Quais são as habilidades desenvolvidas pelo raciocínio filosófico?
A tarefa mais difícil de um professor (a) de Filosofia é levar seus alunos a pensar de modo abstrato.
O raciocínio abstrato assemelha-se às afirmações com sequência lógica, com encadeamento crescente e com conclusões que decorrem da argumentação.
Sem argumentação e sem algum tipo de conclusão ou consequência, o pensamento flui solto, o que impede a exatidão, o sentido claro, a transmissão do que se quer realmente dizer.
Mas não se trata do pensar pelo pensar, impossível uma "pureza" absoluta. É preciso, ao contrário, usar conceitos, chegar a ideias que permitam refletir sobre condições as mais diversas.
Um pouco ao modo socrático de extrair noções, um pouco ao modo platônico de conduzir diálogos por caminhos diversos e mostrar para onde cada um dos caminhos escolhidos pode levar: certeza, absurdos, dúvidas, esclarecimentos, razões, enfim, argumentações com conclusões, como disse acima.
São procedimentos que, apesar de exigirem raciocínio, abstração e capacidade de generalizar, se tornam relativamente fáceis se o professor(a) exercitarem essas habilidades com textos de filósofos que despertem interesse, curiosidade e possibilidade de questionar por si próprios.
Em Filosofia não se conduz obrigatoriamente para certo filósofo ou para certa doutrina ou sistema filosófico com a exclusão de outros.
Um dos defeitos mais graves do ensino de Filosofia é obrigar alunos a defenderem uma doutrina ou super especializarem suas aulas com o único sistema ou filósofo da predileção do professor (a). Em geral determinado pensador que foi objeto de sua dissertação/tese.
Uma sala de aula é lugar de trocas, e vale insistir nessa toada, é preciso dialogar.
Perguntas e respostas, por quês, razões para isso ou aquilo, estender as situações corriqueiras para as mais gerais e universais da condição humana leva o pensamento a abstrair mas sem o risco de permanecer nas nuvens.
Como isso é possível?
Esforço, interesse e dedicação. Pensamento aberto e sujeito à crítica permanente.
segunda-feira, 19 de março de 2018
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Filosofia para quê?
Filosofia se tornou disciplina no Ensino Médio...
Mas, para que serve?
Essa questão não pode ser posta, justamente Filosofia e filosofar não têm uma serventia propriamente dita.
Como se diz hoje, A Filosofia não "instrumentaliza" e isso apesar de muitos professores insistirem que ela pode servir a propósitos políticos, aos chamados "enfrentamentos" de questões sociais e políticas.
Se formos ler, por exemplo, "A República" de Platão, ou "Política" de Aristóteles, veremos que nenhuma das obras prega qualquer tipo de bandeira de ação ideológica. Aliás, o conceito mesmo de ideologia é muito mais recente.
As lições éticas e políticas em filosofia não têm um cunho partidário, ou não seriam filosofia.
Mas então para que servem essas "teorias" de filósofos se não "iluminam a prática"?
Cadê a prática diriam os engajados?
Feitas as leituras, mergulhados nos aspectos e ideias de cada um dos filósofos, o resultado é uma abertura do pensamento, um exercício do pensar, a apresentação de novos e diferentes caminhos, mostrar diversas perspectivas, mudar o olhar sobre nós, nossas vidas, nossa realidade, nossa história. Ver de um modo novo o corriqueiro, prover nossa reflexão de conceitos, aprender com os filósofos para que cada um de nós possa também exercer esse tão propalado uso de critérios. Como se diz por aí, "pensamento crítico", porém sem alcançar o que esse conceito significa.
Justamente, por "pensamento crítico" não se deve implicar em adoção de uma bandeira para resgatar oprimidos.Esse conceito vem sendo usado quase exclusivamente por esse viés, quando significa algo muito mais grave. Não que a situação dos oprimidos não seja grave ou que opressores não sejam condenáveis. É que por "pensamento crítico" propriamente se deve significar a busca de sentido, interpretações por meio visão mais ampla, procurar entender o que se quer dizer com tal ou tal ideia, tal ou tal conceito. Enfim, não se deixar levar por cantos da sereia e embalar-se no guru do momento ou na fácil condenação de que a sociedade é injusta (ela é mesmo...) ou que haveria uma ordem social ideal apenas com os justos, os bons, os despossuídos.
