Que movimentos e organizações como UNE, MST, ANDES, certos artistas e vários grupos recrutados nas redes sociais tenham aderido à tese de golpe, é inaceitável, porém compreensível.
Que professores de Filosofia embarquem nessa onda, não só é inaceitável, como incompreensível.
Recentemente professores têm se defendido com o argumento de que estão lhes retirando o "pensamento crítico". Sem generalizar, não todos evidentemente, mas voltou a crescer o número dos que ouvem o canto da sereia e aderem à tese do golpe, sob a batuta do pensamento único que há décadas se plantou em certos meios universitários.
Mas quem lhes destituiu do pensamento crítico, sem aspas, forem eles mesmos. Como diria Kant, eles são os únicos responsáveis pela defesa de uma linha única, adotada e prestigiada, disseminada entre eles, e plantada em seus alunos. Não permitem que os outros pensem diferente,afinal, adotar o que seu mestre manda é tão mais fácil!
Os jovens, há muito ouvem apenas palavras de ordem, conceitos e velhos chavões como se representassem o pensamento crítico e este fosse único, como se toda a realidade social, política e histórica se resumisse em direita conservadora e esquerda revolucionária.
Os pobres são oprimidos pelo "grande capital", justiça social apenas pelo socialismo.
Mas, o que seria o socialismo hoje? Como repartir igualitariamente bens, como eliminar bancos, financeiras, como produzir, viver e trabalhar sem meios para tal? Se são necessários saúde, educação, bem estar, capacitação, estudo, lazer, moradia, o Estado pode provir tudo? De onde o Estado e os governos obtêm recursos? Do trabalho, empresas e trabalhadores, um não existe sem o outro.
No momento se regozijam ao gritar que a democracia foi aviltada, que as eleições não foram respeitadas, Dilma foi eleita.
Sim, fazendo como o próprio PT preconizou, "o diabo", marketing que falseou, iludiu, amedrontou os mais pobres, de um lado, e de outro era preciso conservar as mordomias do poder, as falcatruas, o dinheiro desviado da estatais. Estatais golpeadas, governo sem rumo, recessão, desemprego.
Pensamento crítico da parte dos professores de Filosofia exige discernimento, abertura, estudo aprofundado e sério de filósofos os mais importantes. Quais seriam? Deem uma olhada em sua estante...
Restringir o pensamento crítico à adoção das teses de que houve golpe à democracia é distorcer o exercício do pensamento crítico. Antes de mais nada, por favor, leiam a Constituição, o direito à liberdade de pensamento, a possibilidade de destituir do cargo os que passam por cima de leis.
Em seguida, exponham aos seus alunos o(s) filósofo (s) e as teses filosóficas que ele (s) defende(m). Verão que não há um sequer com visão unilateral, nenhum deles falseia justamente a crítica, quer dizer, pensar, refletir, defender ideias e conceitos pelo uso da razão.
E, ao defender com argumentos seu pensamento, suas propostas, sabe que há outros que pensam diferentemente. Não irá ofendê-los, ouvirá o outro, e prosseguirá na defesa de sua visão, de sua escola. Não porque tenha certeza de que possui a verdade, mas porque é filósofo, ama o saber.
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
sábado, 27 de agosto de 2016
A fabricação de imagens nas redes sociais
Até Sísifo se sentiria mal com a avalanche de imagens de si próprio nas redes sociais.
Postar o que se faz, o beijinho, a comidinha sendo preparada, o sorriso, o muxoxo, as idas e vindas, lugar para onde a pessoa foi, onde está, o que está fazendo, a incansável e medíocre informação acerca de ninharias.
Todos precisam saber o que está acontecendo com todos, o tempo todo!
Fiz isso, fiz aquilo e publico, publico, publico...
Qual o real interesse? Exposição, publicidade, gracinhas, selfies até não mais poder, isso parece que satisfaz desejos e prazeres, que são momentâneos pois em seguida vem o esquecimento.
O anonimato, a impessoalidade, a discrição e a modéstia são substituídos pela exposição permanente, pelos egos, pelo exibicionismo, pelo enaltecimento de si.
Impossível condenar ou rejeitar o papel importantíssimo das redes sociais como informação relevante, como facilitação da comunicação, como meio de integração e de valores, entre eles a amizade.
Mas na maioria das postagens não é disso que se trata, e sim satisfazer a curiosidade, tratar do lugar comum como se fosse de grande importância, o que a pessoa é pouco importa, vale muito mais sua aparência para os outros.
A diferença entre ser e parecer se vê diante de um abismo!
