Trata-se de atitude perante a vida, e, por consequência, perante a morte.
A atitude filosófica não diz respeito a estilos de vida semelhantes aos da lista abaixo:
- Conformistas: baixam a cabeça e preferem seguir normas e regras prontas, sem discussão; o chefe, o pastor, o líder político são obedecidos, basta pertencer a um rebanho e com ele marchar, de preferência repetindo palavras de ordem.
- Interesseiros: seu lema é aproveitar ao máximo, sugar seja o que for, seja de quem for. Vale bajular, vale postar sua imagem, de sua família e amigos, todos prontos em atender requisitos de sobrevivência social e econômica. Fingir, ocultar, escamotear sempre que isso for útil a sua sobrevivência.
- Revolucionários: se revestem com a crença de que sua bandeira, seu lema, seu líder político, seu partido devem não só vencer como dominar os inimigos, ou seja, todos os adeptos de outras vertentes ideológicas ou doutrinárias. A tática é a do convencimento.
- Gênios iluminados: trazem a ciência e a especialização como único caminho, verdade é a prova científica, os laboratórios são como que templos, fora deles reina a ignorância. Eles teriam sempre razão, gráficos, tabelas, demonstrações filtram todo tipo de ação e pensamento.
Esses são estilos de vida que centram seus valores em atitudes unilaterais. Ora, não há um único modo de ver e enfrentar questões e problemas.
A atitude filosófica requer abertura, amplos horizontes, uma visão do todo, questionar. O que não significa ficar o tempo todo com dúvidas e com um pé atrás, nem cético e nem dogmático.
E isso se consegue com conteúdo, com leitura, com informação de fontes fidedignas, com a firmeza de caráter, de que não há resposta para tudo, mas que, ainda assim, vale perguntar. Mas perguntar com embasamento, e para isso não é preciso ter estudado um ou mais filósofos.
A atitude filosófica é calma, sábia sem ostentação, ouve argumentos, usa argumentos e mostra conclusões possíveis.
A forma dessa argumentação é o diálogo, o estranhamento diante do mistério, entender que não sabemos tudo, que a arrogância do que diz tudo saber deve ser combatida com a humildade do que é possível e devido saber.
Subimos escadas do conhecimento, da ética, dos valores, sem a pretensão de que essas escaladas terão um fim. A não ser o fim de cada um de nós, a morte em nosso horizonte.
segunda-feira, 11 de maio de 2020
segunda-feira, 20 de abril de 2020
O que são valores?
Em nosso cotidiano, comunicações, atividades, decisões, somos instados a fazer escolhas. Impossível o imobilismo, talvez com exceção de certas doenças graves ou quando inteiramente subjugados.
Ao escolhermos nos pautamos por valores, como bom, mau; bem, mal; certo, errado; saudável, doentio; útil, inútil; proveitoso, prejudicial; inofensivo, perigoso... Valores se apresentam como polos opostos e em hierarquia, do mais alto e nobre ao menos valorado.
Não faltam adjetivos para qualificar nossos atos.
Valores são impalpáveis, a situação é real, mas o modo como a consideramos é pessoal, cultural, político, social.
Entram em jogo a consciência moral, a formação pessoal, pelo menos é o que se espera de adultos responsáveis.
Quando Habermas se refere a consciência moral no agir comunicativo, adota a linha de Piaget, ao mostrar que a forma de vida social surgiu com o uso da linguagem para comunicação que se dá em um espaço lógico no qual se formam estruturas responsáveis pelas várias formas de acesso à realidade e à interação, com o progressivo domínio de símbolos.
Ainda segundo Habermas, que adota a classificação de Kohlberg para a evolução dos níveis de consciência moral, há três níveis:
- o pré-convencional, com obediência a um poder superior, que confere responsabilidade objetiva à ação;
- o convencional, que corresponde ao nível de responsabilidade da faixa jovem, cumpre-se o que a lei ou a autoridade estabelecem;
- o pós-convencional, em que o padrão é a ordem institucional, as leis, os direitos, e os valores que podem ser julgados e apreciados pelos sujeitos cujos direitos individuais, liberdade e igualdade são os guias. A orientação ética da ação segue princípios universais, acolhidos de forma autônoma, compreensíveis e criticáveis. Forma-se a dignidade do indivíduo.
Creio que esse último nível em raras sociedades e em poucos indivíduos é atingido.
Mas é nesse nível de responsabilidade que as escolhas de valores deveriam ser feitas.
