inquestionável para a conduta humana; ao lado desse mundo de essências, que só pode ser apreendido pela filosofia, há a existência do mundo que pode ser estudado pela ciência, o mundo empírico dos fenômenos. Assim Dewey, filósofo pragmatista norte-americano, resume a filosofia tradicional em Reconstruction in Philosophy (1948).
Note-se que Dewey historiciza, quer dizer, sua reflexão se baseia na história social e cultural da humanidade.
E esse já é um pressuposto da filosofia moderna e contemporânea.
Heidegger, também se volta para a história, em particular a história da filosofia a fim de elucidar as diversas abordagens da relação essência/existência. Para ele filosofar é dialogar com os filósofos, debater com eles, abrir nossos olhos e ouvidos para o que disseram, e todos se preocuparam com o "ser do ente".
O que isso significa?
Ater-se à linguagem de cada tradição filosófica, procurar compreender como cada uma respondeu àquela questão: o que fundamenta, qual é a essência, como se "produz" o ser que determina toda e qualquer entidade (criatura, átomo, espírito, corpos, objetos, mundo, cosmo, etc., etc.).
Um exemplo: Heidegger escreveu sobre a filosofia grega, sobre Leibniz, sobre Kant, tem um elaborado e denso estudo sobre Nietzsche. Em todos procura enxergar como cada um entende o ser, e para Heidegger a linguagem é a "casa do ser". Seu diálogo com Kant mostra o poder do entendimento humano, o ser só pode ser apreendido pelo modo de conhecer transcendental, fundado em conceitos e categorias.
Interessante observar que a filosofia tradicional toma a essência e a existência como dependentes uma da outra e consideradas em si, de um modo absoluto.
Ao passo que a filosofia pós-metafísica, que Kant inaugura, toma a essência e a existência como inerentes à razão e ao nosso entendimento. Elas se enraízam em nosso pensar, em nosso filosofar, e, por isso mesmo, na construção de nossa própria humanidade, em como existimos e nos manisfestamos. Isso fundamenta tanto a essência como a existência.
***
Reflita sobre esses percalços e barbaridades: indígenas não possuem alma; opositores de certos regimes devem ser eliminados; judeus dizimados; xiitas convertidos em sunitas; sunitas em xiitas; ateus condenados ao inferno. A lista da estupidez é enorme e inesgotável. Como entender isso à luz de nossa existência? E de nossa essência?
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Importância da Filosofia na vida pessoal
Em geral a Filosofia, tanto como disciplina acadêmica e como parte essencial da cultura e da história da humanidade, fica distante da vida pessoal. Mesmo quem tem um grau apurado de informação e educação formal, não consegue atinar com os conceitos, os termos, o tipo de pensamento abstrato próprios da Filosofia.
Entretanto, a reflexão filosófica cumpre uma função educacional, pedagógica e criativa na vida humana.
Como conciliar a dificuldade inerente ao pensamento filosófico com sua necessidade e importância?
A narrativa filosófica se aproxima da arte e da ciência, mas delas se distingue por não ser fantasiosa, não apelar para a pura imaginação ficcional dos artistas que representam um mundo de cores, sons, performances, e mesmo entretenimento. Distingue-se da ciência por prescindir de testes, experimentos, leis, generalizações e obtenção de resultados práticos como os da tecnologia.
Ao mesmo tempo a Filosofia depende de uma mente aberta e criativa de um lado, e da busca da verdade o que também pauta a ciência, de outro lado.
Se você é professor de Filosofia, ou se é alguém com vontade de aprender com os mestres do pensamento, pode começar com perguntas a seus alunos no primeiro caso, ou com reflexões pessoais no segundo caso: indagações que partem de situações banais do cotidiano, das vivências pessoais para em seguida generalizar com questões mais abrangentes e fundamentais.
Quem sou eu? O que faço de relevante em minha vida? Quais são os valores nos quais me baseio para decidir e julgar minhas ações e o mundo ao meu redor?
