Não poderia deixar de apoiar as corajosas manifestações de rua destas últimas semanas. Junho de 2013 é um marco. Muito já se disse e com propriedade por jornalistas e pelo público em geral. Chegou a vez dos governantes.
Mas o pacote de Dilma não passa de engodo, de tentativa de defesa ao se ver acuada, sua popularidade descendo, o risco de não se reeleger.
Manifestantes voltarão para suas casas, seus locais de estudo ou trabalho, e não deixarão de se conectar, de prestar atenção aos próximos acontecimentos e de responder com novas manifestações.
A pergunta que não quer calar:
Se a presidente tem maioria ampla no Congresso, por que as necessárias reformas não saem nunca?
Porque o próprio governo criou um esquema do toma lá, dá cá. Interesses eleitoreiros se sobrepõem às necessidades do povo brasileiro.
Por medo do clamor, um pequeno grupo de estrategistas do governo se reuniu em busca de uma fórmula, mais uma, de enganar, de ganhar tempo e de apostar no arrefecimento dos ânimos. A fórmula, mais uma vez, é um pacote de intenções que silencia sobre o modo como serão aplicadas e se de fato significam melhoria para as condições de vida dos brasileiros.
Exemplo: aplicar royalties da exploração do petróleo para a educação. A qualidade do ensino não melhora automaticamente com mais verba. É preciso saber como e no que aplicar. A formação de professores comprometidos com a educação não é algo que se mede com mais computadores, construção de salas de aula, laboratórios, bibliotecas, transporte escolar entre outras medidas com visibilidade.
Formar professores e tornar a escola proveitosa e interessante leva tempo e requer compromisso, disposição, mudança. O aluno no ensino médio se desinteressa por conteúdos com fórmulas e mais fórmulas! Elas servem para que?
Não há professores suficientes para atuar nas disciplinas de Física, Química e Matemática. Sem uma revisão crítica na qual se deve dar atenção ao sentido e ao papel dessas disciplinas tanto na vida escolar como no futuro profissional dos jovens, o abandono da sala de aula só aumentará. E esse é só um dos problemas da escola e da educação no Brasil.
E o mesmo acontece com cada uma das medidas do pacote anunciado ontem, dia 24 de junho.
A governante fez vista grossa, Lula foi participante do esquema do mensalão e agora os mesmos vêm a público com cara de inocentes!
Restam instrumentos da democracia para derrotar governos corruptos, incompetentes e exploradores da boa vontade dos brasileiros.
As eleições de 2014 se aproximam, é preciso escolher bem!
terça-feira, 25 de junho de 2013
segunda-feira, 17 de junho de 2013
As críticas do ceticismo e do pragmatismo ao idealismo
Quantos "ismos"! Em filosofia é assim mesmo, as oposições teóricas decorrem de princípios, de fundamentos e de conceitos.
Tanto o ceticismo antigo, moderado ou radical, como o ceticismo moderno partem do princípio de que as dúvidas do sujeito e as aparências e instabilidade dos objetos impossibilitam certificar-se de que o conhecimento leve à verdade e que a realidade assegure tal verdade e certeza. A realidade pode confundir, as situações mudam constantemente, e nossa compreensão e acesso ao que nos cerca varia de pessoa a pessoa, de lugar a lugar e, hoje diríamos, de cultura a cultura.
O fundamento do cético é o de que não há fundamento algum, e esse paradoxo não pode ser resolvido, pois seria preciso sair do estado de dúvida e assim estabelecer um fundamento e isso é impossível. O ceticismo quanto a ideias puras e conceitos a priori decorre da própria experiência que mostra sempre novas facetas, que crenças antigas são reveladas falsas, que há mudanças e evolução na ciência, nos valores, nas representações sociais. "Por experiência, diz Montaigne, se sabe que a multiplicidade de interpretações dissipa e quebra a verdade", nunca se julgará a mesma coisa de modo análogo e não há duas opiniões semelhantes sequer na mesma pessoa, completa esse pensador cético em Ensaios (1571).
O ponto de partida do pragmatismo, escola norte-americana que tem em W. James e J. Dewey seus principais representantes (século XX), é a ação humana transformadora. A verdade precisa ter serventia, uma utilidade, um uso. O princípio de causalidade que para Kant é uma das bases do conhecimento, para o pragmatismo não passa de um modo de lidar com as coisas, de experimentar e de poder empregar nosso conhecimento. Ideal e real não são categorias puras, são recursos inteligentes para transformar a natureza, para construir não mundos platônicos ideais e superiores, que transcendem e são inalcançáveis. Construções ideais são projetos que podem melhorar a vida, mas que precisam ser factíveis. Que os homens possam nelas habitar.
Os conceitos do pragmatismo são os de ação e reconstrução. A possibilidade de reconstruir, de refazer fica em aberto dando a chance permanente para a mudança. Esta não segue a direção da história idealizada por Hegel, por exemplo, pois os caminhos se multiplicam e podem ser mudados de acordo com as necessidades de um povo, de um país. Como? pode ser por meio de uma constituição, da eleição de bons governantes, mas o meio principal para Dewey é a educação em aliança com a democracia.
Tanto o ceticismo antigo, moderado ou radical, como o ceticismo moderno partem do princípio de que as dúvidas do sujeito e as aparências e instabilidade dos objetos impossibilitam certificar-se de que o conhecimento leve à verdade e que a realidade assegure tal verdade e certeza. A realidade pode confundir, as situações mudam constantemente, e nossa compreensão e acesso ao que nos cerca varia de pessoa a pessoa, de lugar a lugar e, hoje diríamos, de cultura a cultura.
