sexta-feira, 27 de setembro de 2024

"Décadence sans Élégance"

 A expressão do título deveria ser decadência com elegância, é usada para se referir à decoração que apresenta estilo fora de moda, mas que atrai o olhar. É também conhecida a canção de Lobão sobre pessoas fúteis, em declínio moral, e que ainda assim, conservam certo charme.  Como seria sem elegância? 

A mais famosa filósofa brasileira, Marilena Chauí, em recente entrevista produziu celeuma, aplauso de uns, indignação de outros. Afirmou que para seu livro sobre o nascimento da Filosofia Cristã, proclamado por ela mesma como livro anticristão, não consultou nenhum autor cristão, pois eles fazem apologia do cristianismo. Seguindo essa "lógica ", nenhum marxista deveria pesquisar sobre Marx.

Em recente palestra (13 de agosto), Chauí afirmou que sente agonia quando um motorista do Uber lhe diz, "fica com Deus", e se desespera com a "irradiação" do cristianismo na sociedade. 

A teoria do Big Bang, a que ela se referiu como única explicação, e espero que não intencionalmente, como Bang Bang, excluiria e condenaria o que diz a crença religiosa cristã, de que Deus é o criador.


A grande explosão, uma teoria.

Ora, essa é uma lamentável confusão ideológica, histórica, cultural e filosófica. A ciência comprova por meio de verificação, hipóteses e teorias. Ptolomeu, Copérnico, Galileu, Heisenberg, Einstein expuseram e comprovaram suas teses,  paradigmas foram rejeitados e o atual paradigma está aberto para verificação ou falseamento.

Ao passo que religiões são questão de crença e não de comprovação. O cristianismo surgiu como movimento cultural ali pelo século 2/3 de nossa era, justamente, era cristã. A doutrina, os dogmas, ensinamentos, obrigações e deveres foram transmitidos pelos padres da igreja, por conventos, instituições doutrinais, movimentos católicos, protestantes, criação de universidades.

Regimes autoritários perseguiram e perseguem religiões. Não é o caso do Brasil nem de país algum onde há liberdade de culto. Liberdade de culto e pesquisa científica não são excludentes. Um cientista pode pesquisar, avançar em seus estudos, sem precisar abrir mão de suas crenças. 

Há autores cristãos como Étienne Gilson, com importantes estudos sobre Santo Agostinho,  Santo Tomás, São Boaventura, para citar alguns expoentes da filosofia cristã. 

Impossível negar a importância do cristianismo em toda a cultura Ocidental. Michel Foucault, um ateu, diagnosticou a herança profunda de noções que formam nosso ethos, como alma, pecado, confissão, queda, redenção, salvação, em obra publicada postumamente Confissões da Carne.                 

"Decadência sem Elegância" de uma filósofa que menospreza toda uma cultura. O ateísmo é uma postura filosófica, coerente. Mas o anticristianismo é uma postura ideológica, decadente, obscura, sem charme. 

O motorista do Uber que desejou "Fique com Deus" demonstrou respeito, educação e benevolência.


domingo, 15 de setembro de 2024

Governar com sabedoria

É possível comunicar certa ideia, certa noção, certa mensagem com o mesmo teor, mas com diferentes palavras?

Sim, essa é a magia da linguagem. É o que tentarei nesta postagem, a mensagem é exatamente a mesma da postagem anterior, mas com diferente nomenclatura, para evitar que seja "removida".

***

Vivemos em um momento de nossa história marcado  por divisão, criminalizou-se a opinião, foram criados centros que integram o combate à desinformação, a todo conteúdo que possa representar ameaça à democracia. Cuspir no chão ameaça a democracia?!

Nas democracias, a circulação livre de ideias e a tomada de posição, são sustentáculos. Em regimes autenticamente democráticos é assegurado o direito de divulgar fatos ou ações com a garantia constitucional de que possam ser analisados e abertos para a crítica e o contraditório, divulgados, seja pela imprensa, seja por redes sociais. Esse é o modo justo, sempre poder criticar, debater e conferir. Nunca banir, nem ameaçar com censura, ou censurar de fato, exigir pagamento de multa, ser banido e proibido de atuar, retirado de circulação, proibido de divulgar mensagens. O legítimo é sempre conferir, julgar com isenção, com abertura para o contraditório, ouvir as vozes de todos os envolvidos. Ora, um dos "critérios" usados nos procedimentos dos órgãos superiores é o da "gravidade", se o delito é grave ou não, a "gravidade" fica a critério do julgador. 