Aproveite o conceito de "mundo", por exemplo, para raciocinar, para abstrair. Como os primeiros filósofos, pergunte sobre esse "mundo". O cosmo, o universo? E vá além: como veio a ser tudo o que há? O homem em sua caminhada na face da Terra, o que isso representa para a humanidade? E o sofrimento, a dor, a humilhação, são absurdas, fazem sentido, como interpretar a morte, a morte de inocentes especialmente?
Ao atingir esse grau de abstração, eis aí o filosofar despontando. É preciso despertar a curiosidade, com filósofos que atinjam a mente e o coração.
Outras há que ziguezagueiam, parecem chegar a um resultado gratificante, mas voltam atrás, sua perplexidade as impede de seguir em frente.
E outras há que cumprem metas, se transformam, modificam seu modo de pensar em busca de melhoria, de novos valores, de indagações que alargam e iluminam seu reto caminhar.
O papel da Filosofia seria trazer para este último caminhar um número maior de pessoas cada vez mais livres, mais reflexivas, que ponderam e abrem seu pensamento. Isso impede que ideologias, credos, partidos ceguem e fechem cabeças e corações. Que elas não precisem de um comando, de um chefe, de alguém que diga o que devem fazer, o que pensar, como viver.
Entretanto, a reflexão filosófica cumpre uma função educacional, pedagógica e criativa na vida humana.
Como conciliar a dificuldade inerente ao pensamento filosófico com sua necessidade e importância?
A narrativa filosófica se aproxima da arte e da ciência, mas delas se distingue por não ser fantasiosa, não apelar para a pura imaginação ficcional dos artistas que representam um mundo de cores, sons, performances, e mesmo entretenimento. Distingue-se da ciência por prescindir de testes, experimentos, leis, generalizações e obtenção de resultados práticos como os da tecnologia.
Ao mesmo tempo a Filosofia depende de uma mente aberta e criativa de um lado, e da busca da verdade o que também pauta a ciência, de outro lado.
Se você é professor de Filosofia, ou se é alguém com vontade de aprender com os mestres do pensamento, pode começar com perguntas a seus alunos no primeiro caso, ou com reflexões pessoais no segundo caso: indagações que partem de situações banais do cotidiano, das vivências pessoais para em seguida generalizar com questões mais abrangentes e fundamentais.
Quem sou eu? O que faço de relevante em minha vida? Quais são os valores nos quais me baseio para decidir e julgar minhas ações e o mundo ao meu redor?
Aproveite o conceito de "mundo", por exemplo, para raciocinar, para abstrair. Como os primeiros filósofos, pergunte sobre esse "mundo". O cosmo, o universo? E vá além: como veio a ser tudo o que há? O homem em sua caminhada na face da Terra, o que isso representa para a humanidade? E o sofrimento, a dor, a humilhação, são absurdas, fazem sentido, como interpretar a morte, a morte de inocentes especialmente?
Ao atingir esse grau de abstração, eis aí o filosofar despontando. É preciso despertar a curiosidade, com filósofos que atinjam a mente e o coração.
***
Pessoas há que andam em círculos, o caminhar contínuo desgasta o percurso, não saem do próprio ninho construído, aliás, por elas mesmas. São prisioneiras de seus preconceitos e ignorância.Outras há que ziguezagueiam, parecem chegar a um resultado gratificante, mas voltam atrás, sua perplexidade as impede de seguir em frente.
E outras há que cumprem metas, se transformam, modificam seu modo de pensar em busca de melhoria, de novos valores, de indagações que alargam e iluminam seu reto caminhar.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Autotransformação
Todos fazem planos para o futuro, imediato e mais distante. Desde a administração do cotidiano, como a administração da vida futura (planejamento, seguros, o que fazer na aposentadoria, viagens, compras de bens móveis e imóveis, e muito mais...).