O fundamento do cético é o de que não há fundamento algum, e esse paradoxo não pode ser resolvido, pois seria preciso sair do estado de dúvida e assim estabelecer um fundamento e isso é impossível. O ceticismo quanto a ideias puras e conceitos a priori decorre da própria experiência que mostra sempre novas facetas, que crenças antigas são reveladas falsas, que há mudanças e evolução na ciência, nos valores, nas representações sociais. "Por experiência, diz Montaigne, se sabe que a multiplicidade de interpretações dissipa e quebra a verdade", nunca se julgará a mesma coisa de modo análogo e não há duas opiniões semelhantes sequer na mesma pessoa, completa esse pensador cético em Ensaios (1571).
Michel de Montaigne (1533-1592)
O conceito de conjectura e o de dúvida permeiam o pensamento cético, podemos conjecturar, mas nunca saber nada com certeza. Esse enunciado faz sentido: se tivéssemos tanta certeza por meio de sensações e de ideias, veríamos o mundo como os primeiros cosmólogos o viram e o interpretaram...O ponto de partida do pragmatismo, escola norte-americana que tem em W. James e J. Dewey seus principais representantes (século XX), é a ação humana transformadora. A verdade precisa ter serventia, uma utilidade, um uso. O princípio de causalidade que para Kant é uma das bases do conhecimento, para o pragmatismo não passa de um modo de lidar com as coisas, de experimentar e de poder empregar nosso conhecimento. Ideal e real não são categorias puras, são recursos inteligentes para transformar a natureza, para construir não mundos platônicos ideais e superiores, que transcendem e são inalcançáveis. Construções ideais são projetos que podem melhorar a vida, mas que precisam ser factíveis. Que os homens possam nelas habitar.
Os conceitos do pragmatismo são os de ação e reconstrução. A possibilidade de reconstruir, de refazer fica em aberto dando a chance permanente para a mudança. Esta não segue a direção da história idealizada por Hegel, por exemplo, pois os caminhos se multiplicam e podem ser mudados de acordo com as necessidades de um povo, de um país. Como? pode ser por meio de uma constituição, da eleição de bons governantes, mas o meio principal para Dewey é a educação em aliança com a democracia.
John Dewey (1859-1952)
Finalmente, a crítica do materialismo ao idealismo. Princípio: não há espírito nem divino e nem de um povo, há matéria produzida pelo trabalho humano. Conceito principal: conhecimento se baseia em dados coletados pelas ciências (história, antropologia, física, economia). O fundamento teórico é de que teoria e prática se completam. Conhecer para transformar é seu moto, ele parece com o do pragmatismo, mas seu viés é político e ideológico. A meta é a revolução do proletariado, a conquista do trabalhador do produto de seu trabalho, a propriedade dos meios de produção distribuída entre todos de modo igualitário. Esse materialismo marxista, se revela no fundo um projeto de revolução social e econômica; um materialismo baseado, paradoxalmente, em ideias de luta social, na pressuposição de que na sociedade ideal as classes sociais desapareceriam.
Karl Marx (1818-1883)
Algumas conclusões: convém duvidar quando for o caso, pesquisar sempre, buscar as mudanças e transformações que sirvam para a melhoria da situação humana.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
O que é realismo? O que é empirismo?
O realismo toma por base, como o nome indica, a realidade das coisas tais como elas se apresentam, os objetos como origem de todo conhecimento, aquilo com que nos defrontamos é aquilo que conhecemos, impossível iludir-se ou enganar-se quanto a isso. A realidade não é uma construção do sujeito.
Por essas razões, os realistas criticam o idealismo filosófico. Para que multiplicar entidades em um mundo platônico ideal, pergunta Aristóteles. A essência dos seres reside em sua individualidade, em sua especificidade. Todo ser possui uma essência que o caracteriza e o distingue, e acidentes, isto é, o modo como se apresentam, seu estado, seu lugar, seu tempo.
O realismo vem até a filosofia atual. Moore é um dos principais representantes. Ele argumenta ser impossível negar que "Isso é uma mão" se refere realmente à mão da pessoa; essa constatação é também a base para um juízo verdadeiro sobre a realidade.
A corrente do empirismo é inglesa, surge no século XVII. John Locke era médico, e a ciência o ensinou que a experiência é o ponto de partida e a finalidade de toda atividade do pensamento, que as ideias provêm todas das sensações por meio das quais nossa capacidade intelectual surge e se desenvolve. A mente é vazia até o contato com o mundo, depois vêm as ideias, a imaginação, a memória, há o papel da linguagem na transmissão e conservação do pensamento. Todos os princípios e máximas morais são produto da cultura e não inerentes ou inatos. Podemos aprender sempre, é pelo uso da razão que crianças aprendem, mas esse uso depende inicialmente das sensações, e estas levam à reflexão. Nada há a priori na mente, nenhuma forma, nenhum princípio transcendental. Digamos que tudo está por fazer, tudo depende da capacidade humana de experimentar, de explorar. As ideias e a consciência delas são operações produzidas pelo próprio indivíduo.
Como saber que o pão alimenta ou que a água afoga quem não sabe nadar? Sabemos disso pela experiência, responde Hume (empirista inglês, século XVIII).