Essa situação faz lembrar de "O Grande Irmão", personagem icônico de George Orwell na obra de ficção "1984" publicada no longínquo ano de 1949, e que permanece atual. Para quem prefere filme à livro, "1984" está disponível no Prime, mostra o Grande Irmão em constante vigilância, nas telas aparece a mensagem/ameaça: "O Grande Irmão está te observando". Ele tem poder de banir e censurar.




Mas a censura local não prejudicou certo projeto de certo mentor, aquele trilionário, sabem qual? Não fez nem cócegas em seus projetos e recursos de alta tecnologia. Isso ficou demonstrado pelo acontecimento impressionante que se deu nesta semana (10- 14 de setembro de 2024), o retorno da SpaceX da Polaris Dawn depois de 5 dias em órbita, em missão histórica com dois tripulantes leigos em um primeiro passeio espacial particular, comercial. A Nasa disse que essa missão representou "um gigantesco salto adiante para a indústria espacial comercial" (cf. BBC). Não é segredo quem está por detrás deste empreendimento, que satélites são usados para a comunicação, qual plataforma divulgou, etc. etc.

À guisa de consolo e até mesmo de alívio, a reflexão filosófica: como governar com sabedoria e coragem e não com estultícia e covardia. O imperador Marco Aurélio, imperador romano, nasceu no ano de 121, morreu no ano de 180. Ele preconizava governar com franqueza, com abertura, descartar os que apenas lisonjeiam (na expressão popular, "puxa-sacos"), e os que lançam palavras ao vento, com efeito retórico (na expressão popular, "exibidos"). A verdade, a transparência, a simplicidade, a autenticidade, a reflexão, são valores que deveriam nortear políticos, juízes, mandatários, legisladores, valores que se acham à míngua. 

Em países ditatoriais, que censuram, perseguem e retiram o direito à palavra livre, os valores acima mencionados ficam à sombra. As caraterísticas éticas, políticas, jurídicas, próprias de regimes democráticos de direito, são violadas. Dizer a verdade, corajosamente, aos que exercem o poder seria um último e legítimo recurso. Com um obstáculo, é inviável falar para aqueles que se recusam a ouvir.

Resultado: desunião entre pessoas, famílias, e no espaço público. Desconstrução de valores, de liberdade e de representatividade.

domingo, 1 de setembro de 2024

Tudo em nome da segurança: quando o judiciário legisla e comanda

 STASI: Serviço de Segurança do Estado, espionagem da polícia secreta comunista. Alemanha Oriental até a queda do muro de Berlim.

KGB: Comitê de Segurança do Estado, antiga URSS durante a Guerra Fria, perseguiu, prendeu e matou milhões de opositores.

TSE: Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação, criada em 22 de março de 2022, Brasil.

Em comum o poder de perseguir e denunciar, condenar e enviar informações, sem que as pessoas alvo de acusação pudessem ou possam, no caso de nosso país, recorrer a um foro superior. Isso porque o próprio foro superior, quer dizer, o STF é o destinatário dessas informações, que resultam em detenção, multa, perda de cidadania, de mandato, apreensão de passaporte, exposição pública à censura.

Como noticiado fartamente pela imprensa, o solicitante, membro da corte superior, assim o demandava àquela assessoria. Seus funcionários eram (são ainda?) obrigados a extrair informação e repassar ao chefe, Alexandre de Morais, em segredo. 



O poder da toga

Atenção à nomenclatura, regimes de exceção usam de termos genéricos, ameaçadores, como se fosse uma rede de pescar. Caiu na rede, é suspeito, deve ser investigado e ter sua conta nas redes, desta vez,  sociais, censurada. Quais são esses termos? 

"Assessoria", portanto sem especificar local, quem faz parte, basta ser funcionário do TSE. Que instituição requereu sua criação, teria sido o mandatário do Supremo?

"Especial", instituída com propósito que extrapola as funções criadas com finalidade cuja necessidade é clara e legítima.

"Enfrentamento", enfrentar quer dizer não ficar parado, procura por infratores, e mais opor-se a eles, busca ativa de nomes suspeitos, onde quer que eles atuem.

"Desinformação", e nesse termo mora o perigo, o desconhecido, a terra de ninguém em que um deslize semântico, ou uma acusação comprovadamente cabível e suscetível de investigação, se confundem, se embaraçam. Desse modo, cabe atingir o inimigo da vez, declarações em jornal ou em redes sociais, com o objetivo de atingir um partido, um político proeminente, um membro da corte, são suficientes para entrar no saco de gatos da "desinformação". 