O que dizer do passado? Em geral o passado é considerado morto. Ele não morre, somos nosso passado mais do que somos nosso futuro. A vida se enriquece quando as pessoas se debruçam sobre o passado, não só como recordação, e sim ao perguntar sobre o sentido de acontecimentos vitais, o valor das perdas, os mortos que habitam seus dias e noites, os episódios traumáticos, o que se deixou para trás desfeito, ou nunca realizado, as inúmeras frustrações.
Pois bem, o passado de cada pessoa com suas vivências, sentimentos, paixões, temores, fobias, alegrias, parecem enterrados, inamovíveis, irreversíveis. A psicanálise volta, retorna, retoma esse passado para ser reavaliado, reconsiderado, e até refeito sob novas perspectivas.
Cada etapa da vida, especialmente se há enriquecimento interior, se a sensibilidade e a vontade de se compreender, de entender melhor certas ocorrências, inclusive buscar quais delas são mais significativas, representa momentos diferentes para repensar o que passou e ecoa sempre. É possível ampliar o modo de se olhar para o que passou, e assim mudar de perspectiva. Não é preciso análise com profissionais. Para se ver no espelho interior é preciso abertura, que suas experiências novas possam filtrar as antigas. O passado nos impele, não se extingue. Pelo contrário, acontecimentos não voltam, impossível retornar no tempo, tudo tem e teve seu tempo, evidente. Porém, o que a pessoa é, está sendo produzido pelo que ela já foi um dia. Fatos marcantes, na medida em que se amadurece, são vistos sob novo prisma, pois somos capazes de autotransformação.
Sim, fui covarde, fui culpado, fui excessivamente rigoroso, fui mesquinho, fui generoso, e muitos modos mais de se auto-avaliar podem ser redirecionados. Negação, alteração, justificativas, enaltecimento, auto-engano, o próprio esquecimento, a criação de barragens, esses mecanismos, ao serem reconhecidos, ajudam nessa reconsideração. Fui justo comigo? Por quais razões me considero incapaz e fraco? Ou o contrário, me julgo acima de suspeita, incólume?
Alguns chegam a situações limite, quando sentimentos espocam ou faltam, e se sucumbe. Outros se renovam, seguem adiante com força e coragem, e uns poucos conseguem paz interior.
Vez por outra uma epifania, um súbito episódio revelador capaz de mudar tudo.
Obstáculos à autotransformação: negação, desculpas e justificativas e o sepultamento de seu passado.
Condições ótimas à autotransformação: abertura, humildade, e muita, muita reflexão acompanhada de informação, leitura, sensibilidade. Evitar as conchas que fecham as pessoas, como preconceito, radicalismo, a fé que cega, a egolatria.
O que dizer do passado? Em geral o passado é considerado morto. Ele não morre, somos nosso passado mais do que somos nosso futuro. A vida se enriquece quando as pessoas se debruçam sobre o passado, não só como recordação, e sim ao perguntar sobre o sentido de acontecimentos vitais, o valor das perdas, os mortos que habitam seus dias e noites, os episódios traumáticos, o que se deixou para trás desfeito, ou nunca realizado, as inúmeras frustrações.
Pois bem, o passado de cada pessoa com suas vivências, sentimentos, paixões, temores, fobias, alegrias, parecem enterrados, inamovíveis, irreversíveis. A psicanálise volta, retorna, retoma esse passado para ser reavaliado, reconsiderado, e até refeito sob novas perspectivas.
Cada etapa da vida, especialmente se há enriquecimento interior, se a sensibilidade e a vontade de se compreender, de entender melhor certas ocorrências, inclusive buscar quais delas são mais significativas, representa momentos diferentes para repensar o que passou e ecoa sempre. É possível ampliar o modo de se olhar para o que passou, e assim mudar de perspectiva. Não é preciso análise com profissionais. Para se ver no espelho interior é preciso abertura, que suas experiências novas possam filtrar as antigas. O passado nos impele, não se extingue. Pelo contrário, acontecimentos não voltam, impossível retornar no tempo, tudo tem e teve seu tempo, evidente. Porém, o que a pessoa é, está sendo produzido pelo que ela já foi um dia. Fatos marcantes, na medida em que se amadurece, são vistos sob novo prisma, pois somos capazes de autotransformação.
