segunda-feira, 25 de maio de 2015

A perda da simplicidade

Os bens e produtos que compõem nossa vida são cada vez mais numerosos, exigem tempo e dinheiro, são considerados necessários, mesmo imprescindíveis.
Meios para expandir tudo o que é básico, desde vestuário, alimentação, moradia, se banalizam, ficam ao alcance de um toque nas telas, de uma volta em shoppings, de visualizações na mídia. O desejo se retroalimenta por esses meios. A simplicidade e a austeridade se perdem, aliás, o que seria vida simples e austera nas urbes e nos meios sociais hoje?
O que é de fato necessário e o que é supérfluo? A linha que os separa ficou diluída com a revolução industrial, com a expansão das comunicações, com a sofisticação do mercado de trabalho, com a especialização das funções. Ao que tudo indica, o supérfluo se tornou necessário. Quase impossível abrir mão de produtos de "última geração", o preço é ficar alijado e mesmo alienado pelo desconhecimento ou pela rejeição do mais atualizado artefato tecnológico.
Evidentemente que para produzir, transportar e comunicar é obrigatório investir em tecnologia e conhecimento, se não o risco é, como se diz "ser engolido pela concorrência".
Essa disputa nunca tem o vencedor final, além de deixar no caminho muitos perdedores.
Nesse quadro, como agir, como reagir?
Delineando para si projetos de vida em que a informação, o senso crítico, o discernimento, a renúncia à multiplicação desproporcional do desejo de consumo e a busca por certo despojamento façam parte do modo de ser.
Problema: esse tipo de reflexão, que modo de vida escolher e quais valores preferir -, sequer passa pela cabeça da maioria.
No lugar da simplicidade e do despojamento, a competição e o total envolvimento com as atrações e novidades.
Sem que houvesse quem compra supérfluos estes não seriam comercializados e a produção mudaria talvez para outro tipo de consumidor, e poderia atender as reais necessidades de enorme parte da humanidade, que sofre com fome e guerras fratricidas.

Um bom exercício de desprendimento seria contemplar o céu que se abre por detrás de nuvens, em um azul que leva o espírito a ir mais além, para diante, para o mistério. Saber-se mortal e frágil pode levar as pessoas a olhar com certa distância a acumulação de bens, as mesquinharias, o egoísmo, a pressa, a competição e tantas barganhas do dia a dia.

Sêneca (século I) escreveu em Da tranquilidade da alma: 

Minha alma, que não está habituada a choques, padece com a menor humilhação; ao sofrer alguma injúria (como é comum encontrar em toda a existência humana), ou alguma contrariedade, bagatelas, que me têm tomado mais tempo do que valem a pena, volto-me à ociosidade e, como os animais, por mais cansados que estejam, acelero o passo ao retornar ao lar. E decido então encerrar-me em casa: que ninguém me roube um dia, pois ele jamais me indenizaria de tal perda; que minha alma não se incline senão para si mesma ... que não se ocupe de nada que a distraia, que a submeta ao julgamento alheio. Apreciemos uma tranquilidade que seja estranha a todas as preocupações públicas ou particulares. ... É possível à alma caminhar numa conduta sempre igual e firme, sorrindo para si mesma, comprazendo-se com essa sensação, sem se afastar jamais de sua calma, sem se exaltar, nem se deprimir. Isso será tranquilidade. Equilíbrio, que os gregos chamam de "euthymia".

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Sobre o uso inapropriado da Filosofia