Então vem a pergunta, como se dá que uma ação siga normas, entre elas a do dever?
Quando a escolha de valores é guiada por valores! E isso não é um jogo de palavras...
Dignidade, respeito, autonomia entram em cena.
Como escolher entre valores, o que nos motiva?
Se for o lado da moeda do orgulho, da mistificação, da covardia, prevalece o polo negativo, o que caracterizaria sociedades hobbesianas, o homem lobo do homem.
Na sociedade de integração, com nível moral pós convencional, a autonomia e a formação ético/moral fazem pender para o lado do bem social, da liberdade, da saúde, do bom uso de valores, cujo critério é a consideração pelo outro.
Na hierarquia de valores em geral considera-se o valor moral/espiritual superior aos valores da arte (belo, prazeroso) saúde (cuidados com o corpo e a mente), da utilidade (produção e consumo de bens).
Essa hierarquia pode mudar conforme a situação pessoal e/ou social.
No momento atual (abril de 2020) importa a vida individual e coletiva, sua preservação, a valorização das ciências de ponta, as estatísticas, as projeções, em última análise, o local, o nacional e o universal estão em total co-dependência.
Como sairemos dessa nova e surpreendente condição?!
Que valores nos guiarão?!
Ao escolhermos nos pautamos por valores, como bom, mau; bem, mal; certo, errado; saudável, doentio; útil, inútil; proveitoso, prejudicial; inofensivo, perigoso... Valores se apresentam como polos opostos e em hierarquia, do mais alto e nobre ao menos valorado.
Não faltam adjetivos para qualificar nossos atos.
Valores são impalpáveis, a situação é real, mas o modo como a consideramos é pessoal, cultural, político, social.
Entram em jogo a consciência moral, a formação pessoal, pelo menos é o que se espera de adultos responsáveis.
Quando Habermas se refere a consciência moral no agir comunicativo, adota a linha de Piaget, ao mostrar que a forma de vida social surgiu com o uso da linguagem para comunicação que se dá em um espaço lógico no qual se formam estruturas responsáveis pelas várias formas de acesso à realidade e à interação, com o progressivo domínio de símbolos.
Ainda segundo Habermas, que adota a classificação de Kohlberg para a evolução dos níveis de consciência moral, há três níveis:
- o pré-convencional, com obediência a um poder superior, que confere responsabilidade objetiva à ação;
- o convencional, que corresponde ao nível de responsabilidade da faixa jovem, cumpre-se o que a lei ou a autoridade estabelecem;
- o pós-convencional, em que o padrão é a ordem institucional, as leis, os direitos, e os valores que podem ser julgados e apreciados pelos sujeitos cujos direitos individuais, liberdade e igualdade são os guias. A orientação ética da ação segue princípios universais, acolhidos de forma autônoma, compreensíveis e criticáveis. Forma-se a dignidade do indivíduo.
Creio que esse último nível em raras sociedades e em poucos indivíduos é atingido.
Mas é nesse nível de responsabilidade que as escolhas de valores deveriam ser feitas.
Então vem a pergunta, como se dá que uma ação siga normas, entre elas a do dever?
Quando a escolha de valores é guiada por valores! E isso não é um jogo de palavras...
Dignidade, respeito, autonomia entram em cena.
Como escolher entre valores, o que nos motiva?
Se for o lado da moeda do orgulho, da mistificação, da covardia, prevalece o polo negativo, o que caracterizaria sociedades hobbesianas, o homem lobo do homem.
Na sociedade de integração, com nível moral pós convencional, a autonomia e a formação ético/moral fazem pender para o lado do bem social, da liberdade, da saúde, do bom uso de valores, cujo critério é a consideração pelo outro.
Na hierarquia de valores em geral considera-se o valor moral/espiritual superior aos valores da arte (belo, prazeroso) saúde (cuidados com o corpo e a mente), da utilidade (produção e consumo de bens).
Essa hierarquia pode mudar conforme a situação pessoal e/ou social.
No momento atual (abril de 2020) importa a vida individual e coletiva, sua preservação, a valorização das ciências de ponta, as estatísticas, as projeções, em última análise, o local, o nacional e o universal estão em total co-dependência.
Como sairemos dessa nova e surpreendente condição?!