Sim, fui covarde, fui culpado, fui excessivamente rigoroso, fui mesquinho, fui generoso, e muitos modos mais de se auto-avaliar podem ser redirecionados. Negação, alteração, justificativas, enaltecimento, auto-engano, o próprio esquecimento, a criação de barragens, esses mecanismos, ao serem reconhecidos, ajudam nessa reconsideração. Fui justo comigo? Por quais razões me considero incapaz e fraco? Ou o contrário, me julgo acima de suspeita, incólume?
Alguns chegam a situações limite, quando sentimentos espocam ou faltam, e se sucumbe. Outros se renovam, seguem adiante com força e coragem, e uns poucos conseguem paz interior.
Vez por outra uma epifania, um súbito episódio revelador capaz de mudar tudo.
Obstáculos à autotransformação: negação, desculpas e justificativas e o sepultamento de seu passado.
Condições ótimas à autotransformação: abertura, humildade, e muita, muita reflexão acompanhada de informação, leitura, sensibilidade. Evitar as conchas que fecham as pessoas, como preconceito, radicalismo, a fé que cega, a egolatria.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Filosofia e amizade
Filósofos em geral apreciam a amizade como marca das relações humanas. Enquanto o amor pode faltar ou vir em excesso, acabar, gerar rancor, incendiar a alma, cegar, a amizade é mais serena e duradoura. As bases dos laços entre amigos(as) são a afinidade, o convívio, a troca de experiências, o aprendizado, o desprendimento, a compreensão. A amizade dispensa cobrança, ignora o ciúme, e, quando o amor filial, materno, paterno, entre casais vem revestido pela amizade, engrandece essas relações, alimenta-as com a sinceridade, a admiração e o proveito mútuo de que usufruem pessoas amigas.
Bem conhecidas são as reflexões de Aristóteles nos livros 8 e 9 de Ética a Nicômaco". "O amor é um sentimento e a amizade uma disposição de caráter"; vem baseada no respeito, nenhuma das partes precisa comandar a outra, há camaradagem,confiança e aprazibilidade. Um traço essencial à amizade é o querer bem, a benevolência mútua, desprovida de interesses, como usar o outro em seu proveito ou apostar no prazer simplesmente. Por isso a distância não prejudica, mas é claro que o convívio a alimenta.
O ególatra, aquele que ama a si mesmo, é incapaz de ser amigo, mas também aquele que se menospreza é incapaz de prezar o outro.
Para Cícero, a amizade decorre de sinceridade, benevolência, confiança e desprendimento. Conversar com um amigo é o mesmo que conversar consigo mesmo, tal é o grau de sentimentos compartilhados, o alegrar-se e o entristecer-se; "uma alma dissimulada e tortuosa não pode ser fiel", escreveu Cicero no Diálogo sobre a Amizade.
Michel de Montaigne refletiu sobre a amizade, em especial a sua amizade com La Boétie, também filósofo (século 16), como uma relação pessoal, alguém por quem se tem afinidade, apreço, valores e vivências em comum. No Tratado sobre a Amizade, o autor é sincero, o tom é confessional, ele ressalta a importância das experiências vividas, dos fortes laços que os completam, dos conselhos trocados, mas também mostra que amizades podem se romper, e resta o rancor. Quando lhe foi perguntado, por que tal amizade com La Boétie? Ele respondeu, "porque era ele; porque era eu". Isso mostra que as relações acontecem favorecidas ou não pelo meio, pelo ambiente social, pelas convivências; isso pode ou não fazer surgirem amizades.