Em recente artigo (Gazeta do Povo, 20 abril) o filósofo Luiz Felipe Pondé enaltece Lucrécio, autor de "Da Natureza das Coisas", século I a. C. Os pontos ressaltados são a concepção de cosmo com limite, o acaso, a natureza se compõe de átomos em livre movimento, e, como diz Pondé, "morreu, acabou". Tudo bem, expressa seu materialismo, o que é uma postura filosófica defensável e respeitável. O mau uso de seu materialismo vem de sua pura e simples condenação de se pensar em outra possibilidade. Liberdade, contingência, mas não como coisa de adolescente, defende ele; felicidade, mas não aquela proporcionada pela abertura de um shopping center. E prossegue, sempre na primeira pessoa, eu creio que tudo acaba, eu condeno quem acredita na vida eterna, eu condeno o prazer imediato, e eu digo que tudo é tão simples quanto cuidar bem das eventuais mulheres que compartilharem de sua cama.
Ops! Não estaria Pondé sendo moderno, bacana, de certa forma querendo se mostrar contestador e, talvez, chocando seus leitores?
Filosofar requer respeito às posições de outros filósofos que pensam diferentemente, requer olhar sempre para o outro lado, requer despojar-se de orgulho e de jactar-se como aquele que tem razão, que tem certeza, e isso apoiado em alguns conceitos retirados de outro filósofo, no caso Lucrécio, cujo pensamento é interessante, e, como todos os filósofos, leva a refletir, a clarear, a mostrar novos caminhos, outras visões, mas, certamente, sem a vaidade de pretender que sua posição elimina todas as outras. Em especial com argumentos que detonam o adversário ("são teenagers" adjetiva Pondé, o que pressupõe ser ele adulto...) em lugar de dialogar e expor razões, sempre com argumentos.
O uso inapropriado da filosofia, para o enaltecimento próprio e o desprezo pelo outro, leva a becos sem saída. Quer dizer, se você é tão sábio assim, eu humildemente me recolho à minha insignificância.
Pelo contrário, filosofar deve ampliar horizontes, mostrar que tais e tais filósofos, ao adotar tais e tais posições, abrem perspectivas, arejam o pensamento.
***
Um exemplo de crítica aos que defendem a vida eterna, sem desprezar essa posição, se encontra na seguinte reflexão de Wittgenstein: "como seria uma vida eterna?" Imediatamente surgem questões, o inusitado, a beleza da Filosofia!
Desse modo, o público interessado em filosofia, especialmente os alunos de filosofia, aprenderiam algo mais, refletiriam com mais acerto, ficariam intrigados com a proposta de se pensar como seria "vida" que fosse também "eterna". Há nessa proposta um oximoro e são conceitos combináveis ou há um paradoxo? Quer dizer, como pode a vida que implica necessariamente em nascimento e morte, portanto, inteiramente imersa na temporalidade, ser eterna, durar para sempre?
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Filósofos não podem simplesmente afirmar terem razão e desprezarem seu oponente dialógico. Filosofar requer troca de ideias e conceitos.
Então, qual o sentido de filósofos adotarem uma corrente, defenderem suas noções e criarem escolas de pensamento?
Isso é próprio da Filosofia, mostrar que o pensamente filosófico não se esgota, que há diferentes modos de pensar, e, ao criticar outras posições, colaboram para a extensão e o aprofundamento da crítica mútua.
O contrário não é Filosofia e sim doutrinação, ideologia, é pretender convencer e mesmo vencer com seu ponto de vista exclusivo.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

"Penso que vai chover, logo existo" (!!!)