Sem apelar para velhas dicotomias como a de que ser vale mais do que parecer, pois para a filosofia essa diferença é bastante problemática, entretanto, a contraposição entre um e outro ganha um novo patamar nas constantes atualizações nas redes sociais de tudo o que se fez, nada escapa, a privacidade deve e pode ser invadida.
A veracidade e a verossimilhança são dispensáveis.
Kant almoçando? Wittgenstein postando fotos de sua cabana na Noruega? Foucault pesquisando nas bibliotecas?
Talvez eles indagassem: Qual o real valor das informações? A avalanche de imagens preenche o vazio existencial?
Postar o que se faz, o beijinho, a comidinha sendo preparada, o sorriso, o muxoxo, as idas e vindas, lugar para onde a pessoa foi, onde está, o que está fazendo, a incansável e medíocre informação acerca de ninharias.
Todos precisam saber o que está acontecendo com todos, o tempo todo!
Fiz isso, fiz aquilo e publico, publico, publico...
Qual o real interesse? Exposição, publicidade, gracinhas, selfies até não mais poder, isso parece que satisfaz desejos e prazeres, que são momentâneos pois em seguida vem o esquecimento.
O anonimato, a impessoalidade, a discrição e a modéstia são substituídos pela exposição permanente, pelos egos, pelo exibicionismo, pelo enaltecimento de si.
Impossível condenar ou rejeitar o papel importantíssimo das redes sociais como informação relevante, como facilitação da comunicação, como meio de integração e de valores, entre eles a amizade.
Mas na maioria das postagens não é disso que se trata, e sim satisfazer a curiosidade, tratar do lugar comum como se fosse de grande importância, o que a pessoa é pouco importa, vale muito mais sua aparência para os outros.
A diferença entre ser e parecer se vê diante de um abismo!
Sem apelar para velhas dicotomias como a de que ser vale mais do que parecer, pois para a filosofia essa diferença é bastante problemática, entretanto, a contraposição entre um e outro ganha um novo patamar nas constantes atualizações nas redes sociais de tudo o que se fez, nada escapa, a privacidade deve e pode ser invadida.
A veracidade e a verossimilhança são dispensáveis.
***
Um exercício de imaginação: será que filósofos como Kant, Wittgenstein ou até mesmo Foucault usariam desses recursos? Kant almoçando? Wittgenstein postando fotos de sua cabana na Noruega? Foucault pesquisando nas bibliotecas?
Talvez eles indagassem: Qual o real valor das informações? A avalanche de imagens preenche o vazio existencial?
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Saber ganhar, saber perder
Há algumas lições a serem relembradas por ocasião das olimpíadas no Brasil, especialmente com relação às virtudes clássicas que Aristóteles listou em sua ética.
Entre elas a da coragem, coragem moral e coragem física. Quando o atleta persiste em seus treinos, e se ele tem vontade, determinação e capacidade para isso, quer vencer. Ele sabe que o risco é também perder.
Estes esportes e jogos remetem à Grécia Clássica, homens jovens (parece que as mulheres só começaram a "existir" no século XX) eram educados por meio de exercícios físicos, capacidade de lutar, e também intelectualmente. "Os deuses não concederam aos homens nenhuma das coisas belas e boas sem fadiga e estudos (...); se desejares ter um corpo forte, deves habituá-lo a obedecer à mente e exercitá-lo com fadigas e suores" (Xenofonte, Memorabilia).
Esses sábios conselhos resumem o modo como ginastas, esportistas e atletas agem, o grau de exigência de si, sua luta para superar dificuldades.
Um dos pontos fortes do modo grego de ser, de sua prática cotidiana, de sua ética, era o domínio de si mesmo, tão importante quanto a moderação, o meio termo.
E para obter o domínio de si, fundamental é a educação do jovem, a experiência com os revezes, com as dificuldades, a fim de se fortalecer. Nada disso vale sem a profunda reflexão, como perguntar: "o que eu penso, o que eu desejo, o que eu posso conseguir?"
Além do domínio sobre si mesmo, a outra virtude necessária ao atleta e sua educação/formação, é a coragem. Não entendida como bravata, como enaltecimento, e sim como o meio termo entre o medo e a confiança excessiva. A coragem, segundo Aristóteles em Ética a Nicômaco, é uma disposição do caráter, ela é nobre e nobre sua finalidade, distinta tanto do medo dos covardes, quanto do bravo que diz nada temer. Isso porque o corajoso enfrenta, suporta, se esforça mesmo diante de golpes dolorosos. Praticar a virtude da coragem é difícil, altamente compensado com o fim conquistado, e Aristóteles cita como exemplo os soldados e o atletas.