Esses argumentos pretendem "derrotar" todo tipo de idealismo, e também o racionalismo francês de Descartes.
Um parêntese: interessante que hoje há um retorno às concepções de estilo cartesiano, a bagagem inata prepondera sobre a adquirida, o cérebro/mente carrega grande parte de nossas capacidades, o código genético coordena nossa vida física e mental, decretam filósofos como Pinker.
Críticos do realismo, o consideram ingênuo. O que se vê, o chamado real, requer contato, descrição, interação, objetivos. As coisas não estão ali, pura e simplesmente. Situações reais e corriqueiras, quando transpostas para a literatura, para o cinema, por exemplo, assumem outro tipo de realidade, a ficcional. O objeto visto pela lente de um fotógrafo se transforma. Se torna outro tipo de objeto. E que dizer de sonhos, ilusões, desejos, o inconsciente?
Wittgenstein considera que as situações de nossas formas de vida são tão diversas e variadas, que ver a mão, como no exemplo de Moore, e com base nessa constatação achar que o real produz certeza, são aspectos, possibilidades. Que sentido faz dizer "Isso é uma mão" ? Pode ser, por exemplo, a resposta de um paciente a um médico que avalia seu estado de consciência, ou alguém mostrando a uma criança o desenho de uma mão. Depende das circunstâncias. Achar-se diante de uma árvore e constatá-la não assegura que todo conhecimento assim começa; "isso é uma árvore" pode ser a avaliação de um botânico. Em nossa lida com o mundo, observações desse tipo fazem sentido dependendo do contexto de uso. Como saber se não é resposta a uma objeção? Ser real ou não é o que menos importa. Importam aspectos relevantes para aquela situação. Falantes trocam ideias, informações, levam em conta os propósitos de um e outro, entre muitas outras possibilidades.
Críticos do empirismo, em geral kantianos, acham que sem aparatos racionais para ordenar as experiências, estas só nos confundiriam. Sem princípios universais e atemporais para avaliar e validar as experiências, estas se multiplicariam em vão.
E o que diz o senso comum? Que pão é pão, que pedra é pedra... Filósofos justamente discutem isso.
Pergunte você também: o que é real?
Por essas razões, os realistas criticam o idealismo filosófico. Para que multiplicar entidades em um mundo platônico ideal, pergunta Aristóteles. A essência dos seres reside em sua individualidade, em sua especificidade. Todo ser possui uma essência que o caracteriza e o distingue, e acidentes, isto é, o modo como se apresentam, seu estado, seu lugar, seu tempo.
O realismo vem até a filosofia atual. Moore é um dos principais representantes. Ele argumenta ser impossível negar que "Isso é uma mão" se refere realmente à mão da pessoa; essa constatação é também a base para um juízo verdadeiro sobre a realidade.
A corrente do empirismo é inglesa, surge no século XVII. John Locke era médico, e a ciência o ensinou que a experiência é o ponto de partida e a finalidade de toda atividade do pensamento, que as ideias provêm todas das sensações por meio das quais nossa capacidade intelectual surge e se desenvolve. A mente é vazia até o contato com o mundo, depois vêm as ideias, a imaginação, a memória, há o papel da linguagem na transmissão e conservação do pensamento. Todos os princípios e máximas morais são produto da cultura e não inerentes ou inatos. Podemos aprender sempre, é pelo uso da razão que crianças aprendem, mas esse uso depende inicialmente das sensações, e estas levam à reflexão. Nada há a priori na mente, nenhuma forma, nenhum princípio transcendental. Digamos que tudo está por fazer, tudo depende da capacidade humana de experimentar, de explorar. As ideias e a consciência delas são operações produzidas pelo próprio indivíduo.
Como saber que o pão alimenta ou que a água afoga quem não sabe nadar? Sabemos disso pela experiência, responde Hume (empirista inglês, século XVIII).
Esses argumentos pretendem "derrotar" todo tipo de idealismo, e também o racionalismo francês de Descartes.
Um parêntese: interessante que hoje há um retorno às concepções de estilo cartesiano, a bagagem inata prepondera sobre a adquirida, o cérebro/mente carrega grande parte de nossas capacidades, o código genético coordena nossa vida física e mental, decretam filósofos como Pinker.
Críticos do realismo, o consideram ingênuo. O que se vê, o chamado real, requer contato, descrição, interação, objetivos. As coisas não estão ali, pura e simplesmente. Situações reais e corriqueiras, quando transpostas para a literatura, para o cinema, por exemplo, assumem outro tipo de realidade, a ficcional. O objeto visto pela lente de um fotógrafo se transforma. Se torna outro tipo de objeto. E que dizer de sonhos, ilusões, desejos, o inconsciente?
Wittgenstein considera que as situações de nossas formas de vida são tão diversas e variadas, que ver a mão, como no exemplo de Moore, e com base nessa constatação achar que o real produz certeza, são aspectos, possibilidades. Que sentido faz dizer "Isso é uma mão" ? Pode ser, por exemplo, a resposta de um paciente a um médico que avalia seu estado de consciência, ou alguém mostrando a uma criança o desenho de uma mão. Depende das circunstâncias. Achar-se diante de uma árvore e constatá-la não assegura que todo conhecimento assim começa; "isso é uma árvore" pode ser a avaliação de um botânico. Em nossa lida com o mundo, observações desse tipo fazem sentido dependendo do contexto de uso. Como saber se não é resposta a uma objeção? Ser real ou não é o que menos importa. Importam aspectos relevantes para aquela situação. Falantes trocam ideias, informações, levam em conta os propósitos de um e outro, entre muitas outras possibilidades.
