De volta de sua viagem à Europa, recebi dois livros de presente da amiga Nordi Gradowski: Kafka, Das Schloss (O Castelo) e O Velho e o Mar em alemão, como contribuição para meu aprendizado da língua. Nunca pensei que releria Hemingway na língua de Kant, encanta e surpreende. O título dessa postagem se refere ao desejo do velho pescador, ver leões na praia. Tomo essa visão como sendo a de esperança e encantamento.
Isso me fez lembrar de outras passagens que emocionam e inspiram.
Vidas Secas, Graciliano Ramos faz da família de Fabrício o retrato da miséria e de esperanças, e de Baleia, a cachorrinha da família de retirantes nordestinos, personagem vivo, até mesmo pensante. Fabrício: "Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado... A cólera desapareceu, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os bracinhos que lhe caíam sore o peito, moles, finos como cambitos"... "Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás".
Vidas Secas, filme de Nelson Pereira dos Santos -1963
Crime e Castigo, Dostoiévski. Certo personagem justifica o crime de Raskólhnikov, "esgotado por aquele longo mês de lutas e comoções" matou a velha usurária: "É humilhante para um jovem, com méritos e com incomensurável amor-próprio, saber que, se tivesse três mil rublos, toda sua careira, todo o seu futuro e sua vida inteira tomaria outra direção". O castigo: "Sibéria. Na margem de um rio, ampla e deserta, ergue-se uma cidade ... Na cidade, uma fortaleza, um presídio. Há já dois meses que nele está preso o deportado da segunda classe, para as galeras, Rodion Raskólhnikov. Decorreu já cerca de ano e meio desde o dia do seu crime".
Ana Karênina, Tolstói. Ana sofre por sua paixão adúltera pelo conde Vronski: "Se eu pudesse, procuraria ser para ele uma amiga sensata e não uma amante apaixonada.. Há muito que ele já não me ama e onde o amor acaba principia a saciedade"... "Enquanto rompia a turba para dirigir-se à sala de espera da primeira classe, perpassavam-lhe pelo espírito os pormenores de sua situação, bem como as diferentes soluções que se lhe ofereciam"... "E, subitamente, desvaneceu-se a névoa que a tudo cobria, e a vida exibiu-se lhe por momentos em todas as suas radiosas alegrias. Não apartava, porém, os olhos do vagão que se aproximava. ...Quis retroceder ... mas qualquer coisa enorme, inflexível a apanhou pela cabeça: Senhor meu Deus, perdoa-me tudo!... E a vela, à luz da qual Ana lera o livro da Vida com todas os seus tormentos, ... todas as suas dores, resplandeceu ... depois crepitou, estremeceu e apagou para sempre".
Madame Bovary, Flaubert, mais uma tragédia de amor e traição. "Ela pensava nele, Léon. Ela teria então dado tudo para apenas um desses encontros, que a satisfaziam". Emma tenta o suicídio envenenando-se: "Ela não demorou a vomitar sangue. Seus lábios se travaram... Depois se pôs a gritar, horrivelmente. Amaldiçoava o veneno, o invectivava, suplicava que ele cessasse, empurrava com seus braços, tudo o que Charles, mais agoniado do que ela, se esforçava para lhe dar de beber".
As grandes obras literárias produzem esse efeito, o desejo de "avistar leões na praia", sonhar com a África tal como o velho pescador e o próprio autor, Hemingway. Mergulhar no amor, na dor, no sofrimento para ser, talvez, resgatado/a.
Em tempo: Ivone Gradowski, de retorno da França, já havia me contemplado com seis, sim seis livros em alemão, Kafka, Nietzsche, H. Arendt, W. Benjamin.
E la nave va.

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