Que valores nos guiarão?!
segunda-feira, 13 de abril de 2020
O que é a alma de um ponto de vista filosófico
Uma das metáforas mais interessantes e esclarecedoras sobre a alma, é a do sopro, sopro vital, respirar, inalar e sentir que o corpo se encheu com algo inefável, essencial, imaterial, invisível.
Assim com os pensadores da antiguidade, entre as três almas de Platão, há uma que é superior e que comanda as da coragem e da nutrição: trata-se da alma intelectual. O corpo é a prisão da alma imortal, esta quer se libertar, reencontrar a si no mundo das ideias.
Para Aristóteles somos substância com componentes materiais e formais, atuais e potenciais. A forma essencial do ser racional, a que não sofre alterações físicas, seria a alma.
Os pensadores cristãos concebem alma como puro espírito, imortal, nela são marcados indelevelmente pensamentos, desejos, intuições, na alma está alojada a consciência intelectual e moral, daí receber prêmio ou castigo na vida eterna.
Descartes insubordinou-se contra o conceito de alma cristão, para ele a alma é puro cogito, pensamento, portanto algo intelectual, imaterial, mas não habitáculo moral.
À medida em que avança o pensamento filosófico ocidental, a concepção de alma cede lugar à de mente, razão, o elemento racional se distingue do moral, a ação humana é impulsionada, motivada, movida por situações da vida humana em geral.
Quanto ao aspecto intelectual, não é próprio da alma no sentido de alma puro espírito, diversa da "carne". O aspecto racional ou intelectual tem a ver com o aprendizado, com a linguagem, com a comunicação, com a educação, com a cultura de cada povo.
O conceito da alma encontra pouco terreno filosófico na modernidade. O sentido em que filósofos, literatos, poetas, artistas se referem a alma é sempre metafórico, ela flui, ela marca, ela assombra, ela sofre, ela encanta.
A alma prossegue sendo tema religioso, místico, a ela são imputadas virtudes incorporais, espirituais, e permanecem resquícios do pensamento antigo, como imortalidade, sujeição a prêmio ou castigo, em mundos do além, podendo usufruir de encontros com outras almas, ou mesmo receber tesouros e delícias do prazer.
Para refletir:
"A face é a alma do corpo" (Wittgenstein)
Assim com os pensadores da antiguidade, entre as três almas de Platão, há uma que é superior e que comanda as da coragem e da nutrição: trata-se da alma intelectual. O corpo é a prisão da alma imortal, esta quer se libertar, reencontrar a si no mundo das ideias.
Para Aristóteles somos substância com componentes materiais e formais, atuais e potenciais. A forma essencial do ser racional, a que não sofre alterações físicas, seria a alma.
Os pensadores cristãos concebem alma como puro espírito, imortal, nela são marcados indelevelmente pensamentos, desejos, intuições, na alma está alojada a consciência intelectual e moral, daí receber prêmio ou castigo na vida eterna.
Descartes insubordinou-se contra o conceito de alma cristão, para ele a alma é puro cogito, pensamento, portanto algo intelectual, imaterial, mas não habitáculo moral.
À medida em que avança o pensamento filosófico ocidental, a concepção de alma cede lugar à de mente, razão, o elemento racional se distingue do moral, a ação humana é impulsionada, motivada, movida por situações da vida humana em geral.
Quanto ao aspecto intelectual, não é próprio da alma no sentido de alma puro espírito, diversa da "carne". O aspecto racional ou intelectual tem a ver com o aprendizado, com a linguagem, com a comunicação, com a educação, com a cultura de cada povo.
O conceito da alma encontra pouco terreno filosófico na modernidade. O sentido em que filósofos, literatos, poetas, artistas se referem a alma é sempre metafórico, ela flui, ela marca, ela assombra, ela sofre, ela encanta.
A alma prossegue sendo tema religioso, místico, a ela são imputadas virtudes incorporais, espirituais, e permanecem resquícios do pensamento antigo, como imortalidade, sujeição a prêmio ou castigo, em mundos do além, podendo usufruir de encontros com outras almas, ou mesmo receber tesouros e delícias do prazer.
Para refletir:
"A face é a alma do corpo" (Wittgenstein)
sábado, 4 de abril de 2020
O cuidado de um ponto de vista filosófico
Quando iniciei o blog, o fiz por sugestão de colegas de minha filha, quando ela lecionava em uma escola de inglês.
O ponto de partida foi uma reflexão sobre o cuidado, ação que é vital para todos nós, para toda a humanidade como essa que experimentamos nesses dias tormentosos a serem enfrentados. Dessa vez o inimigo não é um exército, a fome, a pobreza, o ditador, o terrorista - o inimigo é o contato, o contágio, a contaminação.