"Urnas eleitorais podem ser fraudadas" é um exemplo de desinformação? Quais seriam as medidas a serem tomadas?! Em democracias, seria verificar, expor, estar aberto ao contraditório, usar os canais públicos e legítimos de apurar o que a "desinformação" informa, afinal, o que é tachado como "desinformação" informa algo, e isso deve ser investigado seriamente, se a acusação procede. Não é necessário montar um gabinete investigatório, com dinheiro público.

***

Vivemos em um país dividido, acusações mútuas são lançadas e provocam ódio de lado a lado. As instituições públicas são usadas para insuflar ou acobertar. Houve golpe? Bastou que se interpretasse "tentativa" como fato. Fatos não interessam. Julgamento isento não interessa. 

No momento, agosto/ setembro de 2024, dois touros se enfrentam, Elon Musk e Alexandre de Morais. Suas chifradas causaram prejuízo a mais de vinte milhões de usuários do X.

As democracias são ameaçadas quando o que realmente importa, não importa mais. E podem colapsar...

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Os espíritos livres

 Os espíritos livres alçam voo sem perder a noção de chão, de realidade, pois é a realidade das situações vividas que os move.

Os espíritos suscetíveis a condicionantes, ao contrário, seguem os impulsos, as idiossincrasias, os preconceitos. Ficam presos ao chão supostamente seguro, e desse chão não se libertam, isso porque a sensação de segurança, proporcionada pelo hábito, pelo já visto e já pensado, lhes basta. Ficam satisfeitos com certa crença, credo, doutrina, líder. Importam-se mais com as opiniões e revelações de um(a) influenciador(a) do que olhar para dentro de si. Assim, seu modo de ser e de pensar se define, se solidifica.

Qual é o problema? Afinal não seria esse um modo tranquilo de viver, sem precisar de compromissos?!

Essa sensação de acomodamento, de que tudo flui e sempre para o melhor, é falsa, em geral temporária. Por isso mesmo, quando acaba a segurança do já visto e do já dito, a busca frenética por um novo território de opiniões estabelecidas e de fácil digestão é buscado e facilmente encontrado. E ali se instalam, confortavelmente.

Para os espíritos livres não há permanência, a luta é perpétua, o final é um recomeço, a coragem de enfrentar e de expandir seu horizonte, de percorrer caminhos inéditos, de empreender a mais longa e arriscada jornada não esmorece sua vontade. É que sua vontade é livre de condicionamento, de convenções e de ordens superiores. Não se deixa levar por ídolos, sejam eles midiáticos, doutrinários ou ideológicos.


A determinação solitária da sherpa que escalou o Everest (documentário na Netflix)


Sua marca é a busca da criatividade, tal como se ele fosse seu próprio artesão, o construtor de seus valores, de suas metas, de seus ideais. A autodeterminação os move, as escolhas são deliberadas, e isso não os impede de respeitar e procurar entender aqueles que seguem lideranças e convenções cegamente. Deles se afasta com cuidado, pois sabe que contra a cegueira, a escravidão e o aprisionamento às receitas e a insegurança que a necessidade de afirmação produz, de nada valem os argumentos.

Há os que se arrogam serem livres, mas estes "gostariam de perseguir com todas as suas forças é a universal felicidade do rebanho em pasto verde, com segurança, ausência de periculosidade, comodidade, facilitação da vida para todos; (...) os que abrem o olho perguntam como a planta "homem" cresceu mais vigorosamente, foi sob condições adversas (...) em nossa mais profunda solidão, tal espécie de homens somos nós, os espíritos livres" (Nietzsche).




domingo, 4 de agosto de 2024

A intolerância religiosa

Famoso escritor de origem indiana, educado e estabelecido em Londres, com 76 anos, sofreu um ataque quase mortal a facadas, no estado de Nova York, em 12 de agosto de 2022.

Trata-se de Salman Rushdie. Autor de 17 romances, entre eles aquele que provocou o ataque, Versos Satânicos, com paródias que levaram a sua condenação pelo líder iraniano, Khomeini, por injúria e difamação ao islamismo. Durante anos ele precisou se proteger. Mudou-se para Nova York, casou-se com a poetisa Eliza Griffiths, passou a levar vida tranquila. Aceitou o convite para uma palestra em Chautauqua (estado de NY). Mal começou seu discurso quando avistou alguém correndo em sua direção, recebeu 17 facadas, tentou se defender, levou facada na mão (que ficou comprometida) e uma delas perfurou sua vista direita.




Foi salvo como que por milagre, disseram os cirurgiões. Muitos meses de recuperação, com a presença constante e o cuidado extremo de sua mulher, passou a escrever Knife, Meditations After an Attempted Murder (Faca, Meditações após uma Tentativa de Assassinato), publicado neste ano, 2024, com tradução por editora portuguesa.