Assim, cada um pode engrandecer a si e aos outros nessas relações antes de tudo simples, diretas, benéficas, sinceras. E, se Filosofia é a amizade à sabedoria, se compreende ainda melhor que filosofar requer esse caminhar em direção ao que é saber, ao que se preza, ao que se valoriza.
Ao mesmo tempo, o quanto são desprezíveis o engano, a mentira, o jogo duplo. O quanto causam de prejuízo moral, ético, político, social, econômico as mentiras, as manipulações, os raciocínios tortuosos, o fingimento, a astúcia.
Bem conhecidas são as reflexões de Aristóteles nos livros 8 e 9 de Ética a Nicômaco". "O amor é um sentimento e a amizade uma disposição de caráter"; vem baseada no respeito, nenhuma das partes precisa comandar a outra, há camaradagem,confiança e aprazibilidade. Um traço essencial à amizade é o querer bem, a benevolência mútua, desprovida de interesses, como usar o outro em seu proveito ou apostar no prazer simplesmente. Por isso a distância não prejudica, mas é claro que o convívio a alimenta.
O ególatra, aquele que ama a si mesmo, é incapaz de ser amigo, mas também aquele que se menospreza é incapaz de prezar o outro.
Para Cícero, a amizade decorre de sinceridade, benevolência, confiança e desprendimento. Conversar com um amigo é o mesmo que conversar consigo mesmo, tal é o grau de sentimentos compartilhados, o alegrar-se e o entristecer-se; "uma alma dissimulada e tortuosa não pode ser fiel", escreveu Cicero no Diálogo sobre a Amizade.
Escrever ensaios é fazer experiências com o pensamento
Assim, cada um pode engrandecer a si e aos outros nessas relações antes de tudo simples, diretas, benéficas, sinceras. E, se Filosofia é a amizade à sabedoria, se compreende ainda melhor que filosofar requer esse caminhar em direção ao que é saber, ao que se preza, ao que se valoriza.
Ao mesmo tempo, o quanto são desprezíveis o engano, a mentira, o jogo duplo. O quanto causam de prejuízo moral, ético, político, social, econômico as mentiras, as manipulações, os raciocínios tortuosos, o fingimento, a astúcia.
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Considere-se nossa situação. Um mergulho no tempo e aterrissamos no planalto central do Brasil. Ali nasceu, há treze anos, um projeto baseado na inimizade ao país e aos brasileiros. Esperemos pelo seu fim próximo.
A estrela do jardim do Palácio do Alvorada foi desfeita, a estrela dos líderes do partido foi plantada no poder em benefício próprio com dinheiro público.
terça-feira, 28 de julho de 2015
O (in)dispensável ser
Se algum escritor ou pensador se aventurasse a dispensar o verbo ser, conseguiria que seu leitor o compreendesse? Alguém poderia ousar eliminar "ser"?
Impossível, por inúmeras razões. "Ser", "être", "to be", e certamente nas diferentes línguas, algo semelhante à função de "ser" deve ocorrer.
Sequer questionamos, nem poderíamos, que conjugar tal verbo seja imprescindível (acabei de escrever "seja"...). Simplesmente porque nomear, é (novo uso do verbo ser) distinguir algo para que nós ou para que os outros nos compreendam. Identificar, classificar, opor, destacar, apontar, e muitas outras ações linguísticas requerem por detrás a pressuposição de que coisas, pessoas, lugares, temporalidades, situações, sejam, no sentido de existirem, de estarem aí à nossa disposição.
Desde que a Filosofia nasceu, a pergunta é pelo ser e pelo não ser. A mais essencial de todas as questões, como apontou Heidegger é essa: por que existe o ser e não antes o nada?
Mesmo no uso banal, e, talvez mais importante nesse mesmo uso cotidiano, "é", "era", "sou", "não é", "não sou", se apresentam o tempo todo. "Ele é", invoca quem, o que, como. "Isto é", acarreta indagar o que, como, e também, duvidar, afirmar, pressupor.