Deixando de lado disputas políticas absurdas, chefes de estado perplexos ou irresponsáveis, perdas colossais nas economias locais e global, vamos ao que me propus: pensar, ir mais longe do que urge, do que é imediato, mas, claro, não menos importante.
Cuidar significa manter, sustentar, guiar a atenção para ações e comportamentos, lançar um olhar para os que são próximos, cuidar de si, e isso tudo pode parecer simples e banal, mas é o que sustenta a vida. E a vida é a abertura para as possibilidades e escolhas, que para muitos inexiste. Famílias de refugiados, trabalhadores em perigo, pobreza e miséria, doentes -, para todos esses as escolhas são poucas e o perigo é imediato e real.
Mesmo assim, de modo geral, é preciso ter cuidado, sempre.
Senão vejamos: nos atos do dia a dia, para um simples café da manhã, foi preciso ir à padaria, ou ao super-mercado, pagar, portanto, auferir renda, trabalhar, escolher, atravessar ruas, usar um meio de transporte, ou prevenir-se e ter à mão o necessário. Enfim, em todas as ações, foi preciso cuidado.
É o proverbial, "Quem ama cuida", e também quem trabalha cuida, quem aguarda cuida, quem fabrica cuida, quem transporta cuida.
E o que seria o contrário?
O interesse próprio, o egoísmo, uma pretensa neutralidade e abstenção da realidade, a negação, a violência, a irresponsabilidade, a cegueira ideológica, o deixar-se levar, ignorar as circunstâncias, recusar informação fidedigna, o véu da ignorância.
As consequências para os previdentes e cuidadosos são benéficas, para os irresponsáveis as consequências são danosas, acontece que não só para si, mas sim, e principalmente, para os outros.
Habitamos um planeta, bilhões de pessoas que precisaram interromper suas atividades banais e de repente, perplexos, acordar para a vida, que requer cuidado especial com algo que era inteiramente imprevisível, buscamos o sentido disso tudo, e acordamos para a fragilidade da vida.
Essa situação pode ser simbolizada pela máscara, algo avesso ao relacionar-se e que se tornou imperioso para o próprio relacionar-se!
O que diz Heidegger sobre o cuidado?
Somos seres aí, usamos, fabricamos, perdemos, procuramos, indagamos, e nossa relação desse ser-aí que somos com o mundo implica cuidado, e num sentido existencial, o da abertura para o mundo, o do orientar-se, seguir um rumo, coexistir, e essa coexistência se manisfesta como cuidado, como assistência. Uma condição ontológica que hoje se tornou evidente e urgente.
O ponto de partida foi uma reflexão sobre o cuidado, ação que é vital para todos nós, para toda a humanidade como essa que experimentamos nesses dias tormentosos a serem enfrentados. Dessa vez o inimigo não é um exército, a fome, a pobreza, o ditador, o terrorista - o inimigo é o contato, o contágio, a contaminação.
Deixando de lado disputas políticas absurdas, chefes de estado perplexos ou irresponsáveis, perdas colossais nas economias locais e global, vamos ao que me propus: pensar, ir mais longe do que urge, do que é imediato, mas, claro, não menos importante.
Cuidar significa manter, sustentar, guiar a atenção para ações e comportamentos, lançar um olhar para os que são próximos, cuidar de si, e isso tudo pode parecer simples e banal, mas é o que sustenta a vida. E a vida é a abertura para as possibilidades e escolhas, que para muitos inexiste. Famílias de refugiados, trabalhadores em perigo, pobreza e miséria, doentes -, para todos esses as escolhas são poucas e o perigo é imediato e real.
Mesmo assim, de modo geral, é preciso ter cuidado, sempre.
Senão vejamos: nos atos do dia a dia, para um simples café da manhã, foi preciso ir à padaria, ou ao super-mercado, pagar, portanto, auferir renda, trabalhar, escolher, atravessar ruas, usar um meio de transporte, ou prevenir-se e ter à mão o necessário. Enfim, em todas as ações, foi preciso cuidado.
É o proverbial, "Quem ama cuida", e também quem trabalha cuida, quem aguarda cuida, quem fabrica cuida, quem transporta cuida.
E o que seria o contrário?