Críticos do empirismo, em geral kantianos, acham que sem aparatos racionais para ordenar as experiências, estas só nos confundiriam. Sem princípios universais e atemporais para avaliar e validar as experiências, estas se multiplicariam em vão.
E o que diz o senso comum? Que pão é pão, que pedra é pedra... Filósofos justamente discutem isso.
Pergunte você também: o que é real?
domingo, 26 de maio de 2013
O que é idealismo?
O sentido habitual em que se emprega o termo "idealismo" remete à busca de condições ótimas para realizar um projeto de vida considerado o melhor possível. Quando se diz que uma pessoa tem um ideal, significa que ela pretende atingir esse objetivo, mesmo que difícil, até mesmo próximo de um sonho impossível.
O sentido filosófico do termo remete a ideia, isto é, o pensável, portanto, oposto a real, a material, a sensível.
Platão foi o primeiro filósofo idealista. Os seres reais, sensíveis e materiais podem ser destruídos, se decompõem e essas mudanças impedem que se chegue à pureza da essência, à permanência, àquilo que nossa alma inteligível, e apenas ela tem acesso. Mas como são as ideias, quer dizer, de que elas são feitas, qual é seu ser, como podem elas existirem se são ideias?
São concebíveis pelo intelecto, em um mundo à parte, o mundo inteligível. Sem ideia de cada coisa seria impossível o saber, a própria filosofia. Sem ideias os seres não passariam de um emaranhado tosco, impossível pensar, conhecer e, portanto, comunicar. O sensível é cópia do inteligível, mas o comum das pessoas se engana, toma aquilo que vê e sente como ser verdadeiro, quando não passa de sombra do mundo das ideias: "os que contemplam a essência imortal das coisas têm conhecimento nítido e não opiniões", escreveu Platão.
O sentido filosófico do termo remete a ideia, isto é, o pensável, portanto, oposto a real, a material, a sensível.
Platão foi o primeiro filósofo idealista. Os seres reais, sensíveis e materiais podem ser destruídos, se decompõem e essas mudanças impedem que se chegue à pureza da essência, à permanência, àquilo que nossa alma inteligível, e apenas ela tem acesso. Mas como são as ideias, quer dizer, de que elas são feitas, qual é seu ser, como podem elas existirem se são ideias?
São concebíveis pelo intelecto, em um mundo à parte, o mundo inteligível. Sem ideia de cada coisa seria impossível o saber, a própria filosofia. Sem ideias os seres não passariam de um emaranhado tosco, impossível pensar, conhecer e, portanto, comunicar. O sensível é cópia do inteligível, mas o comum das pessoas se engana, toma aquilo que vê e sente como ser verdadeiro, quando não passa de sombra do mundo das ideias: "os que contemplam a essência imortal das coisas têm conhecimento nítido e não opiniões", escreveu Platão.
Platão celebrou a Verdade, o Bem e o Belo
Do século IV a. C. vamos a Kant (1724-1804), cujo idealismo é transcendental. Enquanto o mundo perfeito platônico é transcendente, acima do sensível, apenas inteligível - para Kant o inteligível depende do sensível. Sem o material da sensibilidade organizado por meio de sua obrigatória inserção no tempo e no espaço, o conhecimento seria vazio. Tempo e espaço formatam o material sensível a fim de poder representá-lo, pois de outro modo seria caótico. As categorias e conceitos do entendimento são o nível seguinte, permitem formular juízos. Todo ser humano é dotado dessa capacidade ou dessas propriedades formais de sua subjetividade e isso não é algo pessoal nem sentimental, não pertence à nossa vida prática, território da moralidade. Pertence ao entendimento puro e a priori, quer dizer, os objetos que se conhece passam por um tipo de regulação para representar todos os fenômenos, dentro dos limites da razão pura. Ao contrário de Platão, é impossível chegar ao ser em si ideal, nossa capacidade de conhecer depende do que é concebível, e o concebível depende de formas, de regras, de leis como o princípio de causalidade. "O pensamento é o conhecimento mediante conceitos", diz Kant, e "transcendental" é o conhecimento que "não se ocupa tanto com objetos, mas de nosso modo de conhecer objetos na medida em que este deve ser possível a priori".
Kant celebrou a razão
O idealismo de Hegel (1770-1831) é objetivo. As ideias não estão no mundo inteligível de Platão, nem no modo como as conhecemos, na pureza da razão kantiana. Elas foram forjadas pela história. Sem as transformações a que estão sujeitas por meio da cultura, do espírito humano em suas obras (arte, filosofia, religião), não haveria ideias nem humanidade, não haveriam os resultados da ação do espírito encarnado em realizações, não haveria sequer sentido (entenda-se por "sentido" tanto as significações da linguagem como caminho, rumo, progressão). O evoluir dialético das ideias culmina no Espírito Absoluto, sua realização nesse itinerário da consciência: a realidade do mundo humano é feita de saber, há lógica e saber em todas as obras humanas, desde a cultura antiga, passando pelo cristianismo até a conciliação do espírito consigo mesmo com a liberdade outorgada a todos nos Estados constitucionais modernos.