Tão importante quanto as virtudes do caráter, são as virtudes intelectuais, como a sabedoria e a compreensão, ou seja, saber avaliar e julgar. Se estas últimas virtudes acompanharem o atleta, tanto maior será seu valor.
E hoje? Há pouca reflexão sobre o real valor da competição nos esportes e no atletismo. A cultura de um povo parece ora incentivar, ora relegar a segundo plano vencer em jogos e esportes.
Ao lado de tradição, se juntam incentivo e capacitação técnica, cada vez mais aprimorada.
Isso sem falar das políticas públicas, no Brasil praticamente inexistentes...
Quem sabe ganhar tem noção exata da medida de seus esforços e de sua capacidade.
PS: a torcida que vaia não se comporta como público educado para assistir e incentivar, vibrar e saber calar. Comporta-se como turba, como multidão ululante e ignorante.
Entre elas a da coragem, coragem moral e coragem física. Quando o atleta persiste em seus treinos, e se ele tem vontade, determinação e capacidade para isso, quer vencer. Ele sabe que o risco é também perder.
Estes esportes e jogos remetem à Grécia Clássica, homens jovens (parece que as mulheres só começaram a "existir" no século XX) eram educados por meio de exercícios físicos, capacidade de lutar, e também intelectualmente. "Os deuses não concederam aos homens nenhuma das coisas belas e boas sem fadiga e estudos (...); se desejares ter um corpo forte, deves habituá-lo a obedecer à mente e exercitá-lo com fadigas e suores" (Xenofonte, Memorabilia).
Esses sábios conselhos resumem o modo como ginastas, esportistas e atletas agem, o grau de exigência de si, sua luta para superar dificuldades.
Um dos pontos fortes do modo grego de ser, de sua prática cotidiana, de sua ética, era o domínio de si mesmo, tão importante quanto a moderação, o meio termo.
E para obter o domínio de si, fundamental é a educação do jovem, a experiência com os revezes, com as dificuldades, a fim de se fortalecer. Nada disso vale sem a profunda reflexão, como perguntar: "o que eu penso, o que eu desejo, o que eu posso conseguir?"
Tão importante quanto as virtudes do caráter, são as virtudes intelectuais, como a sabedoria e a compreensão, ou seja, saber avaliar e julgar. Se estas últimas virtudes acompanharem o atleta, tanto maior será seu valor.
E hoje? Há pouca reflexão sobre o real valor da competição nos esportes e no atletismo. A cultura de um povo parece ora incentivar, ora relegar a segundo plano vencer em jogos e esportes.
Ao lado de tradição, se juntam incentivo e capacitação técnica, cada vez mais aprimorada.
Isso sem falar das políticas públicas, no Brasil praticamente inexistentes...
Quem sabe ganhar tem noção exata da medida de seus esforços e de sua capacidade.
Saber ganhar
Os que não sabem perder desconhecem a capacidade do(s) outro(s) e ignoram seus próprios limites.
Saber perder
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Escola é para ensinar e aprender, nem com partido e nem sem partido
Há décadas os alunos que se formam nos cursos de licenciatura, em especial Pedagogia, Sociologia e História, devem se adequar a uma linha de pesquisa, a do marxismo, a da dialética, a gramsciana.
Seus trabalhos, dissertações e teses seguem as noções de que a história é a dos oprimidos, que desde os gregos e romanos há uma divisão de classes sociais, e que o capitalismo é intrinsecamente prejudicial, deve ser substituído pelo socialismo, que os povos indígenas e os pobres representam a salvação da sociedade, que a exploração capitalista é a mãe de todos os males, que as lutas devem se pautar pelo banimento do capital, do investimento estrangeiro, que o FMI e a política norte-americana impedem que a pobreza seja erradicada, que a propriedade privada seja distribuída, que a escola seja o lugar dos ensinamentos de Paulo Freire.
Essa linha dura da esquerda se confronta com outra linha dura, a da direita. Ela prega o inverso: que igualdade nunca será alcançada, que as diferenças entre classes sociais são desprezíveis, que o indivíduo está acima das classes. Seu princípio é o do conservadorismo: Deus, pátria, família.
Ora, educar por uma ou outra dessas tendência não é educar, é influenciar segundo uma doutrina, um tipo de pensamento que evita o confronto com a história, com os acontecimentos, com as ideias. Impede o argumento, a liberdade que o professor deve exigir para si, a cabeça arejada, livre das amarras doutrinárias sejam elas a de que produzir é explorar, ou a de que basta empreender, investir, lucrar a qualquer preço.