A frase acima foi pronunciada por Wittgenstein em um debate em Oxford em fins dos anos 40. O tema era o cogito de Descartes. Trata-se de usar seu método de mostrar o que faz e o que não faz sentido dizer, conforme o contexto, e mais, sua concepção de que problemas filosóficos podem e devem ser dissolvidos pelo uso da linguagem comum. Isso irritou o debatedor. Afinal, o que é o cogito?, indagou este. Ora, filósofos e seus problemas, como essência, mente, intenção, realidade, verdade, e tantos outros conceitos filosóficos, quando retirados da problematização que se faz em Filosofia, por meio de generalizações e abstrações, nada significam.
Assim, se alguém dissesse: "Penso que vai chover, logo existo", parodiando o famosíssimo e para lá de emblemático, "Penso, logo existo", base da filosofia racionalista, Wittgenstein diz que não se saberia do que tal pessoa estivesse falando.
Dissolução da linguagem privada, e também de mente, pensamento, consciência. São palavras que só significam quando usadas em formas de vida, quer dizer, em certos jogos de linguagem.
Tudo começou com a reflexão sobre lógica quando tinha apenas 19 anos. Como se relacionam linguagem e realidade? O mundo consistiria de fatos, eles constroem . Aos poucos o que faz sentido dizer não está mais inscrito nas proposições lógicas e Wittgenstein põe em dúvida o arcabouço lógico-linguístico do mundo, do dizível, do constatável, e estende sua análise para além da "pureza cristalina da lógica". No dia a dia, o uso normal da linguagem desautoriza o esquema de espelhamento entre proposições e estados de coisa.
Em meio aos problemas filosóficos, outros o atormentavam, como se lê em sua biografia (O dever do gênio, de Ray Monk) mais, muito mais. As dúvidas com relação a sua pessoa, sua integridade moral e emocional, seus dilemas de homossexual, como dominar e dar sentido aos seus atos, a necessidade de examinar as questões filosóficas, em especial a filosofia da matemática, a sensação ambígua de que mesmo com inequívoco interesse pela filosofia, a vida prática parecia-lhe mais convidativa, mas acolhedora e proveitosa.
Filósofos profissionais em sua arrogância e pretensão, eram abominados. A vida reclusa, ensinar crianças em aldeias remotas, cuidar de jardim, serviços militares na I Guerra, e mais tarde serviços em hospital com feridos da II Guerra, lhe era preferível, fazia sentido, ajudava muito mais do que suas aulas em Cambridge.
Russell foi amigo e protetor, o que não impediu de criticá-lo e mostrar-lhe que a teoria dos tipos não dava conta da lógica, que lógica e matemática eram dois terrenos distintos.
A construção da única obra publicada em vida, Tractatus Logico-Philosophicus, foi árdua, retirou-se para a Noruega a fim de dedicar-se à reflexão. A questão da igualdade não pode ser dita, "A" é o mesmo que "A", pode ser mostrada, exposta; "B" ser diferente de "x", "y", "z" pode ser mostrada, a lógica se constitui de conjuntos de signos; entre seus métodos, o das tabelas de verdade. A esfera mística, em que as dúvidas o perturbavam, só pode ser mostrada em ações. Ao mesmo tempo em que necessitava da solidão, necessitava também de amizades sinceras, e mesmo de amor. Riqueza, em especial a de sua família, foram dispensadas, gostava de levar uma vida restrita.
Ironizava tudo que era levado a sério, inclusive sua própria filosofia, e desconfiava da ciência, da cientificização da cultura e de como a sociedade cultuava a ciência e o cientista.
Isso não o impediu de inventar máquinas e instrumentos e isso tendo sempre em vista necessidades práticas.
"A ética, na medida em que brota do desejo de dizer algo sobre o sentido da vida, o bem absoluto, o valor absoluto, não pode ser ciência. O que a ciência afirma, nada acrescenta".
Excelente recado aos que pretendem que a ciência explique tudo, até mesmo o sentimento de crença religiosa.
Wittgenstein é desses filósofos revolucionários, não via problema em pisoteiar pilares da Filosofia para continuar respirando.

terça-feira, 31 de março de 2015

Foucault não é da esquerda marxista!