O interesse próprio, o egoísmo, uma pretensa neutralidade e abstenção da realidade, a negação, a violência, a irresponsabilidade, a cegueira ideológica, o deixar-se levar, ignorar as circunstâncias, recusar informação fidedigna, o véu da ignorância.
As consequências para os previdentes e cuidadosos são benéficas, para os irresponsáveis as consequências são danosas, acontece que não só para si, mas sim, e principalmente, para os outros.
Habitamos um planeta, bilhões de pessoas que precisaram interromper suas atividades banais e de repente, perplexos, acordar para a vida, que requer cuidado especial com algo que era inteiramente imprevisível, buscamos o sentido disso tudo, e acordamos para a fragilidade da vida.
Essa situação pode ser simbolizada pela máscara, algo avesso ao relacionar-se e que se tornou imperioso para o próprio relacionar-se!
Cuidar se transformou em isolar
O que diz Heidegger sobre o cuidado?
Somos seres aí, usamos, fabricamos, perdemos, procuramos, indagamos, e nossa relação desse ser-aí que somos com o mundo implica cuidado, e num sentido existencial, o da abertura para o mundo, o do orientar-se, seguir um rumo, coexistir, e essa coexistência se manisfesta como cuidado, como assistência. Uma condição ontológica que hoje se tornou evidente e urgente.
domingo, 22 de março de 2020
Doença, morte, corpo e alma segundo Thomas Mann
Aproveito as muitas horas, dias e provavelmente semanas de reclusão para adiantar a leitura da obra prima de Thomas Mann, Der Zauberberg (A Montanha Mágica).
Já havia lido há tempos em português, depois em inglês. Mas sempre quis lê-la no original. Assim, resolvi voltar a estudar alemão, curso que interrompi no longínquo 1972, no segundo ano.
Mas entre os atuais três anos da língua e ler Thomas Mann, ia uma distância...
Ainda assim me propus à tarefa, são 1005 páginas!
Aos poucos, com dicionário on-line, prazer e paciência, prossigo, mergulho nas experiências de Hans Castorp, 23 anos, em um sanatório para tratamento de tuberculose em Davos, por duas semanas.
Cada hora e cada dia são descritos com minúcia, e nos levam a reflexões sobre a vida, e quem reflete sobre a vida, o faz necessariamente sobre a morte...
E o que leva à morte essencialmente são doenças. O personagem principal, ao chegar à estação e depois ao sanatório, experimenta nele mesmo a doença do seu primo, Joachim, a quem visitava.
Assim Hans Castorp se expressa sobre o mal estar que sente:
Na p. 102: Als ob der Körper seine eigene Wege ginge und keinen Zummenhang mir der Seele mehr hätte. "Como se o corpo tomasse seu próprio caminho e não tivesse mais relação com a alma". E um pouco adiante, o personagem sente que não faz nenhum sentido razoável isso que ele sente, um tipo de desgarramento do corpo, como se o corpo se "comportasse" com vontade própria, a despeito do que sua alma desejaria...
A vida cotidiana escapa de nosso controle, somos ao invés de donos de si meros corpos controlados por um vírus. O invisível tomou conta do mundo todo. Perplexos assistimos a cenas de dor, sofrimento, isolamento e morte.
Mais uma vez a humanidade precisa com urgência da ciência, essa salvação que passa esquecida e desconhecida grande parte do tempo pela maioria das pessoas...
1875-1955 (Prêmio Nobel de Literatura 1929)
Já havia lido há tempos em português, depois em inglês. Mas sempre quis lê-la no original. Assim, resolvi voltar a estudar alemão, curso que interrompi no longínquo 1972, no segundo ano.
Mas entre os atuais três anos da língua e ler Thomas Mann, ia uma distância...
Ainda assim me propus à tarefa, são 1005 páginas!
Aos poucos, com dicionário on-line, prazer e paciência, prossigo, mergulho nas experiências de Hans Castorp, 23 anos, em um sanatório para tratamento de tuberculose em Davos, por duas semanas.
Sanatório em Davos no qual se inspirou T. Mann
Cada hora e cada dia são descritos com minúcia, e nos levam a reflexões sobre a vida, e quem reflete sobre a vida, o faz necessariamente sobre a morte...
E o que leva à morte essencialmente são doenças. O personagem principal, ao chegar à estação e depois ao sanatório, experimenta nele mesmo a doença do seu primo, Joachim, a quem visitava.