Estudos sérios da história, da sociedade e da economia nacional e a história das sociedades como um todo, são raros, é preciso que novas gerações façam um esforço nesse sentido, E como? Por meio da pesquisa de fontes, checando a idoneidade delas, pelo estudo sério e comprometido com o aprendizado, e sempre com liberdade para criticar, para apontar eventuais erros, e, principalmente entender que não há a verdade.
O que move a história dos povos e nações não é exclusivamente o interesse econômico, nem os valores sacramentados da cultura branca, europeia, elitista.
O poder não tem dono, seja um partido político, sejam as classes superiores que impõem valores como se fossem intocáveis.
Somos povo, somos povos, somos diversos, nosso bem maior é a autonomia, a capacidade de decidir de acordo com princípios que passaram pelo crivo das leis, dos direitos, da liberdade de expressar ideias e valores, da discussão pública dos mesmos.
O descrito acima requer democracia, espaço público de discussão, a qual depende de informação, de conteúdo sério, de livre comunicação, de investimento na educação. A função primordial das escolas é formar pessoas aptas e educadas, e não gado a ser conduzido. Que os professores precisam vir capacitados a lidar com crianças, adolescentes e jovens, os quais não são rebanho a ser conduzido cegamente por uma ideologia ou doutrina. Que é preciso informar, capacitar, exercitar o poder de agir, de elucidar, de entender que em toda sociedade há fatores econômicos (trabalho, capital, investimento, produção), fatores sociais (educação, regras de convivência, possibilidade de ascensão social, liberdade de pensamento), fatores políticos (partidos, leis, direito, governo, a harmonia e o respeito entre os três poderes).
Professores não devem se submeter à bibliografia de seu orientador (linha de pesquisa de orientação marxista/gramsciana), nem devem ser submetidos a regras de conduta obrigatórias penduradas em sua sala de aula (proposta do movimento "escola sem partido").
Seus trabalhos, dissertações e teses seguem as noções de que a história é a dos oprimidos, que desde os gregos e romanos há uma divisão de classes sociais, e que o capitalismo é intrinsecamente prejudicial, deve ser substituído pelo socialismo, que os povos indígenas e os pobres representam a salvação da sociedade, que a exploração capitalista é a mãe de todos os males, que as lutas devem se pautar pelo banimento do capital, do investimento estrangeiro, que o FMI e a política norte-americana impedem que a pobreza seja erradicada, que a propriedade privada seja distribuída, que a escola seja o lugar dos ensinamentos de Paulo Freire.
Essa linha dura da esquerda se confronta com outra linha dura, a da direita. Ela prega o inverso: que igualdade nunca será alcançada, que as diferenças entre classes sociais são desprezíveis, que o indivíduo está acima das classes. Seu princípio é o do conservadorismo: Deus, pátria, família.
Ora, educar por uma ou outra dessas tendência não é educar, é influenciar segundo uma doutrina, um tipo de pensamento que evita o confronto com a história, com os acontecimentos, com as ideias. Impede o argumento, a liberdade que o professor deve exigir para si, a cabeça arejada, livre das amarras doutrinárias sejam elas a de que produzir é explorar, ou a de que basta empreender, investir, lucrar a qualquer preço.
Estudos sérios da história, da sociedade e da economia nacional e a história das sociedades como um todo, são raros, é preciso que novas gerações façam um esforço nesse sentido, E como? Por meio da pesquisa de fontes, checando a idoneidade delas, pelo estudo sério e comprometido com o aprendizado, e sempre com liberdade para criticar, para apontar eventuais erros, e, principalmente entender que não há a verdade.
O que move a história dos povos e nações não é exclusivamente o interesse econômico, nem os valores sacramentados da cultura branca, europeia, elitista.
O poder não tem dono, seja um partido político, sejam as classes superiores que impõem valores como se fossem intocáveis.
Somos povo, somos povos, somos diversos, nosso bem maior é a autonomia, a capacidade de decidir de acordo com princípios que passaram pelo crivo das leis, dos direitos, da liberdade de expressar ideias e valores, da discussão pública dos mesmos.
O descrito acima requer democracia, espaço público de discussão, a qual depende de informação, de conteúdo sério, de livre comunicação, de investimento na educação. A função primordial das escolas é formar pessoas aptas e educadas, e não gado a ser conduzido. Que os professores precisam vir capacitados a lidar com crianças, adolescentes e jovens, os quais não são rebanho a ser conduzido cegamente por uma ideologia ou doutrina. Que é preciso informar, capacitar, exercitar o poder de agir, de elucidar, de entender que em toda sociedade há fatores econômicos (trabalho, capital, investimento, produção), fatores sociais (educação, regras de convivência, possibilidade de ascensão social, liberdade de pensamento), fatores políticos (partidos, leis, direito, governo, a harmonia e o respeito entre os três poderes).