Hegel celebrou a cultura
As críticas a esses pensadores idealistas vieram do realismo, do ceticismo, do materialismo e de pragmatismo. Ficam para próximo (s) post (s).
terça-feira, 14 de maio de 2013
As críticas de Habermas ao marxismo
O método dialético de Hegel foi aplicado por Marx à história dos modos de produção, que foram: escravagista, asiático, feudal, mercantilista, até chegar ao capitalismo. Essas transformações ocorreram pelo esgotamento do modelo, as contradições a eles inerentes levariam aos chamados "saltos de qualidade". Para o marxismo, isso significa que o capitalismo, tal como os anteriores, contém nele mesmo contradições que são o germe de sua própria destruição. Marx se referia ao capitalismo que nascera em sua época, o século 19.
As condições do capitalismo e da classe dos trabalhadores eram aviltantes. A solução seria uma revolução, uma classe revolucionária conduziria a mudança para o socialismo, e futuramente o comunismo com a abolição da propriedade privada dos meios de produção.
Alguns países passaram por essa revolução com alto custo, perda de vidas, de liberdade, de representação social e política. E outras mudanças viriam: crise financeira (1919), duas guerras mundiais, a explosão da bomba atômica, a guerra fria, a descolonização da África; e, na segunda metade Europa e EUA expandiram a indústria com sofisticação crescente da tecnologia. As revoltas operárias e a revolução comunista ficaram para trás, o muro de Berlim caiu, a China ressurgiu como segunda potência mundial. A pobreza, principalmente no hemisfério sul não cedeu, pelo contrário. Esses países passaram a depender do mundo desenvolvido, o qual passa por nova crise financeira.
O que aconteceu com a revolução dos trabalhadores, com a revolução comunista? Cada vez mais restritas às bandeiras de esquerda em alguns poucos países. E ainda persistente no discurso acadêmico, no Brasil apadrinhada pelo discurso pedagógico, pela cartilha do MST, presente nos livros didáticos de história que insistem em ideologizar. Sintomático que esse discurso tenha desaparecido da CUT e do PT tão logo o partido assumiu o governo. Há uma evidente incompatibilidade entre governar e levar a sério as lições do marxismo.
"Hoje em dia, escreveu Habermas, certamente o portador de uma transformação, à qual Marx deu tanta ênfase, não é mais a burguesia de 1848, nem determinada classe social que domina o quadro nacional, mas um sistema econômico anônimo que opera em nível mundial e que não está ligado a estruturas de classes identificáveis facilmente" (Diagnósticos do Tempo, p. 137).
Ao se comparar a situação de operários de Manchester na Inglaterra do século 19, a exploração e o sofrimento deles nos primórdios do capitalismo com as condições atuais, notam-se inúmeras transformações. Entre elas a aplicação mais equânime da justiça, condições melhores de trabalho e outros tipos de reivindicação: no lugar de uma revolução socialista, acesso aos bens de consumo, conforto, saúde, escolas de qualidade e gratuitas para os filhos, melhor salário, participação nos lucros das empresas, habitação digna, transporte, e mesmo lazer. É verdade que grande parte da população mundial não tem acesso a esses bens e a condições mínimas de sobrevivência. Expandir a riqueza e ao mesmo tempo distribuí-la cabe a governos e não a banqueiros ou financistas! Isso ficou evidente com a crise desencadeada em 2008 pelo capitalismo financeiro e pela ganância, o lucro alto, imediato e fácil. No lugar de "dissolver" o capitalismo (ele é dissolúvel?!), a questão tem sido até que ponto o Estado e governos devem e podem intervir na economia de um país.
Para refletir: a ideologia marxista, a pregação de uma revolução de classe, a própria noção de classe social, esconde modificações históricas sistematicamente ignoradas. O que é exatamente "ter consciência de classe"? Se as representações sociais fossem influenciadas por essa consciência, como poderia surgir no seio da sociedade de classes, a classe revolucionária? A consciência revolucionária teria que nascer fora da própria sociedade. E mais: os países socialistas foram forjados por uma classe revolucionária? O que aconteceu quando essa classe assumiu o poder na ex-URSS, na China, em Cuba?
A esquerda marxista "tem um conceito estreito de práxis", diz Habermas. Se a prática social se limitasse às relações econômicas de produção, a vida em sociedade seria pautada apenas pelo mercado. Por mais poder que este tenha, há o outro lado, outros tipos de práticas sociais. As sociedades modernas asseguram direitos e deveres de cidadãos, as obrigações valem para todos; o racismo passou a ser crime; surgiram novas representações políticas. As demandas são pelo acesso à educação e à informação, a valorização da produção cultural, das artes; as reivindicações das minorias; a liberdade de credo e culto. Nada disso pode ser reduzido à "consciência de classe".
E mais, os aspectos de realização pessoal, a busca por uma vida satisfatória e plena, a ética em nossas ações. Nada disso lembra ou depende da práxis de uma classe revolucionária.
As condições do capitalismo e da classe dos trabalhadores eram aviltantes. A solução seria uma revolução, uma classe revolucionária conduziria a mudança para o socialismo, e futuramente o comunismo com a abolição da propriedade privada dos meios de produção.