Abrir os olhos, ler, refletir, aprofundar-se nas propostas dos filósofos, mostrar como e o que pensam, procurar entender suas ideias, não seria isso já bastante para defender a importância da Filosofia?!
Mas, para que serve?
Essa questão não pode ser posta, justamente Filosofia e filosofar não têm uma serventia propriamente dita.
Como se diz hoje, A Filosofia não "instrumentaliza" e isso apesar de muitos professores insistirem que ela pode servir a propósitos políticos, aos chamados "enfrentamentos" de questões sociais e políticas.
Se formos ler, por exemplo, "A República" de Platão, ou "Política" de Aristóteles, veremos que nenhuma das obras prega qualquer tipo de bandeira de ação ideológica. Aliás, o conceito mesmo de ideologia é muito mais recente.
As lições éticas e políticas em filosofia não têm um cunho partidário, ou não seriam filosofia.
Mas então para que servem essas "teorias" de filósofos se não "iluminam a prática"?
Cadê a prática diriam os engajados?
Feitas as leituras, mergulhados nos aspectos e ideias de cada um dos filósofos, o resultado é uma abertura do pensamento, um exercício do pensar, a apresentação de novos e diferentes caminhos, mostrar diversas perspectivas, mudar o olhar sobre nós, nossas vidas, nossa realidade, nossa história. Ver de um modo novo o corriqueiro, prover nossa reflexão de conceitos, aprender com os filósofos para que cada um de nós possa também exercer esse tão propalado uso de critérios. Como se diz por aí, "pensamento crítico", porém sem alcançar o que esse conceito significa.
Justamente, por "pensamento crítico" não se deve implicar em adoção de uma bandeira para resgatar oprimidos.Esse conceito vem sendo usado quase exclusivamente por esse viés, quando significa algo muito mais grave. Não que a situação dos oprimidos não seja grave ou que opressores não sejam condenáveis. É que por "pensamento crítico" propriamente se deve significar a busca de sentido, interpretações por meio visão mais ampla, procurar entender o que se quer dizer com tal ou tal ideia, tal ou tal conceito. Enfim, não se deixar levar por cantos da sereia e embalar-se no guru do momento ou na fácil condenação de que a sociedade é injusta (ela é mesmo...) ou que haveria uma ordem social ideal apenas com os justos, os bons, os despossuídos.
Abrir os olhos, ler, refletir, aprofundar-se nas propostas dos filósofos, mostrar como e o que pensam, procurar entender suas ideias, não seria isso já bastante para defender a importância da Filosofia?!
domingo, 11 de fevereiro de 2018
Nietzsche como remédio para o marasmo ideológico do marxismo
Quem e o que é ser revolucionário?
A esquerda marxista, sim, ela ainda existe e persiste no Brasil, se considera revolucionária, justiceira, suas palavras de ordem são aclamadas e assim não passam pelo crivo da crítica histórica.
Como a história e suas transformações importam?
Na medida em que fatos e acontecimentos são situados, têm sua singularidade e seus aspectos próprios, a cegueira ideológica recusa vê-los, quanto mais analisá-los. As invés disso buscam um ideal, valores, plenitude, a finalidade dos movimentos de classe como superação da ordem econômica burguesa, mitos como Guevara. E com tudo isso se acham do lado do bem geral, como se a realidade histórica, social e econômica (leia-se "capitalismo") fosse o lado do mal.
Um pouquinho de Niezstche serviria para por no chão esses ideais revolucionários, cujos modelos incluem os caudilhos de Cuba e da Venezuela.
O pressuposto desse tipo de pseudo reflexão, é o da revolução, o de que a história encaminha-se para um fim, glorioso, a vitória do oprimidos (antes eram chamados "proletários").