Assim Hans Castorp se expressa sobre o mal estar que sente:
Na p. 102: Als ob der Körper seine eigene Wege ginge und keinen Zummenhang mir der Seele mehr hätte. "Como se o corpo tomasse seu próprio caminho e não tivesse mais relação com a alma". E um pouco adiante, o personagem sente que não faz nenhum sentido razoável isso que ele sente, um tipo de desgarramento do corpo, como se o corpo se "comportasse" com vontade própria, a despeito do que sua alma desejaria...
***
Nossas atividades normais e banais são repentinamente interrompidas, o corpo passa como que a ter vontade própria, não dominamos mais nossas sensações de bem-estar a respeito das quais normalmente nem atentaríamos. E ficamos à mercê da doença, procurando a cura, um hospital, um sanatório (caso de Hans), um remédio, por vezes um milagre.A vida cotidiana escapa de nosso controle, somos ao invés de donos de si meros corpos controlados por um vírus. O invisível tomou conta do mundo todo. Perplexos assistimos a cenas de dor, sofrimento, isolamento e morte.
Mais uma vez a humanidade precisa com urgência da ciência, essa salvação que passa esquecida e desconhecida grande parte do tempo pela maioria das pessoas...
segunda-feira, 9 de março de 2020
O QUE DIZ HEIDEGGER: SOBRE "VERDADE"?
O mínimo que se pode dizer sobre a concepção de Heidegger de verdade, é que ela é original.
Em primeiro lugar porque ele dispensa critérios como o do empirismo, de que verdade depende de contato das sensações com o mundo; discorda dos conceitos científicos de verdade, como o de comprovação por testes e cálculos; discorda de que a verdade seja algo inefável, divino, inalcançável para nós, humanos; discorda do conceito aristotélico/tomista, de que verdade é o acordo entre o intelecto e a realidade dos fatos; discorda do conceito estético, verdade é a da arte, o que nos deleita.
Evidentemente discorda do conceito transcendental, aquele em que a verdade passa pelos filtros dos recursos puros da razão.
1889-1976
O que é então a verdade? Qual é a sua essência?
Tal como os filósofos analíticos, a verdade requer a linguagem, mas diferentemente deles, a linguagem não é formal ou lógica, não forma uma quadro da realidade suscetível de ser formalizado.
A linguagem para Heidegger enuncia algo, e a isso reagimos, damos uma resposta, abrimos caminho para certo ente, para certo modo como algo se apresenta para nós, naquele dizer, e isso denota liberdade.
Como assim? Então verdade e liberdade se condicionam mutuamente?
Sim, é que liberdade para Heidegger não significa ser solto, independente, e sim estar aberto para a recepção do mundo, para as situações da existência cujo sentido exige verdade como liberdade. O avesso da verdade como desvelar é o encobrir, o pôr um véu, e fazemos isso o tempo todo...
E qual é o limite desse livre apresentar do ente a nós?
O limite não é o impensado, o limite é não podermos sair de nossa condição humana e transcender a totalidade do mundo, dos entes, de tudo o que há. Estamos sempre imersos em nossas situações, nossos objetivos e projetos nos lançam para o aí no mundo.
O mistério do ente em sua totalidade acaba por ser ignorado, pois somos atraídos por nossos problemas, pelo dia a dia, pelas circunstâncias cotidianas.
Nosso modo de ser hoje em dia passa pelos instrumentos, pela tecnologia, pelas máquinas, pelos meios de transporte.
Estamos longe e esquecidos dessa verdade como liberdade, a essência nos foge. Não porque seja inacessível e sim porque nossa lida nos amarra, e a busca pela essência acaba por se confundir com misticismo, exercícios da mente, fé e apego a crenças e mitos.
Difícil retirar essas camadas que impedem chegar à essência, o nosso modo de ser aberto pela linguagem e o acesso à verdade.
domingo, 1 de março de 2020
O que é o cogito para Descartes?
Descartes (1596-1650) apreciava viajar, não só pela Europa, mas também e, principalmente, para dentro de si mesmo.
O si próprio, o seu interior, o seu eu foi a fonte para sua metafísica, base para o racionalismo. Isso quer dizer que para buscar os fundamentos do saber, para chegar à verdade, bastaria encontrar um porto seguro, algo sobre o que não restasse dúvida alguma.
Tudo o que nos cerca pode tanto ser, como deixar de ser. Então por aí não se chega à verdade. De início Descartes pressupôs que nem mesmo operações matemáticas estão a salvo, pois pode-se supor um Deus enganador.