Socialismo, comunismo, esquerda marxista, nenhum desses rótulos, ideologias ou concepção política cabem no pensamento e no ideário de Foucault.
O comunismo, com Stálin, matou mais do que Hitler no auge da eliminação de judeus e outros povos pelo chamado nacional socialismo, leia-se nazismo. E intelectuais que se prezam não podem ignorar a miséria do comunismo, o autoritarismo, a violência, a irracionalidade e inaplicabilidade de seus "princípios".
Considerar que Foucault é de esquerda, é impingir a ele um credo na transformação revolucionária por meio do poder do proletariado, ou hoje em dia, pelo poder dos trabalhadores, dos sindicatos, e no Brasil, do PT, do PCdoB, do MST. Estes são sectários, acham que o capitalismo é o sistema responsável pela pobreza, que os bancos especialmente os internacionais e os conglomerados industriais e financeiros devem ser eliminados, e nunca, nunca esse tipo de bandeira foi levantado por Foucault.
Foucault estudou a história da loucura, das ciências humanas, das prisões, da sexualidade; analisou o modo como aos poucos foi se constituindo um tipo de poder apaziguador, para governar e manter sob obediência populações, torná-la governável, portanto é preciso controlar desvios, desmandos, anormalidades. O Estado e sua conservação, dependem de governar populações, gerir a vida, a saúde, o comércio, e isso repercute no comportamento, no condicionamento de práticas, inclusive a "produção de verdade" e de nossa subjetividade.
O marxismo concebe a história como luta de classes, Foucault não. Nem passa pela sua cabeça a dialética da contradição social e econômica, condição de uma futura revolução social. 
Sua fontes de inspiração são Nietzsche, o estruturalismo francês, Canguilhem (historiador da biologia), os poetas malditos, como G. Bataille. Evidentemente conhecia a literatura marxista, mas dizia que Marx teve seu mérito em propostas e críticas para o capitalismo do século 19, e fora desse século "era como peixe fora d'água".
O capitalismo sofreu várias transformações, a riqueza tem se concentrado, bancos investem no próprio sistema, há muita pobreza, miséria, doenças, sofrimento, mas impossível eliminar trabalho, investimento, produção, circulação de riqueza e de bens, relações comerciais internacionais, e os diversos fatores da economia nacional e mundial. Regras e legislação existem, nem sempre são respeitadas.
Os poucos exemplos de países comunistas, com concentração do poder no Estado, foram violentos. Na antiga URSS houve morte, exílio, perseguição política e banimento da liberdade de credo, de pensamento, de crítica. Idem na China de Mao, e esta teve que se reinventar para que bilhões não morressem de fome.
E que dizer de Cuba, da Coreia do Norte? A pretensa igualdade produz déficits de todo tipo, humano, social, econômico. 
Se você preza sua liberdade de ir e vir, de pensar, de ser isso ou aquilo, de criar, de produzir, de instruir, de inovar, fique longe do comunismo/socialismo/marxismo.
Assista o vídeo do MST destruindo pesquisas científicas em nome da agricultura familiar. E o PT apoiando, aplaudindo, ao mesmo tempo em que precisa dar conta do mundo real...
Ah, Foucault daria boas risadas!

segunda-feira, 9 de março de 2015

O poder da reflexão filosófica

O mais conhecido símbolo da reflexão filosófica é a estátua de Rodin, "O Pensador". Dobrado sobre si, mão no queixo, ensimesmado, voltado para si, para seus pensamentos.

Mas, se a reflexão se limitasse às atitudes acima, a filosofia não teria produzido tantos pensadores com suas obras geniais, que merecem atenção cuidadosa, estudo, e que são, sobretudo, um convite à reflexão. Como então se caracteriza a reflexão se não é apenas pelo voltar-se para si?
A filosofia deve e pode levar a perguntas, ao questionamento, ela conduz à raiz, à busca de fundamentação, e assim produz admiração, abre os olhos e a cabeça para nossa situação no mundo, na sociedade, na história, na cultura, em nossa vida. 
Para chegar a esses efeitos, é preciso o que se poderia chamar de material de trabalho filosófico: ideias, noções, conceitos, propostas, indagações feitas pelos filósofos, mas não só por eles. Historiadores, artistas, escritores, jornalistas contribuem com material para a reflexão. A diferença está no grau de elaboração do material, enquanto os filósofos levam as questões a um nível mais geral, à abstração, às fundamentações, um artista, um cientista, um historiador, um escritor (e outros mais...), recolhem material mais concreto, documentos, situações do cotidiano, pesquisam, investigam. Eles precisam quantificar, construir com dados da realidade empírica para chegar a resultados, a feitos e fatos.
Isso não significa, como dito acima, que a reflexão filosófica seja feita nas nuvens, que o filósofo, ao abstrair, esteja longe das questões e problemas da realidade social, cultural, do avanço científico, dos acontecimentos locais, nacionais e mundiais.