Nietzsche, como observou Foucault em "As Palavras e as Coisas", incendiou essa determinação causal, esse fim dos tempos, como a morte de Deus. Nossa! Que escárnio, diriam os fiéis.
Mas se trata tão somente de esclarecer que sem um absoluto, os homens ficariam à mercê deles mesmos, ao inventaram deuses, quiseram também igualar-se a eles. Criaturas que criam mitos para se convencer de que podem impor valores como se estes fossem universais.
Ora, o homem moderno nasce para o saber ocidental como finito, como vida finita, como produtor de bens finitos, como falante de linguagem cujas regras e significados o precedem.
Na modernidade esse ser finito se dissolveu, e Nietzsche anunciou isso antes das novas formações de saber da modernidade (para a próxima postagem deste blog). A novidade seria o super homem (não, não é o do cinema, nem a raça superior nazista).
É aquele que enfrenta sua fragilidade, o que atravessa em uma corda abismos, ele é o destemido, sem medo de punição. Nietzsche é o precursor de nossos tempos "queimou ... as promessas misturadas da dialética e da antropologia" (Foucault em "As Palavras e as Coisas", p. 275).
Marx pertence ao pensamento do século 19. Seria formidável se seus asseclas em pleno século 21 se dessem conta disso!
A esquerda marxista, sim, ela ainda existe e persiste no Brasil, se considera revolucionária, justiceira, suas palavras de ordem são aclamadas e assim não passam pelo crivo da crítica histórica.
Como a história e suas transformações importam?
Na medida em que fatos e acontecimentos são situados, têm sua singularidade e seus aspectos próprios, a cegueira ideológica recusa vê-los, quanto mais analisá-los. As invés disso buscam um ideal, valores, plenitude, a finalidade dos movimentos de classe como superação da ordem econômica burguesa, mitos como Guevara. E com tudo isso se acham do lado do bem geral, como se a realidade histórica, social e econômica (leia-se "capitalismo") fosse o lado do mal.
Um pouquinho de Niezstche serviria para por no chão esses ideais revolucionários, cujos modelos incluem os caudilhos de Cuba e da Venezuela.
O pressuposto desse tipo de pseudo reflexão, é o da revolução, o de que a história encaminha-se para um fim, glorioso, a vitória do oprimidos (antes eram chamados "proletários").
Nietzsche, como observou Foucault em "As Palavras e as Coisas", incendiou essa determinação causal, esse fim dos tempos, como a morte de Deus. Nossa! Que escárnio, diriam os fiéis.
Mas se trata tão somente de esclarecer que sem um absoluto, os homens ficariam à mercê deles mesmos, ao inventaram deuses, quiseram também igualar-se a eles. Criaturas que criam mitos para se convencer de que podem impor valores como se estes fossem universais.
Ora, o homem moderno nasce para o saber ocidental como finito, como vida finita, como produtor de bens finitos, como falante de linguagem cujas regras e significados o precedem.
Na modernidade esse ser finito se dissolveu, e Nietzsche anunciou isso antes das novas formações de saber da modernidade (para a próxima postagem deste blog). A novidade seria o super homem (não, não é o do cinema, nem a raça superior nazista).
É aquele que enfrenta sua fragilidade, o que atravessa em uma corda abismos, ele é o destemido, sem medo de punição. Nietzsche é o precursor de nossos tempos "queimou ... as promessas misturadas da dialética e da antropologia" (Foucault em "As Palavras e as Coisas", p. 275).
Marx pertence ao pensamento do século 19. Seria formidável se seus asseclas em pleno século 21 se dessem conta disso!
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
A diferença entre filosofia de vida e a autoajuda
Pode-se dizer que uma filosofia de vida é mais séria, difícil, importante do que a literatura voltada para a autoajuda? Pode-se considerar o pensamento de um Sêneca ou Marco Aurélio (filósofos estoicos, Roma Antiga) mais precioso do que o de uma Louise Hay, Zíbia Gaspareto ou Augusto Cury?
Qual é o sentido de "precioso" aqui?