Sujeito, predicado e objeto: "Algo ou alguém é tal". Essa proposição, o núcleo da lógica e da gramática durante séculos, foi analisada como resumindo todo tipo de pensamento.
No sentido tradicional, o ser pertence à realidade entendida no sentido metafísico, quer dizer, como inerente a tudo. Ser ideal, ser substancial, ser como consciência de si, ser como ideia se autoproduzindo na história, ser aí no tempo, ser como existência humana, assim a filosofia rondou em torno ao SER.
Não mais. A Filosofia da Linguagem mais recente deslocou a questão para a diversidade dos usos do verbo ser na medida em que não identifica o verbo empregado na linguagem usual com o ser na acepção de que tudo é, tudo tem uma essência, de que todos os entes existem ou subsistem no ser.
Hoje a Filosofia retira do ser esse caráter absoluto e essencial, as coisas se dispõem para nós, para nosso uso e nosso conhecimento.
Indispensável no uso normal da linguagem, e dispensável ou como disse Wittgenstein, dissolvido enquanto eixo fundamental da metafísica. Assim é "ser", ou "o ser".
Faça o teste, pergunte para si mesmo "o que eu sou?"
Impossível, por inúmeras razões. "Ser", "être", "to be", e certamente nas diferentes línguas, algo semelhante à função de "ser" deve ocorrer.
Sequer questionamos, nem poderíamos, que conjugar tal verbo seja imprescindível (acabei de escrever "seja"...). Simplesmente porque nomear, é (novo uso do verbo ser) distinguir algo para que nós ou para que os outros nos compreendam. Identificar, classificar, opor, destacar, apontar, e muitas outras ações linguísticas requerem por detrás a pressuposição de que coisas, pessoas, lugares, temporalidades, situações, sejam, no sentido de existirem, de estarem aí à nossa disposição.
Desde que a Filosofia nasceu, a pergunta é pelo ser e pelo não ser. A mais essencial de todas as questões, como apontou Heidegger é essa: por que existe o ser e não antes o nada?
Mesmo no uso banal, e, talvez mais importante nesse mesmo uso cotidiano, "é", "era", "sou", "não é", "não sou", se apresentam o tempo todo. "Ele é", invoca quem, o que, como. "Isto é", acarreta indagar o que, como, e também, duvidar, afirmar, pressupor.
Sujeito, predicado e objeto: "Algo ou alguém é tal". Essa proposição, o núcleo da lógica e da gramática durante séculos, foi analisada como resumindo todo tipo de pensamento.
No sentido tradicional, o ser pertence à realidade entendida no sentido metafísico, quer dizer, como inerente a tudo. Ser ideal, ser substancial, ser como consciência de si, ser como ideia se autoproduzindo na história, ser aí no tempo, ser como existência humana, assim a filosofia rondou em torno ao SER.
Não mais. A Filosofia da Linguagem mais recente deslocou a questão para a diversidade dos usos do verbo ser na medida em que não identifica o verbo empregado na linguagem usual com o ser na acepção de que tudo é, tudo tem uma essência, de que todos os entes existem ou subsistem no ser.
Hoje a Filosofia retira do ser esse caráter absoluto e essencial, as coisas se dispõem para nós, para nosso uso e nosso conhecimento.
No centro de todo ser, um ser que questiona
A afirmação "algo é isso", passou a ter um uso entre inúmeros outros. Para Wittgenstein, após quebrar a cabeça com a proposição geral que resumiria tudo o que é o caso, tudo o que ocorre, concluiu que é na e pela linguagem de todo o dia que faz sentido afirmar que algo é. E mais em um sem número de usos. Pense na comunicação entre falantes e como passa despercebido o verbo ser, e falar acerca do ser em si fica restrito ao linguajar do filósofo. Indispensável no uso normal da linguagem, e dispensável ou como disse Wittgenstein, dissolvido enquanto eixo fundamental da metafísica. Assim é "ser", ou "o ser".
Faça o teste, pergunte para si mesmo "o que eu sou?"
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