De onde a filosofia extrai o conceito de justo, de belo, de bom? E o de verdade? Qual a motivação ou inspiração do filósofo para compreender o sentido da existência humana, de seus valores, das exigências de justiça, de melhoria da condição humana?
Justamente, das situações, acontecimentos, batalhas, contradições, sentimentos, buscas, indignação, aprovação, realizações, e de tudo o que nos constitui. A reflexão nos conduz a perguntar se isso tudo faz sentido ou se tudo isso é absurdo, se podemos conhecer os limites de todos os seres, ou não temos como saber o que nos limita. Os conceitos de ser e nada são abstrações? De que afinal se alimenta a filosofia?

Um exemplo de reflexão filosófica seria uma questão interessante e provocadora como esta:
Quem levaria mais a fundo a reflexão filosófica, Dostoiévski em "Crime e Castigo" ou Wittgenstein no "Tractatus Logico-Philosophicus"?
Sofrimento, liberdade, valores, justiça, punição, consciência moral, dilemas éticos, a produção literária de Dostoiévski dá a pensar.

Lógica, fatos gerais que constituem o mundo, limites do pensamento e da linguagem, a estrutura do mundo, como obter sentido para Wittgenstein, e isso pela análise filosófica.

Em comum: produzir, criar, levar a reflexão sobre nossas condições ao limite do possível, ilustrado pela tragédia (crime/morte) ou pela busca da forma lógico-gramatical, arcabouço último do sentido, lado a lado com o que é inexprimível (divino/inefável).

Em suma:
Refletir requer analisar, reunir pensamentos, dispor deles em certa ordem, concluir com sínteses renovadoras, dar razões, exigir rigor no raciocínio, e ser verdadeiro em seus propósitos.
Impossível sem honestidade e curiosidade intelectuais.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

1o curso de Foucault: proveniência da vontade de verdade

A questão primordial da teoria do conhecimento é a da relação entre sujeito e objeto. Foucault inaugura outra questão, fazer uma história do conhecimento (à qual chamará de "genealogia") dirigida aos acontecimentos do saber nos quais o conhecimento produz certos efeitos. Um exemplo de acontecimento na ordem do saber foi a exclusão dos sofistas. Um exemplo, e dos mais efetivos de teoria do conhecimento, é a de Aristóteles, filosofia e verdade se tornam interdependentes, desejo de conhecer se fundamenta na lógica, que expõe o sofisma, com aparência de raciocínio, mas que usa palavras para convencer, uma espécie de tática; é diferente dos erros e dos falsos raciocínios. O silogismo, raciocínio correto, remete às coisas significadas, aos referentes, e, portanto, à verdade das proposições confirmáveis pela realidade.
Já os sofistas, defende Foucault, sustentam o próprio enunciado em sua materialidade de discurso, como coisa, e não como palavras que remetem a coisas. O discurso dos sofistas leva a acordo ou desacordo com o que diz e não com a verdade ou falsidade, com a verificação, com o discurso apofântico, isto é, a relação entre este ser que se diz e o ser ele mesmo, se a coisa é, a proposição tem que dizer isso.
Assim, a filosofia ocidental busca a verdade nas coisas, é apofântica. E Foucault trabalha não com esse tipo de verdade e sim com os enunciados do discurso e seus diferentes níveis e inserções. A questão deste primeiro curso é:
Como, nas relações de dominação dos discursos filosóficos os sofistas foram "esquecidos e reprimidos para dar lugar a um discurso apofântico que pretende se ordenar ao ser sob o o modo da verdade?" (p. 67)
E antes, o que havia?
Verdade em sua relação com o discurso jurídico, na idade arcaica (Grécia homérica), os deuses e o cosmo presidem as decisões. Isso muda na idade clássica, legisladores invocam as regras do costume, o que é justo para os cidadãos e a cidade, pergunta-se pelo prejuízos, não mais se invoca a fúria de Zeus, justiça ligada à medida das coisas (cultivo da terra, dívidas, sistema de medidas, a moeda). A verdade não é mais atributo divino, deve ser buscada nas coisas, a verdade de tipo saber, da memória, do exercício da soberania, características estas que adentram a época platônica e vêm até nós. A noção de nomos, regra, norma é introduzida. O criminoso passa a ser excluído da cidade, ele é impuro, é preciso saber quem ele é, ele representa perigo ao espaço do nomos, não segue as leis, é anomos, anormal. 
"Toda uma ética da verdade está em vias de se desdobrar", a figura do sábio, puro, formulador das leis, fundador do poder político torna-se proeminente, o conhecimento das leis se entrelaça com o conhecimento filosófico do mundo, nasce uma moral da virtude. Testemunhas, constatação, verdade estabelecida, distribuição do poder sobre o saber da ordem das coisas, ao qual tem acesso apenas a sabedoria.
Nesse sentido, Édipo tem a ver com o discurso verdadeiro e não com impulso universal do desejo, como interpretou Freud.
Conclusão:
No primeiro curso são dados os passos para a compreensão do uso da verdade, da anormalidade, da exclusão, da confissão, do exame, para mostrar a proveniência do discurso filosófico, político e científico. 
E eles nasceram de práticas "humildes", papel da moeda, dos ritos de purificação, do modo como se lidou com a dívida dos camponeses, lá atrás, nos séculos 6 e 5 a. C.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O primeiro curso de Foucault no Collège de France