Raro, difícil de acompanhar ou compreender, culto, e mesmo como se classifica em nossos dias "elitista"?
Para atingir um público amplo (os livros de autoajuda são campeões de vendagem) é preciso trocar em miúdos as ideias e os conceitos, ou são as próprias ideias e conceitos de per si bem acessíveis?
Sim para as duas opções. Trata-se de temas imediatos, do dia a dia, próximos às dificuldades que em geral pessoas enfrentam, como superar perdas, alcançar satisfação em seu trabalho, solucionar questões imediatas e corriqueiras, e para tal, confiar na palavra e nos conselhos dos gurus, dos homens de fé, dos espiritualistas, e mesmo de médicos e psicólogos é fundamental.
E sempre aquele que aconselha é o responsável, é o guia, ele teria a chave do sucesso, da cura, da felicidade. Quem os segue, lê o receituário e aceita novas regras sem precisar responsabilizar-se por seus atos e atitudes, sem necessidade de pensar por si mesmo. Alguém o fará por você.
Se formos contrastar a autoajuda com as filosofia de vida, as diferenças são profundas. Isso não implica em negar o papel da literatura de autoajuda, mas em clarear um pouco os caminhos da reflexão sobre nossa existência, sobre o sentido da vida.
Evidente que o leitor das receitas para bem viver e ter sucesso, quer solução. Tanto que tais livros também se intitulam de manuais.
No caso da filosofias de vida, o leitor não busca adesão, nem chaves para o sucesso, nem autocontrole. É o inverso, os filósofos da existência pensam e refletem sem visar seguidores, iluminam nossas ideias, modificam nosso modo de ver e de pensar, entender sua mensagem basta, o estilo refletido de vida é livre e autônomo.
Alguns exemplos:
O antigo ensinamento que Sócrates adotou "Conhece-te a ti mesmo" sugere que cabe a cada um mergulhar em si, poder exercer esse conhecimento para uma vida plena.
Cuidar de si, saber-se finito, existência responsável e livre (Sartre), entender que só somos no tempo, vamos morrer, que somos "ser-para-a-morte"(Heidegger), celebrar essa finitude (Nietzsche), ou considerar que a vida é frágil sofrimento (Schopenhauer).
Os filósofos abrem perspectivas, por vezes nos deixam sem chão.
A autoajuda resolve, conduz e apascenta.
Qual é o sentido de "precioso" aqui?
Raro, difícil de acompanhar ou compreender, culto, e mesmo como se classifica em nossos dias "elitista"?
Para atingir um público amplo (os livros de autoajuda são campeões de vendagem) é preciso trocar em miúdos as ideias e os conceitos, ou são as próprias ideias e conceitos de per si bem acessíveis?
Sim para as duas opções. Trata-se de temas imediatos, do dia a dia, próximos às dificuldades que em geral pessoas enfrentam, como superar perdas, alcançar satisfação em seu trabalho, solucionar questões imediatas e corriqueiras, e para tal, confiar na palavra e nos conselhos dos gurus, dos homens de fé, dos espiritualistas, e mesmo de médicos e psicólogos é fundamental.
E sempre aquele que aconselha é o responsável, é o guia, ele teria a chave do sucesso, da cura, da felicidade. Quem os segue, lê o receituário e aceita novas regras sem precisar responsabilizar-se por seus atos e atitudes, sem necessidade de pensar por si mesmo. Alguém o fará por você.
Se formos contrastar a autoajuda com as filosofia de vida, as diferenças são profundas. Isso não implica em negar o papel da literatura de autoajuda, mas em clarear um pouco os caminhos da reflexão sobre nossa existência, sobre o sentido da vida.
Evidente que o leitor das receitas para bem viver e ter sucesso, quer solução. Tanto que tais livros também se intitulam de manuais.
No caso da filosofias de vida, o leitor não busca adesão, nem chaves para o sucesso, nem autocontrole. É o inverso, os filósofos da existência pensam e refletem sem visar seguidores, iluminam nossas ideias, modificam nosso modo de ver e de pensar, entender sua mensagem basta, o estilo refletido de vida é livre e autônomo.