Professores não devem se submeter à bibliografia de seu orientador (linha de pesquisa de orientação marxista/gramsciana), nem devem ser submetidos a regras de conduta obrigatórias penduradas em sua sala de aula (proposta do movimento "escola sem partido").
terça-feira, 5 de julho de 2016
Filosofia como terapia contra as seduções da linguagem
A função terapêutica da filosofia pode ser entendida como consolo, solução às dúvidas, esclarecimento, limpeza da mente quando o filósofo nos conduz a um tipo de repouso da alma. Não aquele repouso que as religiões e a meditação alcançam, e sim o da tranquilidade que as reflexões acerca de nós, nossa vida, nosso ser, o sentido de nossa existência abrem novos caminhos, mesmo que não se chegue às respostas.
Se a filosofia sobretudo indaga, as religiões e a meditação transcendental sossegam, pois não devem gerar dúvida nem conflito.
Em compensação, as perguntas de estilo filosófico exigem muito menos da emoção e bastante do intelecto, da inteligência curiosa, do estudo dos mais eminentes filósofos, das próprias questões que muitas vezes postulamos.
Mas, se a filosofia como terapia for entendida no sentido de Wittgenstein, as exigências costumeiras da reflexão filosófica devem, ao contrário do exposto acima, ser elididas e no lugar de refletir sobre o ser em geral (metafísica), sobre nossa existência, sobre o conhecer, o saber, o que é o real, o que é verdade, certeza, Deus, o mundo, a totalidade dos seres, Witgenstein surpreende:
Não temos e nem precisamos desse tipo de problemática, nosso modo de vida, nossas formas de vida aprenderam a linguagem, a lidar com ela e simultaneamente com tudo o que nos cerca em nosso dia a dia.
O filósofo vienense se debruça sobre o uso normal da linguagem, os jogos de linguagem e desse modo dissolve questões ao invés de resolvê-las.
Se você conversa com alguém e pergunta, o que é isso ou aquilo, se você ensina a uma criança a diferença entre seres vivos e seres inanimados, se você adverte que é preciso ser responsável, se você em uma aula de filosofia expõe a natureza do ser para certo filósofo, isso mostra que há diversos e diferentes usos do termo ser.
Desse modo, entendendo que o problemático uma vez contextualizado pelos usos habituais de jogos de linguagem, se dissolve, o que pode parecer inócuo e decepcionante, se transforma com a terapia filosófica de Wittgenstein. Ela pode significar um modo novo e interessante de encarar justamente, sua própria vida, seu destino, o que é inalcançável e que não poderemos nunca compreender (mistério que envolve o começo, as causas, a divindade, o fim de tudo, e muitas questões metafísicas) e dá-se então uma reviravolta no tipo de vida e de vivência: tristeza, alegria, frustrações, realizações, passam a caber em outro molde após a terapia.
Reduzir as questões filosóficas ao modo cotidiano e mesmo banal de nossas formas de vida, significa aceitar que somos nós mesmos os produtores dos meios que nos levam àquelas questões. Quer dizer, sem a linguagem aprendida, sem os meios culturais nos quais ela se forja, não teríamos como alcançar inclusive a tranquilidade da reflexão filosófica, que mencionamos no início. Mas com uma nova visão, uma nova perspectiva, a nossa, a humana, tudo muda de figura.
"Mesmo o mais poderoso telescópio requer para seu uso a medida do olho humano".
"Um enigma filosófico surge quando se tem uma morfologia limitada dos usos da linguagem"
"Um conceito é uma técnica de uso de uma palavra"
"Pensamentos que estão em paz, é a isso que a reflexão filosófica almeja"
(Wittgenstein)
Se a filosofia sobretudo indaga, as religiões e a meditação transcendental sossegam, pois não devem gerar dúvida nem conflito.
Em compensação, as perguntas de estilo filosófico exigem muito menos da emoção e bastante do intelecto, da inteligência curiosa, do estudo dos mais eminentes filósofos, das próprias questões que muitas vezes postulamos.
Mas, se a filosofia como terapia for entendida no sentido de Wittgenstein, as exigências costumeiras da reflexão filosófica devem, ao contrário do exposto acima, ser elididas e no lugar de refletir sobre o ser em geral (metafísica), sobre nossa existência, sobre o conhecer, o saber, o que é o real, o que é verdade, certeza, Deus, o mundo, a totalidade dos seres, Witgenstein surpreende:
Não temos e nem precisamos desse tipo de problemática, nosso modo de vida, nossas formas de vida aprenderam a linguagem, a lidar com ela e simultaneamente com tudo o que nos cerca em nosso dia a dia.