Além da detalhada descrição de seu sofrimento e lenta recuperação, mostrou como é ficar diante de alguém que te esfaqueia até a morte, ver a morte de bem perto. E perguntar-se, como é possível que um jovem criado nos EUA, decide décadas depois de sua condenação (absurda, diga-se), armar-se e desferir um golpe após o outro?

O jovem recusou-se a encontrar-se na prisão com o escritor. Salman então imaginou um diálogo com o rapaz, e esse diálogo gira em torno ao absurdo de uma religião, de uma crença, condenar à morte alguém que escreve romances, isto é, literatura, e literatura faz pensar, faz imaginar! A ficção lança na realidade como que uma luz, que leva a novos caminhos, nova compreensão do que nos sujeita, da condição humana, de nossos desejos e do sentido de nossas vidas.

Salman Rushdie é ateu, o que à primeira vista choca, causa incompreensão e indignação. "Não preciso de fé religiosa para me ajudar a compreender e lidar com o mundo" (p. 182), escreveu ele. A meu ver, o ateísmo pertence ao âmbito filosófico, e não, como é comum se pensar, uma questão antirreligiosa. Por isso mesmo, não se trata de um ateísmo combatente, e sim de um ateísmo resultado de muita reflexão em torno à crença de que um ser é o responsável por tudo o que há, e que Deus é tudo, tudo sabe, e está em tudo o que existe, (p. 148) como pensaria o seu agressor. Que responde ser o Deus muçulmano diferente de Deus do judaísmo, de Deus cristão criador do homem a sua imagem e semelhança. Os muçulmanos não consideram assim Deus. Como Deus, então, se comunicou no livro sagrado do islamismo, indaga o escritor no diálogo imaginário com seu quase assassino.

Na segunda parte desse diálogo improvável, o escritor considera se os dois anos de doutrinação no Líbano produziram na cabeça do jovem dar-se por missão assassinar o autor "maldito", e ser merecedor do gozo eterno...

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A ausência de razão, o obscurantismo, o fanatismo, a doutrinação, conduziram o perpetrador, um jovem que poderia ter um futuro, e que hoje é prisioneiro no cárcere e prisioneiro na mente, na crença, na obstinação.

Religiões são questão de fé, de apaziguamento, de tranquilidade do espírito, de irmandade. É absurdo que uma crença leve à brutalidade, matar alguém por suas ideias, seus valores, é condenar os homens ao inferno na terra.

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PS.: quanto ao mérito literário de Rushdie, li apenas "Victory City", seu último romance. Não está entre os meus preferidos... Mas esta é outra questão.


segunda-feira, 1 de julho de 2024

Foucault no sufoco

Em reportagem da Gazeta do Povo, 06/06/2024, James B. Meigs critica os rumos da revista "Scientific American", por descuidar e desprezar a ciência e a pesquisa científica, devido às tendências do politicamente correto, e um dos fatores seria a influência de Foucault, que "argumentou que a objetividade científica é uma ilusão produzida e moldada pelos 'sistemas de poder' da sociedade".

Foucault mal sobrevive espremido entre essa avaliação deturpada da direita e o enaltecimento da esquerda como revolucionário, de que é preciso fazer o "desmonte" das prisões e do Estado. Ora, nem um nem outro. Foucault estudou os discursos que são práticas com efeitos nos sistemas de saber e de poder, mas a ciência comprova, verifica seus enunciados. Ele jamais afirmou que não há objetividade científica e nem que prisões devem ser eliminadas. 

Quanto às prisões, resultaram de um novo modo de punir por meio de um tipo de poder e de saber que, desde o século 18, disciplina, reparte, isola, vigia. Há uma interdependência entre a polícia, os delinquentes e todo um maquinário médico e jurídico, mecanismos e estratégias do sistema prisional.


1926-1984
Foucault marxista, pensador de esquerda?!

Marx seduz pelo seu discurso profético, promessa redentora para os explorados. Foucault é um conhecedor do marxismo, o Marx que o partido comunista diz que deve ser usado, esse tipo de exigência é ideológico, a noção de poder fica fechada em uma teoria política. Ao passo que para Foucault, houve uma mudança no modo como o poder é exercido, por exemplo, sobre os corpos com efeitos sobre saúde, surgimento de academias, produção de beleza, preocupação com a saúde infantil. Ao mesmo tempo, esse corpo saudável e consumidor se liberta contra normas morais da sexualidade. Difere da análise marxista do corpo atado à fábrica, poder repressor que a revolução comunista libertará. 

Foucault vê outro lado, a constituição de regras, normas, discursos, separação entre normal e anormal.