Alguns exemplos:
O antigo ensinamento que Sócrates adotou "Conhece-te a ti mesmo" sugere que cabe a cada um mergulhar em si, poder exercer esse conhecimento para uma vida plena.
Cuidar de si, saber-se finito, existência responsável e livre (Sartre), entender que só somos no tempo, vamos morrer, que somos "ser-para-a-morte"(Heidegger), celebrar essa finitude (Nietzsche), ou considerar que a vida é frágil sofrimento (Schopenhauer).
Os filósofos abrem perspectivas, por vezes nos deixam sem chão.
A autoajuda resolve, conduz e apascenta.
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
O ser e a palavra
Não há ser sem a palavra, mas a palavra não tem ser. Se considerarmos os sons ou fonemas emitidos, é somente desse modo que as palavras teriam ser, quer dizer, gravadores podem captar esses sons emitidos, mas gravadores não captam o que se quer dizer...
Para chegarmos às coisas e situações de qualquer natureza, precisamos emitir sons, ou significar o sentido que queremos dar às coisas. Confunde-se o nome com a coisa nomeada, e isso devido à adesão entre o nome "rosa", por exemplo, e à flor no jardim. Esse nome ou significante, nasceu da cultura, da língua herdada e convencional que falantes do português, ou de qualquer outra língua, aprenderam.
Se apontarmos para uma rosa e dissermos, "inseto", nosso interlocutor procuraria, para evitar a hipótese de o falante não saber o que diz, uma razão para apontar à rosa e dizer "inseto". Uma abelha pousou na rosa, digamos.
Isso mostra que aprender uma língua é relacionar sons, palavras, frases à realidade, aos objetos, às coisas como se apresentam e mesmo como poderiam se apresentar. E mais. É compreender nossa situação no mundo, como lidamos, como nos havemos uns com os outros e com nossas circunstâncias.
Tudo o que existe, nós humanos inclusive, poderia subsistir sem a presença humana, sem a linguagem. Problema: não há como saber que mundo seria esse. Para significar essa própria possibilidade, precisamos da linguagem. A palavra tem poder, mas ela não cria, não produz seres, coisas, artefatos. Entretanto, a palavra produz efeitos, como dissuadir, convencer, mentir, elogiar, ordenar, intimidar, e muitos outros jogos de linguagem, como explicou Wittgenstein. Inclusive o silêncio pode ser mais significativo do que expressar o pensamento.
Atenção, "expressar o pensamento" não deve ser entendido como se tivéssemos tudo pronto em nossa mente, e as palavras apenas servissem para expressá-lo. Só podemos pensar (o que inclui, analisar, entender, supor, argumentar, etc., etc.) por meio da linguagem.
Deu para entender porque "a palavra não tem ser, mas não há ser sem a palavra"?
domingo, 10 de dezembro de 2017
O que significa "virada linguística"?
Não só nas ciências há transformações (mais propriamente, mudanças de paradigmas), também a Filosofia passa por importantes mudanças, algumas delas chamadas de "viradas". Na chamada "virada linguística", o centro das problematizações não mais estaria nas ideias e nas abstrações; nem no sujeito e sua mente cognitiva; tampouco nos conceitos puros da razão. Onde, então?
Na linguagem, mas não a linguagem entendida como simples expressão de pensamentos, mas como lugar e condição para pensar, abstrair, conceituar, comunicar, relacionar palavra/frase a objetos e situações da realidade.
O impulso para essa virada veio da própria Linguística, que é uma ciência, e também da consideração de que nosso pensamento habita proposições, quer dizer, frases completas e com significação, mas não só isso, elas que se referem a fatos, situações, estados de coisa tanto da realidade empírica, como das inumeráveis ocorrências, passadas, presentes e futuras. Se alguém diz: "Há previsão de que vai chover a semana toda", precisou significar algo, precisou de signos concatenados por regras de certa língua, e a sentença diz respeito a algo, ela tem valor que os lógicos chamam de "valor de verdade". Refere-se a uma estado possível de coisas.