Chama-se "Leçons sur la Volonté de Savoir", "Lições sobre a Vontade de Saber", o curso que começou no dia 09 de dezembro de 1970 e foi até 17 de março de 1971, publicado em 2011 pela Seuil/Gallimard, que eu saiba ainda sem tradução.
Nele Foucault lança as questões que o ocuparam em suas investigações históricas sobre a loucura, a prisão, a sexualidade (sim, ele já estava preocupado com estas últimas bem antes de publicar "Vigiar e Punir" e "História da Sexualidade, Vontade de Saber", note-se que a noção de vontade de saber é o tema do curso de 1971).

A própria filosofia não lhe fornece instrumento teórico para analisar a vontade de saber, os filósofos, e ele inicia com a metafísica de Aristóteles, sempre se voltaram para o conhecimento, visto como natural, faz parte da natureza humana desejar conhecer, indo da sensação até o conhecimento das causas gerais do cosmo e dos seres. Exceções são Spinoza e, principalmente, Nietzsche. Para este a vontade é o elemento decisivo na busca da verdade, a verdade e o erro, juntamente com o desejo, as lutas, as discórdias, são parte da vida, não pertencem ao conhecimento, nem requerem a unidade de um sujeito pensante e  soberano como é o caso dos filósofos de Platão, passando por Descartes, até a fenomenologia no século 20.

Importante a distinção de Foucault entre saber e conhecimento, este sendo "o sistema que permite dar uma unidade prévia, um pertencimento recíproco e uma conaturalidade ao desejo e ao saber", e "chamaremos saber o que se deve arrancar na exterioridade do conhecimento para nele encontrar o objeto de um querer, o fim de um desejo, o instrumento de uma dominação, o local de uma luta".
Assim, "Arqueologia do Saber" liga-se ao primeiro curso, que se liga às questões centrais do seu pensamento: como o discurso com pretensão científica (o da medicina, da psiquiatria, da patologia, da sociologia) se insere no sistema penal, que de prescritivo passa a ser investido por uma vontade de verdade. E essa vontade de verdade opera a distinção loucura/desrazão, possui raízes históricas, sua arbitrariedade e modificações em um série de redes institucionais, isso tudo forma um sistema que influencia outros discursos e outras práticas. 
Há relações de dominação engajadas na vontade de verdade, conhecimento surge dessa necessidade, e também saberes, disciplinas e acontecimentos. Como a epistemologia não fornece os instrumentos para essa análise, nem a história da ciência, Foucault os buscou na vontade de saber e suas relações com as formas de conhecimento, em termos teóricos e históricos, com a crucial pergunta de se a vontade de saber dispensa um sujeito fundador ou se ela o reintroduz.
Original e difícil esse caminho, não é o da história do pensamento, nem o da história da cultura, pois estes não chegam a suspeitar de que na história das sociedades, a vontade de saber se articula com processos de luta, violência e dominação. Ao invés de submeter desejo e vontade ao conhecimento, mostrar que no surgimento do conhecimento há desejo, há vontade, que não têm nada a ver com conhecimento, mas com luta, instintos, paixões.
(a ser continuado)