O filósofo vienense se debruça sobre o uso normal da linguagem, os jogos de linguagem e desse modo dissolve questões ao invés de resolvê-las.
(1889-1951)
O que é o ser? Faça a seguinte experiência: como você usa no trato da linguagem, que foi aprendida e que só faz sentido nesses usos, o verbo ser, ou o substantivo ser. Se você conversa com alguém e pergunta, o que é isso ou aquilo, se você ensina a uma criança a diferença entre seres vivos e seres inanimados, se você adverte que é preciso ser responsável, se você em uma aula de filosofia expõe a natureza do ser para certo filósofo, isso mostra que há diversos e diferentes usos do termo ser.
Desse modo, entendendo que o problemático uma vez contextualizado pelos usos habituais de jogos de linguagem, se dissolve, o que pode parecer inócuo e decepcionante, se transforma com a terapia filosófica de Wittgenstein. Ela pode significar um modo novo e interessante de encarar justamente, sua própria vida, seu destino, o que é inalcançável e que não poderemos nunca compreender (mistério que envolve o começo, as causas, a divindade, o fim de tudo, e muitas questões metafísicas) e dá-se então uma reviravolta no tipo de vida e de vivência: tristeza, alegria, frustrações, realizações, passam a caber em outro molde após a terapia.
Reduzir as questões filosóficas ao modo cotidiano e mesmo banal de nossas formas de vida, significa aceitar que somos nós mesmos os produtores dos meios que nos levam àquelas questões. Quer dizer, sem a linguagem aprendida, sem os meios culturais nos quais ela se forja, não teríamos como alcançar inclusive a tranquilidade da reflexão filosófica, que mencionamos no início. Mas com uma nova visão, uma nova perspectiva, a nossa, a humana, tudo muda de figura.
"Mesmo o mais poderoso telescópio requer para seu uso a medida do olho humano".
"Um enigma filosófico surge quando se tem uma morfologia limitada dos usos da linguagem"
"Um conceito é uma técnica de uso de uma palavra"
"Pensamentos que estão em paz, é a isso que a reflexão filosófica almeja"
(Wittgenstein)
quinta-feira, 16 de junho de 2016
O extremismo religioso, refúgio de covardes
Após o odioso massacre de Orlando, absurdo, preconceituoso e, especialmente cruel, cuja repercussão fala por si só, - houve o assassinato de um casal de policiais, na cidadezinha de Magnanville, região de Île de France, com apenas 6000 habitantes. Foi no dia 13 de junho (2016).
Trata-se também de radical islamita, Larossi Abdalla, que já havia sido preso por radicalização e que, na prisão insuflou rebeliões em prol de suas crenças e ideias absurdas, pregação de que somente sua seita tem razão, todos a ela devem se submeter, e morte a quem ousar ser livre, diferente, afirmar seu modo de vida e de pensamento.
O que surpreende, como grande parte dos moradores da pequena cidade foram unânimes em desabafar, é que não podiam compreender o ato, uma senhora chegou a observar, que se fosse em Paris, até seria esperado, mas porque ali? Como entender que alguém esfaqueie o casal, por serem policiais?! Larossi saiu deixando os corpos dos pais junto ao filho de três anos!
Os policiais franceses tomaram uma atitude, exigir do sindicato portarem armas o tempo todo e em qualquer lugar.
Isso significa que um "lobo solitário", a mando do Exército Islâmico (Isis) venha a assassinar toda e qualquer pessoa, seja ou não uma autoridade, divirja ou não de sua "fé", pois nem mesmo muçulmanos estão a salvo, e essa pessoa pode estar em qualquer lugar.
Outra questão: punir como, se o terrorista nasceu nos EUA ou na Europa, tem cidadania, estudou, tem família, como descobrir onde estão as células, quem são os aliciados, como detê-los?
Impossível!
Criar uma Guantánamo na França como se cogitou? Injusto e inviável, açodaria ainda mais os dispostos a tudo em nome de um exército de desvairados, que matam muito mais na Síria.
E que dizer da complacência e mesmo apoio financeiro da Arábia Saudita? Os xeiques nadam em dinheiro e luxo, fruto do petróleo, e devem rir dos atentados.
Por que se calam os países atingidos pelo terrorismo e não condenam os mandatários da Arábia Saudita?!