A essa virada linguística, que retira de cena o sujeito que conhece e põe em cena significações, sobreveio outra virada, a "virada pragmática".
As proposições significam e também comunicam por meio de atos de fala em que o valor não é somente o de verdade, nem a referência, nem apenas a relação entre linguagem e realidade. Vai além, são interlocutores em situação concreta em que o dito pode valer também como advertência, como no exemplo acima que pode significar, não volte para sua casa, ela pode vir abaixo com as chuvas. Também pode ser que se queira comemorar, após um período de seca, finalmente poderá chover toda a semana.
O que mudou? Atenção ao contexto, à situação de fala ou também de discurso.
Filosofar implica levar essas viradas em consideração, sem elas o mito do sujeito esclarecido e esclarecedor prevalece, e com ele a a presunção de que ideias brotam como quer por si do pensamento.
Na linguagem, mas não a linguagem entendida como simples expressão de pensamentos, mas como lugar e condição para pensar, abstrair, conceituar, comunicar, relacionar palavra/frase a objetos e situações da realidade.
O impulso para essa virada veio da própria Linguística, que é uma ciência, e também da consideração de que nosso pensamento habita proposições, quer dizer, frases completas e com significação, mas não só isso, elas que se referem a fatos, situações, estados de coisa tanto da realidade empírica, como das inumeráveis ocorrências, passadas, presentes e futuras. Se alguém diz: "Há previsão de que vai chover a semana toda", precisou significar algo, precisou de signos concatenados por regras de certa língua, e a sentença diz respeito a algo, ela tem valor que os lógicos chamam de "valor de verdade". Refere-se a uma estado possível de coisas.
A essa virada linguística, que retira de cena o sujeito que conhece e põe em cena significações, sobreveio outra virada, a "virada pragmática".
As proposições significam e também comunicam por meio de atos de fala em que o valor não é somente o de verdade, nem a referência, nem apenas a relação entre linguagem e realidade. Vai além, são interlocutores em situação concreta em que o dito pode valer também como advertência, como no exemplo acima que pode significar, não volte para sua casa, ela pode vir abaixo com as chuvas. Também pode ser que se queira comemorar, após um período de seca, finalmente poderá chover toda a semana.
O que mudou? Atenção ao contexto, à situação de fala ou também de discurso.
Filosofar implica levar essas viradas em consideração, sem elas o mito do sujeito esclarecido e esclarecedor prevalece, e com ele a a presunção de que ideias brotam como quer por si do pensamento.
terça-feira, 28 de novembro de 2017
O que é discurso para Foucault?
Discurso não é simplesmente uma fala, não é simplesmente linguístico, nem um enfático pronunciamento. Tampouco provém de uma infraestrutura econômica, nem baseado em ideologia. Foucault não fez história das ideias, nem se preocupou com a evolução histórica em termos de causalidade.
Discurso para Foucault se forma não só com palavras e conceitos, pois seus enunciados são de fato ditos por quem de direito assume o lugar de sujeito. Como são práticas que ordenam o saber de uma época, podem ser avaliados por seus efeitos que se disseminam e se constituem pelas instituições, costumes, certos objetos que surgem em dada configuração de saber, as chamadas "epistemes".
E isso sem nada de transcendental, sem buscar causa definitiva ou superior, sem invocar o ser nem o nada, sem ambição de fazer ciências, de encontrar um método geral e definitivo. Pelo contrário, pesquisa em arquivos históricos, em geral anônimos, não para detectar se são verdadeiros ou falsos, e sim para mostrar seus usos.
Foucault foi criticado pelos marxistas por desprezar as forças históricas da evolução dialética dos modos de produção, por esquecer das lutas de classe, e assim compactuar com o "status quo", quer dizer, com o poder das classes dominantes.
Ora, isso é no mínimo risível, pois justamente seus estudos, os documentos e arquivos que ele recolhe, têm sua própria singularidade, são específicos, são acontecimentos que não requerem uma interpretação definitiva, ideal, que pudesse, por assim dizer, guiar o destino humano, dar um sentido geral para a história.
