Mostrando postagens com marcador inferno. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador inferno. Mostrar todas as postagens

sábado, 19 de junho de 2021

Dostoievski, o que é o inferno em "Irmãos Karamazov"

 Como todos que leram a obra acima, "Irmãos Karamazov" sabem, as ideias acerca do amor, de família, de religiosidade, de prazer, de luxúria, de rivalidade, de traição e muitas outras fazem da obra um dos pontos máximos da literatura mundial. 

É uma dessas obras eternas, que tematizam o amor, traição, sofrimento, dúvidas, cinismo, fé religiosa e, principalmente o retrato de uma família despedaçada, na qual paixão, ciúme e ódio se entrelaçam.

Comecemos com uma reflexão para conduzir o que vem a seguir:

Pode-se até mesmo guardar uma lembrança emocionada da pior família, se a pessoa tem uma alma capaz de emoção. (in: Dostoievski, Les Frères Karamazov, p. 157).

Ivan, Dmitri e Aliocha são capazes de emoção sim mesmo com o pai debochado, beberrão, cujos relacionamentos com as mulheres com quem teve os filhos foi uma sequência de desmandos, de abandono. A paixão atual, uma bela e sofrida jovem, linda e sedutora, é disputada com o filho Dmitri.

O pai debochou dos religiosos e da fé sincera de seu filho mais novo em uma reunião como o místico Zozima, ao perguntar sobre o tridente do capeta, como e onde foi forjado? No próprio fogo do inferno? E como seria queimar-se nesse fogo eterno sem se consumir?

Mais adiante, uma outra visão do inferno, provavelmente a do próprio autor, na boca do ancião religioso do mosteiro, o starets: "Meus Pais, eu me pergunto: 'O que é o inferno?' Eu o defino assim: 'o sofrimento de não mais poder amar'". Mais adiante ele completa: "Fala-se do fogo do inferno em sentido literal; eu temo sondar esse mistério" e se houvessem mesmo chamas, os condenados se sentiriam bem, pois eles gozariam com o sofrimento físico...

Deixando um pouco o inferno de lado e indo para a alma humana, do que ela é capaz? De amor e de ódio, de desprendimento e de inveja/ciúme, de grandiosidade e de mesquinhez, e, principalmente em nossos dias, seria alma capaz de busca sincera para uma vida fidedigna, com abertura para o conhecimento e busca de verdade de um lado, e de outro, podendo distinguir a mentira, a falsidade, o engano e o autoengano? 

Vive-se sob pressão, o verdadeiro alcance do significado de inferno se desmancha em ameaças vociferadas por militantes religiosos. Ora, basta olhar a sua volta, o beberrão do pai Karamazov se multiplica, mas nem ele seria capaz da violência de muitos homens e maridos, a violência extrema e aquela diluída nos pequenos atos do dia a dia.

O inferno não está nos outros, como entendeu Sartre, ele está em nossa própria incapacidade de reação, de busca sincera de valores, de mente veraz e aberta.

Deveríamos buscar ser essas almas capazes de emoção e não aquelas enrustidas e incapazes de compreensão, de sair de si, de olhar em volta, de avaliar e poder decidir com autonomia e liberdade.

sábado, 26 de agosto de 2017

Eternidade ou temporalidade?

Em conversa na fila do super mercado sobre idade e velhice, um senhor disse não ter pressa, pois o aguarda a eternidade, seja no céu seja no inferno.
Como seria uma eternidade no céu dos cristãos católicos? Bem aventurança, anjos, paz celestial, sem nenhuma mudança, uma vez que eternidade pressupõe a repetição do mesmo, para sempre. Um tanto aborrecido esse celestial...
E o inferno? A eterna danação, arder sem queimar, se queimar acaba o castigo que é para o todo e sempre. Infernal demais...
Enfim, eternidade não parece favorável nem para premiar as boas almas (e o que são boas almas?) e nem para punir as más (idem).
E que dizer do paraíso muçulmano? Baús repletos de jóias, só para homens que desfrutariam para sempre de lindas donzelas ...

A imaginação, o sentimento trágico, o inconformismo com o fim da vida levam a pintar cenários onde seríamos todos imortais, mas imortalidade implica em ser, desejar, permanecer, sentir?
Claro que não, teria que haver total e completa imobilidade, um escoar sem fim, sem tempo, sem antes, durante, depois. 
Nós, humanos, que tecemos essas tramas para nelas deitarmos eternamente, somos fruto do tempo. Nossa existência humana é antes de tudo temporal. Na e pela temporalidade construímos nosso mundo, nossa cultura, nossa arte, nossas técnicas. O fazer e o pensar estão imersos no escoar do tempo. 
Não podemos sair dessa condição, porque inclusive para sair há um antes da decisão e um depois da decisão, isto é, tempo.

Pois bem, é em nome do paraíso profético dos fanáticos do Estado Islâmico que jovens se imolam para matar o maior número possível de "infiéis". Infiéis são todos que desobedecem aos preceitos corânicos, por eles mesmos interpretados, em oposição à fé pacifista da religião.
A liberdade de credo e crença é o maior mérito da cultura ocidental, junto com a tolerância e o respeito à dignidade.
Evidentemente para implantar o Estado Islâmico liberdade é impensável. Fanatizar e espalhar medo e terror são suas armas.

A reflexão, que poderia levar ao respeito mútuo inexiste; a reflexão sobre a condição humana, a de ser no tempo, necessariamente, inexiste.