 Quanto à ciência, ela é produzida em e por sociedades cujos mecanismos de poder mudam, por exemplo, a relação entre a biologia e a agricultura. Mas isso não significa que comprovação e cálculos, que retificações e experimentos, sejam diretamente dependentes e sujeitados aos mecanismos de poder, sejam eles do Estado ou da sociedade disciplinar, como afirmou sem nenhum fundamento James Meigs.

O filósofo não é pedagogo, não é profeta, não é legislador. Ele elucida, mostra estratégias de resistência ao tipo de poder que normaliza, não se o poder é legítimo ou ilegítimo, se a questão é moral ou de direito. 

O que é essencial em nosso cotidiano? Lidar com a morte, a doença, a penalidade, a prisão, o crime, tudo o que toca a afetividade, a vida e nos angustia. O que podemos mudar, como resistir, e isso não é questão de tomada de poder, nem de revolução.

Pense: por que razões a prisão, tão criticada prevalece? Então você terá um retrato de nosso tipo de sociedade. Outra pergunta: como nos tornamos indivíduos que são instados a dizer o seu íntimo, por quais mecanismos de saúde e de educação nossa subjetividade se constituiu?

Para finalizar, Foucault foi um crítico do partido comunista, monolítico e burocrático, nas palavras dele (cf. p. 614, vol. III, Dits et Écrits). Para não dizer violento, com líderes capazes de envenenar opositores...

O título de uma de suas numerosas entrevistas fala por si (p. 595, vol. III de Dits et Écrits): "Metodologia para o conhecimento do mundo: como se livrar do marxismo".

Conclusão: sejamos inconformistas!














domingo, 23 de junho de 2024

Corpo+alma+automóvel

 Refletir sobre o automóvel?! Sim, pois de certa forma, carros se tornaram parte integrante da vida e das necessidades das pessoas. Passei algumas semanas em casa de minha filha, em Columbus (Ohio, EUA), e o que vi supera em larga medida a extensão do uso do carro para todas as atividades. As distâncias são grandes, de modo geral o trânsito flui, os estacionamentos são enormes, alguns a perder de vista. É o caso do Jardim Zoológico, vi um único ônibus, nenhum de turismo, o acesso, portanto, depende exclusivamente de a pessoa possuir seu carro. Mais de um em geral. Parece que os seres humanos se compõem de corpo, alma e automóvel...

 A peculiaridade é ver-se pouca gente nas ruas caminhando, com exceção dos parques que são muitos, novamente, com acesso apenas por meio do automóvel. Na biblioteca é possível devolver livros sem sair do carro. Foram os americanos que instituíram o drive-thru,  come-se dentro de seu veículo, sem tocar os pés no chão. Com as quantidades gigantes de comida, os atacadões, a consequência desses hábitos de consumo e de locomoção, cresce a olhos vistos o sobrepeso das pessoas. Triste de ver... Tendência essa que existe mesmo aqui no Brasil, infelizmente.

Claro que isso muda na costa leste, Nova York, e, evidentemente nas grandes cidades servidas por metrô.

Pois bem, isso é tudo? Não, é apenas um lado do modo americano de viver. Que dizer do outro lado?

Antes, uma ressalva importante: há que se distanciar do culto ao "american way of life", o americanismo, digamos assim, e distanciar-se igualmente do antiamericanismo produzido pela ideologia desgastada e esquelética que a esquerda ignorantemente impõe. E isso para enxergar e avaliar o outro lado, e esse lado brilha, chega a ofuscar o que acima descrevemos.

Desde o século 19, universidades e centros de pesquisa produzem conhecimento técnico e científico. Ciência, ciência aplicada, alto nível de educação, excelência em ensino superior, inúmeros cientistas laureados com prêmio Nobel de Física e Química. A ilustração acima é do COSI, museu de Columbus que reúne ciência, indústria, experiências, e, ao mesmo tempo interação e divertimento.

E mais, o avanço em tecnologia. E isso em uma das mais importantes e influentes democracias, com incomparável apreço pela liberdade e pela autodeterminação, pelos direitos humanos. Há uma luta  que não cessa e expõe as feridas sem tergiversar de um anacrônico preconceito racial.

E além disso, literatura, música, entretenimento, cinema. Há décadas a indústria cinematográfica produz o que há de melhor em filmes, mas, claro, muita mediocridade. Não há censura e nem medo de sofrer crítica. Jazz, rock, e mesmo música clássica, inspiram e divertem gerações. 

Goste ou não, mas sempre com um olhar crítico, com erros e acertos, os Estados Unidos são o país mais influente do mundo. Ainda...