Alguns países passaram por essa revolução com alto custo, perda de vidas, de liberdade, de representação social e política. E outras mudanças viriam: crise financeira (1919), duas guerras mundiais, a explosão da bomba atômica, a guerra fria, a descolonização da África; e, na segunda metade Europa e EUA expandiram a indústria com sofisticação crescente da tecnologia. As revoltas operárias e a revolução comunista ficaram para trás, o muro de Berlim caiu, a China ressurgiu como segunda potência mundial. A pobreza, principalmente no hemisfério sul não cedeu, pelo contrário. Esses países passaram a depender do mundo desenvolvido, o qual passa por nova crise financeira.
O que aconteceu com a revolução dos trabalhadores, com a revolução comunista? Cada vez mais restritas às bandeiras de esquerda em alguns poucos países. E ainda persistente no discurso acadêmico, no Brasil apadrinhada pelo discurso pedagógico, pela cartilha do MST, presente nos livros didáticos de história que insistem em ideologizar. Sintomático que esse discurso tenha desaparecido da CUT e do PT tão logo o partido assumiu o governo. Há uma evidente incompatibilidade entre governar e levar a sério as lições do marxismo.
"Hoje em dia, escreveu Habermas, certamente o portador de uma transformação, à qual Marx deu tanta ênfase, não é mais a burguesia de 1848, nem determinada classe social que domina o quadro nacional, mas um sistema econômico anônimo que opera em nível mundial e que não está ligado a estruturas de classes identificáveis facilmente" (Diagnósticos do Tempo, p. 137).
Ao se comparar a situação de operários de Manchester na Inglaterra do século 19, a exploração e o sofrimento deles nos primórdios do capitalismo com as condições atuais, notam-se inúmeras transformações. Entre elas a aplicação mais equânime da justiça, condições melhores de trabalho e outros tipos de reivindicação: no lugar de uma revolução socialista, acesso aos bens de consumo, conforto, saúde, escolas de qualidade e gratuitas para os filhos, melhor salário, participação nos lucros das empresas, habitação digna, transporte, e mesmo lazer. É verdade que grande parte da população mundial não tem acesso a esses bens e a condições mínimas de sobrevivência. Expandir a riqueza e ao mesmo tempo distribuí-la cabe a governos e não a banqueiros ou financistas! Isso ficou evidente com a crise desencadeada em 2008 pelo capitalismo financeiro e pela ganância, o lucro alto, imediato e fácil. No lugar de "dissolver" o capitalismo (ele é dissolúvel?!), a questão tem sido até que ponto o Estado e governos devem e podem intervir na economia de um país.
Para refletir: a ideologia marxista, a pregação de uma revolução de classe, a própria noção de classe social, esconde modificações históricas sistematicamente ignoradas. O que é exatamente "ter consciência de classe"? Se as representações sociais fossem influenciadas por essa consciência, como poderia surgir no seio da sociedade de classes, a classe revolucionária? A consciência revolucionária teria que nascer fora da própria sociedade. E mais: os países socialistas foram forjados por uma classe revolucionária? O que aconteceu quando essa classe assumiu o poder na ex-URSS, na China, em Cuba?
A esquerda marxista "tem um conceito estreito de práxis", diz Habermas. Se a prática social se limitasse às relações econômicas de produção, a vida em sociedade seria pautada apenas pelo mercado. Por mais poder que este tenha, há o outro lado, outros tipos de práticas sociais. As sociedades modernas asseguram direitos e deveres de cidadãos, as obrigações valem para todos; o racismo passou a ser crime; surgiram novas representações políticas. As demandas são pelo acesso à educação e à informação, a valorização da produção cultural, das artes; as reivindicações das minorias; a liberdade de credo e culto. Nada disso pode ser reduzido à "consciência de classe".
E mais, os aspectos de realização pessoal, a busca por uma vida satisfatória e plena, a ética em nossas ações. Nada disso lembra ou depende da práxis de uma classe revolucionária.
sábado, 4 de maio de 2013
O que Foucault diria sobre o casamento gay?
É provável que ele seria contra o casamento gay, mas evidentemente que não pelas razões do pastor Feliciano!
O pastor se baseia em um credo pentecostal que condena o homossexualismo. Inclusive, pasmem, a última proposta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias é excluir do código dos profissionais de psicologia cláusulas sobre o homossexualismo. Uma dessas cláusulas diz que não se trata de doença, portanto, longe de precisar de cura. Isso foi um grande avanço, significa respeito pela pessoa, justamente o que a Comissão de Direitos joga no lixo.
Pois bem, poderia então Foucault ser contra o casamento gay, como estamos especulando?
Sim, em nome da liberdade de optar por estilos de vida alternativos, por políticas de afirmação não do sexo, nem da sexualidade, e sim de viver com mais liberdade, estilos de vida em que importam mais o prazer, a amizade, as relações afetivas, do que analisar que tipo de desejo seria esse ou institucionalizar a relação.
A avaliação moral, médica, jurídica ainda é responsável pelo exame, pelo escrutínio desse "tipo de vida". O homossexual tem sido condenado por credos, e até mesmo por leis, seu comportamento é condenável pela moral burguesa, execrado pelo moralismo de certas religiões, perseguido e exposto à violência de fanáticos. Ele ainda é classificado como se classificam doenças e animais...
Sendo assim, o casamento gay realmente levaria a superar ou pelo menos enfrentar todos esses problemas? Dificilmente.
Casamento é uma instituição, ele surge com o que Foucault chamou de "dispositivo de aliança". A família moderna ainda sustenta esse dispositivo, que cerca de cuidado seus membros e restringe o sexo ao leito conjugal, à procriação.