A história é obra humana, e transformá-la em dever ser, funciona como refúgio, como panaceia, como se nós devêssemos seguir um guia geral, uma fórmula para acabar com todas as diferenças, estas vistas como prejudiciais, malévolas.
A questão é que os discursos, as formações discursivas não retratam o mais geral, nem conduzem a soluções grandiosas. As formações discursivas trazem a tona temas, conceitos, os modos como certos discursos são atribuídos, circulam, quais instituições se apropriam deles, como são distribuídos, quais são seus efeitos.
Assim, verdade deixa de ser concebida como única, preciosa, confirmada, para ser algo produzido por discursos. O que e como certa época vê, trata, interna ou não, ouve ou não, concebe ou não como anormal, por exemplo, se mostra justamente na escavação que Foucault fez das práticas discursivas, dos dispositivos de saber.
E isso o que é? Filosofia? Ciência? História?
Isso é pesquisa histórica, uma cartografia com resultados que dão o que pensar, uma reflexão sobre a condição humana. Como? Pela análise das técnicas, comportamentos, instituições e suas transformações, os efeitos no modo de constituição de nossas formas de existência, de pensamento, de exercício da liberdade, de fazer leis, de governar, enfim, de como produzimos não só coisas, mas também verdades, valores, corrigimos comportamentos, examinamos corpos, e vários outros procedimentos.
Enfim, uma história dessas práticas "pouco gloriosas".
Discurso para Foucault se forma não só com palavras e conceitos, pois seus enunciados são de fato ditos por quem de direito assume o lugar de sujeito. Como são práticas que ordenam o saber de uma época, podem ser avaliados por seus efeitos que se disseminam e se constituem pelas instituições, costumes, certos objetos que surgem em dada configuração de saber, as chamadas "epistemes".
E isso sem nada de transcendental, sem buscar causa definitiva ou superior, sem invocar o ser nem o nada, sem ambição de fazer ciências, de encontrar um método geral e definitivo. Pelo contrário, pesquisa em arquivos históricos, em geral anônimos, não para detectar se são verdadeiros ou falsos, e sim para mostrar seus usos.
Foucault foi criticado pelos marxistas por desprezar as forças históricas da evolução dialética dos modos de produção, por esquecer das lutas de classe, e assim compactuar com o "status quo", quer dizer, com o poder das classes dominantes.
Ora, isso é no mínimo risível, pois justamente seus estudos, os documentos e arquivos que ele recolhe, têm sua própria singularidade, são específicos, são acontecimentos que não requerem uma interpretação definitiva, ideal, que pudesse, por assim dizer, guiar o destino humano, dar um sentido geral para a história.
A história é obra humana, e transformá-la em dever ser, funciona como refúgio, como panaceia, como se nós devêssemos seguir um guia geral, uma fórmula para acabar com todas as diferenças, estas vistas como prejudiciais, malévolas.
A questão é que os discursos, as formações discursivas não retratam o mais geral, nem conduzem a soluções grandiosas. As formações discursivas trazem a tona temas, conceitos, os modos como certos discursos são atribuídos, circulam, quais instituições se apropriam deles, como são distribuídos, quais são seus efeitos.
Assim, verdade deixa de ser concebida como única, preciosa, confirmada, para ser algo produzido por discursos. O que e como certa época vê, trata, interna ou não, ouve ou não, concebe ou não como anormal, por exemplo, se mostra justamente na escavação que Foucault fez das práticas discursivas, dos dispositivos de saber.
E isso o que é? Filosofia? Ciência? História?
Isso é pesquisa histórica, uma cartografia com resultados que dão o que pensar, uma reflexão sobre a condição humana. Como? Pela análise das técnicas, comportamentos, instituições e suas transformações, os efeitos no modo de constituição de nossas formas de existência, de pensamento, de exercício da liberdade, de fazer leis, de governar, enfim, de como produzimos não só coisas, mas também verdades, valores, corrigimos comportamentos, examinamos corpos, e vários outros procedimentos.
Enfim, uma história dessas práticas "pouco gloriosas".
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