Se o petróleo financia o radicalismo islâmico, que se busquem outros fornecedores, energia alternativa, ou outro meio. O terrível é deixar xeiques (note-se a omissão da Rússia), sabotarem os valores das culturas e civilizações onde há liberdade religiosa, política, onde mulheres podem estudar, as diversas religiões podem ser praticadas, onde cada indivíduo pode escolher seu modo de viver e de educar seus filhos.
Trata-se também de radical islamita, Larossi Abdalla, que já havia sido preso por radicalização e que, na prisão insuflou rebeliões em prol de suas crenças e ideias absurdas, pregação de que somente sua seita tem razão, todos a ela devem se submeter, e morte a quem ousar ser livre, diferente, afirmar seu modo de vida e de pensamento.
O que surpreende, como grande parte dos moradores da pequena cidade foram unânimes em desabafar, é que não podiam compreender o ato, uma senhora chegou a observar, que se fosse em Paris, até seria esperado, mas porque ali? Como entender que alguém esfaqueie o casal, por serem policiais?! Larossi saiu deixando os corpos dos pais junto ao filho de três anos!
Os policiais franceses tomaram uma atitude, exigir do sindicato portarem armas o tempo todo e em qualquer lugar.
Isso significa que um "lobo solitário", a mando do Exército Islâmico (Isis) venha a assassinar toda e qualquer pessoa, seja ou não uma autoridade, divirja ou não de sua "fé", pois nem mesmo muçulmanos estão a salvo, e essa pessoa pode estar em qualquer lugar.
Outra questão: punir como, se o terrorista nasceu nos EUA ou na Europa, tem cidadania, estudou, tem família, como descobrir onde estão as células, quem são os aliciados, como detê-los?
Impossível!
Criar uma Guantánamo na França como se cogitou? Injusto e inviável, açodaria ainda mais os dispostos a tudo em nome de um exército de desvairados, que matam muito mais na Síria.
E que dizer da complacência e mesmo apoio financeiro da Arábia Saudita? Os xeiques nadam em dinheiro e luxo, fruto do petróleo, e devem rir dos atentados.
Por que se calam os países atingidos pelo terrorismo e não condenam os mandatários da Arábia Saudita?!
Se o petróleo financia o radicalismo islâmico, que se busquem outros fornecedores, energia alternativa, ou outro meio. O terrível é deixar xeiques (note-se a omissão da Rússia), sabotarem os valores das culturas e civilizações onde há liberdade religiosa, política, onde mulheres podem estudar, as diversas religiões podem ser praticadas, onde cada indivíduo pode escolher seu modo de viver e de educar seus filhos.
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Sobre cultura, sociedade e filosofia
Corações e mentes se inflamaram com a incorporação do Ministério da Cultura pelo Ministério da Educação. Dificilmente se vê toda uma classe de intelectuais, produtores culturais, artistas tão unidos em protesto por uma causa tão polêmica.
Até que ponto é necessário um ministério para firmar a importância da cultura? A quem interessa esse tipo de prestígio? No governo Dilma a verba para o MinC minguava mês a mês sem que artistas e seus seguidores protestassem...
Vejamos o que está em jogo: a volta de um ministério dedicado à cultura apaziguou os ânimos de muitos que sinceramente acham que o prestígio da cultura e da arte automaticamente automaticamente restaurado.
É preciso perguntar: qual é o papel da cultura na sociedade brasileira atual? Quais são os produtos culturais que requerem verba do governo federal? Como aplicar a lei Rouanet com critérios condizentes? Quem julga o projeto merecedor de verba?
Teatro, dança, música, literatura, cinema, preservação do patrimônio público e museus raramente interessam ao investidor privado (não é o caso em países desenvolvidos), a menos que haja retorno garantido, como em publicidade.
A iniciativa particular nos setores acima descritos, por exemplo, uma escola de balé ou de teatro, cobrará de seus alunos. Qual o alcance desses empreendimentos? Pouco, raro e caro.
Por isso, uma orquestra, como a do Teatro Guaíra em Curitiba, precisa de verba pública, no Brasil há pouquíssimos mecenas.
Somos um país dependente do governo. Não há iniciativa, luta e garra para obter patrocínio de empresas de um modo contínuo e que não dependa de subsídios.
Desse modo, a produção cultural se vê amarrada a certos apadrinhamentos, a certa política, a certos governos.
Ora, a abertura para atrair produtos de melhor qualidade, educar o público para apreciar e participar mais e com continuidade, engajar escolas, universidades, organizações não governamentais em projetos com alcance maior, é isso que faz a ponte entre cultura e sociedade. Sem esquecer que cultura é a identidade de um povo, sua marca.