Ou seja, casar implica em institucionalizar uma relação que, segundo Foucault deveria representar, pelo contrário, certa rebeldia, até mesmo beirar certo anarquismo. "Segundo Paul Veyne, nos últimos meses de vida Foucault costumava conversar sobre essas estilizações da vida, esses trabalhos de si para consigo mesmo para constituir um eu fora dos modelos e dos códigos impostos" (ARAÚJO, 2008, p. 179).
Assim, o argumento de que o casamento gay confere direitos como herança, igualdade, reconhecimento social, etc., não seria ceder à uma pressão da sociedade? Talvez Foucault respondesse afirmativamente.
O pastor se baseia em um credo pentecostal que condena o homossexualismo. Inclusive, pasmem, a última proposta da Comissão de Direitos Humanos e Minorias é excluir do código dos profissionais de psicologia cláusulas sobre o homossexualismo. Uma dessas cláusulas diz que não se trata de doença, portanto, longe de precisar de cura. Isso foi um grande avanço, significa respeito pela pessoa, justamente o que a Comissão de Direitos joga no lixo.
Deputado da discriminação de minoria na Comissão de Direitos Humanos e de Minorias, mais um subproduto gerado no Congresso Nacional
Voltando a Foucault, o filósofo da história da sexualidade, o filósofo que enfrentou pessoalmente preconceito por ser gay, morreu com aids, a chamada "doença gay" na década de 80; o filósofo que denunciou a violência dos hospitais psiquiátricos e da prisão; o filósofo que destrinchou o poder do saber médico, psiquiátrico, psicológico com seus "tratamentos"; o filósofo que viu nesses discursos, práticas e políticas das quais nasce um tipo de subjetividade passível de correção, de disciplina, de normalização, de punição; o filósofo que viu na sexualidade não uma pulsão reprimida (como em geral a vê a psicanálise), mas sim resultado de dispositivos para encaixar desejos, comportamentos, prazeres, em um esquema de verdade; o filósofo para o qual a verdade não é a descoberta de fatos, a verdade é constituída por discursos, por normas, por práticas do cotidiano; a verdade também se instala mesmo em instituições, como o hospital psiquiátrico, justamente o caso do homossexualismo tratado e tratável por ser doença (física, mental, psíquica!?), e mesmo aberração. Enfim, Foucault foi um dos primeiros e principais pensadores a defender publicamente a causa gay.
Foucault (1926-1984) em seu gabinete de trabalho
Pois bem, poderia então Foucault ser contra o casamento gay, como estamos especulando?
Sim, em nome da liberdade de optar por estilos de vida alternativos, por políticas de afirmação não do sexo, nem da sexualidade, e sim de viver com mais liberdade, estilos de vida em que importam mais o prazer, a amizade, as relações afetivas, do que analisar que tipo de desejo seria esse ou institucionalizar a relação.
A avaliação moral, médica, jurídica ainda é responsável pelo exame, pelo escrutínio desse "tipo de vida". O homossexual tem sido condenado por credos, e até mesmo por leis, seu comportamento é condenável pela moral burguesa, execrado pelo moralismo de certas religiões, perseguido e exposto à violência de fanáticos. Ele ainda é classificado como se classificam doenças e animais...
Sendo assim, o casamento gay realmente levaria a superar ou pelo menos enfrentar todos esses problemas? Dificilmente.
Casamento é uma instituição, ele surge com o que Foucault chamou de "dispositivo de aliança". A família moderna ainda sustenta esse dispositivo, que cerca de cuidado seus membros e restringe o sexo ao leito conjugal, à procriação.
Ou seja, casar implica em institucionalizar uma relação que, segundo Foucault deveria representar, pelo contrário, certa rebeldia, até mesmo beirar certo anarquismo. "Segundo Paul Veyne, nos últimos meses de vida Foucault costumava conversar sobre essas estilizações da vida, esses trabalhos de si para consigo mesmo para constituir um eu fora dos modelos e dos códigos impostos" (ARAÚJO, 2008, p. 179).
Assim, o argumento de que o casamento gay confere direitos como herança, igualdade, reconhecimento social, etc., não seria ceder à uma pressão da sociedade? Talvez Foucault respondesse afirmativamente.
domingo, 14 de abril de 2013
Hegel e a dialética
Hegel é considerado um dos filósofos mais "difíceis" de toda a história da filosofia, como disse em postagem anterior. Ele não faz concessões, não há nenhuma tentativa de ser claro (como Descartes preconizava) e nem de dialogar ou de ensinar (como Sócrates e Platão).
Pode-se dizer, inclusive, que Hegel já não é mais o filósofo preferido, como há algumas décadas, para ser o intérprete de toda a história da filosofia. Lia-se Hegel, em especial o jovem Hegel, a fim de melhor compreender Marx. Resultado: não se compreendia nem um nem outro.
Vejamos algumas facetas do pensamento de Hegel, o que vale a pena resgatar para a história da filosofia.
Importância da história: todas as contribuições culturais, como arte, filosofia e religião, são o estofo de que a razão se vale para caminhar e, ao mesmo tempo, superar ideias e conceitos. Desde as experiências com o material sensível, até o mundo inteligível de conceitos cada vez mais precisos, o pensamento se realiza. Para se realizar, ele precisa do discurso, da linguagem, que possibilitam determinações, isto é, dizer o que são as coisas e como elas são. As significações.