Foi então que o filósofo decidiu que o melhor caminho, ou seja, o método seguro, seria duvidar de tudo. Exceto de que ele próprio estivesse duvidando. Impossível duvidar de que se esteja praticando o ato de duvidar e tal ato implica necessariamente pensar. A atividade do pensamento é o porto seguro da metafísica, a base para todas as ciências e conhecimentos.
Cético algum pode abalar a certeza dessa verdade: "Penso, logo existo".
Descartes foi além, essa certeza permite deduzir outras evidências, a de que era impossível que ele nada fosse, e do que ele consistiria?
"De uma substância cuja essência ou natureza era apenas a de pensar e que para existir não tem necessidade de lugar algum e não depende de nada material".
Esse racionalismo, a distinção radical entre corpo=matéria / alma=espírito não serviu para o filósofo resolver questões religiosas, místicas, e sim racionais, a busca da evidência, que é própria do ter ideias e culmina na certeza, que é um estado psicológico de satisfação interior.
O caminho para a metafísica vem das evidências, das ideias claras e distintas, que abrem caminho o método das demonstrações seguras, ou seja, a matemática.
E é por essa via que ele chega à certeza de que há um Deus não enganador, espírito, que existe, uma natureza a mais perfeita de todas, portanto, dotada da mais alta perfeição que é a da existência.
Tudo se conecta em Descartes com as noções de mente, ideia, certeza, verdade, de um lado, e do lado oposto, a matéria sensível, descartável, e tudo que for fruto da imaginação.
A reta razão só pode buscar fundamentos para a verdade, nunca a vontade nem os sentimentos.
Portanto, racionalismo, o pensamento, o cogito, o eu pensante.
Essa concepção nasceu juntamente com o mecanicismo, a doutrina de que a matéria se movimenta como um mecanismo com leis próprias. E, como o espírito ou cogito não segue leis mecânicas, entende-se como foi possível conceber o espírito independente do corpo.
Em contraste, pela concepção atual de evolução, de matéria como energia, a separação corpo/espírito está ausente da metafísica desde Hegel, Nietzsche, e tantos outros filósofos do século XX.
O si próprio, o seu interior, o seu eu foi a fonte para sua metafísica, base para o racionalismo. Isso quer dizer que para buscar os fundamentos do saber, para chegar à verdade, bastaria encontrar um porto seguro, algo sobre o que não restasse dúvida alguma.
Tudo o que nos cerca pode tanto ser, como deixar de ser. Então por aí não se chega à verdade. De início Descartes pressupôs que nem mesmo operações matemáticas estão a salvo, pois pode-se supor um Deus enganador.
Cético algum pode abalar a certeza dessa verdade: "Penso, logo existo".
Descartes foi além, essa certeza permite deduzir outras evidências, a de que era impossível que ele nada fosse, e do que ele consistiria?
"De uma substância cuja essência ou natureza era apenas a de pensar e que para existir não tem necessidade de lugar algum e não depende de nada material".
Esse racionalismo, a distinção radical entre corpo=matéria / alma=espírito não serviu para o filósofo resolver questões religiosas, místicas, e sim racionais, a busca da evidência, que é própria do ter ideias e culmina na certeza, que é um estado psicológico de satisfação interior.
O caminho para a metafísica vem das evidências, das ideias claras e distintas, que abrem caminho o método das demonstrações seguras, ou seja, a matemática.
E é por essa via que ele chega à certeza de que há um Deus não enganador, espírito, que existe, uma natureza a mais perfeita de todas, portanto, dotada da mais alta perfeição que é a da existência.
Tudo se conecta em Descartes com as noções de mente, ideia, certeza, verdade, de um lado, e do lado oposto, a matéria sensível, descartável, e tudo que for fruto da imaginação.
A reta razão só pode buscar fundamentos para a verdade, nunca a vontade nem os sentimentos.
Portanto, racionalismo, o pensamento, o cogito, o eu pensante.
Essa concepção nasceu juntamente com o mecanicismo, a doutrina de que a matéria se movimenta como um mecanismo com leis próprias. E, como o espírito ou cogito não segue leis mecânicas, entende-se como foi possível conceber o espírito independente do corpo.
Em contraste, pela concepção atual de evolução, de matéria como energia, a separação corpo/espírito está ausente da metafísica desde Hegel, Nietzsche, e tantos outros filósofos do século XX.
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