Um dos principais representantes da tribo Terena, afirmou com sabedoria: "Eu posso ser você, sem deixar de ser eu", quer dizer, a cultura dos índios pode assimilar produtos, sem que eles percam sua identidade.
"Cultura é como uma grande organização que assinala a cada um de seus membros um lugar onde ele pode trabalhar no espírito do todo", escreveu Wittgenstein.
Cultura não é, portanto, o pensamento oficial, não pode e nem deve passar pelo filtro de um partido político, de aprovação ideológica, ou pior, de disseminação de certa ideologia política. Esses filtros funcionam como trava à liberdade de criação, ao espaço para o pensar diverso, para a divergência, sem patrulha. Ainda Wittgenstein: "dogmas impedem a livre expressão de toda opinião, é como se eles fossem um peso atado às pernas que travam a liberdade de movimento".
Assim, se a cultura de um povo depender de seus ídolos, de seus apaniguados, de certos artistas com prestígio e com verba governamental, não é cultura. Esses "intelectuais" se aninham no poder, no dinheiro público, nas mídias sociais para, todo sorrisos, permanecerem com seu status.
Em sua dimensão filosófica, a cultura é muito mais séria e com resultados muito mais amplos: de que perspectiva o escritor, o cineasta, o cantor, o violinista da orquestra, a bailarina atuam?
A criação artística e cultural não nasce espontaneamente, precisa ser cultivada. E o que sustenta a produção de arte senão a própria sociedade educada, tanto pela educação formal, como pela informal? Não há cultura sem educação, nem educação sem cultura.
Até que ponto é necessário um ministério para firmar a importância da cultura? A quem interessa esse tipo de prestígio? No governo Dilma a verba para o MinC minguava mês a mês sem que artistas e seus seguidores protestassem...
Vejamos o que está em jogo: a volta de um ministério dedicado à cultura apaziguou os ânimos de muitos que sinceramente acham que o prestígio da cultura e da arte automaticamente automaticamente restaurado.
É preciso perguntar: qual é o papel da cultura na sociedade brasileira atual? Quais são os produtos culturais que requerem verba do governo federal? Como aplicar a lei Rouanet com critérios condizentes? Quem julga o projeto merecedor de verba?
Teatro, dança, música, literatura, cinema, preservação do patrimônio público e museus raramente interessam ao investidor privado (não é o caso em países desenvolvidos), a menos que haja retorno garantido, como em publicidade.
A iniciativa particular nos setores acima descritos, por exemplo, uma escola de balé ou de teatro, cobrará de seus alunos. Qual o alcance desses empreendimentos? Pouco, raro e caro.
Por isso, uma orquestra, como a do Teatro Guaíra em Curitiba, precisa de verba pública, no Brasil há pouquíssimos mecenas.
Somos um país dependente do governo. Não há iniciativa, luta e garra para obter patrocínio de empresas de um modo contínuo e que não dependa de subsídios.
Desse modo, a produção cultural se vê amarrada a certos apadrinhamentos, a certa política, a certos governos.
Ora, a abertura para atrair produtos de melhor qualidade, educar o público para apreciar e participar mais e com continuidade, engajar escolas, universidades, organizações não governamentais em projetos com alcance maior, é isso que faz a ponte entre cultura e sociedade. Sem esquecer que cultura é a identidade de um povo, sua marca.
"Cultura é como uma grande organização que assinala a cada um de seus membros um lugar onde ele pode trabalhar no espírito do todo", escreveu Wittgenstein.
Cultura não é, portanto, o pensamento oficial, não pode e nem deve passar pelo filtro de um partido político, de aprovação ideológica, ou pior, de disseminação de certa ideologia política. Esses filtros funcionam como trava à liberdade de criação, ao espaço para o pensar diverso, para a divergência, sem patrulha. Ainda Wittgenstein: "dogmas impedem a livre expressão de toda opinião, é como se eles fossem um peso atado às pernas que travam a liberdade de movimento".
Assim, se a cultura de um povo depender de seus ídolos, de seus apaniguados, de certos artistas com prestígio e com verba governamental, não é cultura. Esses "intelectuais" se aninham no poder, no dinheiro público, nas mídias sociais para, todo sorrisos, permanecerem com seu status.
Em sua dimensão filosófica, a cultura é muito mais séria e com resultados muito mais amplos: de que perspectiva o escritor, o cineasta, o cantor, o violinista da orquestra, a bailarina atuam?
A criação artística e cultural não nasce espontaneamente, precisa ser cultivada. E o que sustenta a produção de arte senão a própria sociedade educada, tanto pela educação formal, como pela informal? Não há cultura sem educação, nem educação sem cultura.
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