Uma nova ontologia: como e o que as coisas são? Impossível determiná-las sem, ao mesmo tempo, determinar o que elas não são. Ser e não ser se determinam reciprocamente. O senso comum não percebe que todo ser é o que é, por não ser outro. É assim que todos os seres se transformam, assim se modificam as ideias e os projetos. Essas passagens ou mudanças constituem o vir a ser, o devir. Esse movimento de conservação do ser, de negação e de ultrapassagem é o que Hegel chama de dialética.
A natureza, os seres e a história vivem desse movimento. Esse movimento é direcional, progressivo, tem em vista um fim (teleológico). As realizações das obras humanas aprimoram certas ideias, certos ideais. O mais precioso é o ideal da liberdade, da conciliação da ideia de sociedade com a plena realização do racional.Um otimismo, portanto. Para Hegel, há luz no fim do túnel e essa luz é plena, é o absoluto, é a conciliação final de todas as dificuldades, de todas as contradições.
O idealismo objetivo: ideias e conceitos não são abstração vazia. Eles se concretizam em autores, livros, no variado discurso humano. Mas não de forma solta, há uma lógica interna, uma lógica com três momentos, todos eles necessários (afirmação, negação e síntese). Entre pensamento e ser não há um abismo. Ser externo ao pensamento e ser pensado se conciliam. Quando alguém emite um juízo, afirma que algo é assim, mas pode também corrigir, confrontar ideia e realidade. Por isso o idealismo é objetivo. É com relação à realidade objetiva (desaparece a dificuldade que Kant tinha com o ser em si, para ele inatingível) que ideias, conceitos e o pensamento se formam. Não há um vazio entre a representação e o representado.
Apenas a força ou fraqueza humana, as quais, aliás, nada garantem.
A lógica do devir precisa do jogo entre ser e nada. E se desse jogo nada surgir? Ou se ele surpreender?
Em nome da liberdade e do ideal a história tem sido, pelo contrário, de luta, transgressão, anomias.
Se a lógica dialética fosse inevitável, bastaria embarcar nela e nos deixar levar. Ora, isso anularia a propalada liberdade. Logo, a concepção de dialética hegeliana.
Pode-se dizer, inclusive, que Hegel já não é mais o filósofo preferido, como há algumas décadas, para ser o intérprete de toda a história da filosofia. Lia-se Hegel, em especial o jovem Hegel, a fim de melhor compreender Marx. Resultado: não se compreendia nem um nem outro.
Vejamos algumas facetas do pensamento de Hegel, o que vale a pena resgatar para a história da filosofia.
Importância da história: todas as contribuições culturais, como arte, filosofia e religião, são o estofo de que a razão se vale para caminhar e, ao mesmo tempo, superar ideias e conceitos. Desde as experiências com o material sensível, até o mundo inteligível de conceitos cada vez mais precisos, o pensamento se realiza. Para se realizar, ele precisa do discurso, da linguagem, que possibilitam determinações, isto é, dizer o que são as coisas e como elas são. As significações.
Uma nova ontologia: como e o que as coisas são? Impossível determiná-las sem, ao mesmo tempo, determinar o que elas não são. Ser e não ser se determinam reciprocamente. O senso comum não percebe que todo ser é o que é, por não ser outro. É assim que todos os seres se transformam, assim se modificam as ideias e os projetos. Essas passagens ou mudanças constituem o vir a ser, o devir. Esse movimento de conservação do ser, de negação e de ultrapassagem é o que Hegel chama de dialética.
A natureza, os seres e a história vivem desse movimento. Esse movimento é direcional, progressivo, tem em vista um fim (teleológico). As realizações das obras humanas aprimoram certas ideias, certos ideais. O mais precioso é o ideal da liberdade, da conciliação da ideia de sociedade com a plena realização do racional.Um otimismo, portanto. Para Hegel, há luz no fim do túnel e essa luz é plena, é o absoluto, é a conciliação final de todas as dificuldades, de todas as contradições.
O idealismo objetivo: ideias e conceitos não são abstração vazia. Eles se concretizam em autores, livros, no variado discurso humano. Mas não de forma solta, há uma lógica interna, uma lógica com três momentos, todos eles necessários (afirmação, negação e síntese). Entre pensamento e ser não há um abismo. Ser externo ao pensamento e ser pensado se conciliam. Quando alguém emite um juízo, afirma que algo é assim, mas pode também corrigir, confrontar ideia e realidade. Por isso o idealismo é objetivo. É com relação à realidade objetiva (desaparece a dificuldade que Kant tinha com o ser em si, para ele inatingível) que ideias, conceitos e o pensamento se formam. Não há um vazio entre a representação e o representado.
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Perguntas e dúvidas surgem. Ao mesmo tempo em que Hegel enfatizou a história, ele a fechou em um movimento ascendente, com etapas obrigatórias e com um fim/finalidade. O que garante que haverá essa progressão em termos de liberdade e de realização?Apenas a força ou fraqueza humana, as quais, aliás, nada garantem.
A lógica do devir precisa do jogo entre ser e nada. E se desse jogo nada surgir? Ou se ele surpreender?
Em nome da liberdade e do ideal a história tem sido, pelo contrário, de luta, transgressão, anomias.
Se a lógica dialética fosse inevitável, bastaria embarcar nela e nos deixar levar. Ora, isso anularia a propalada liberdade. Logo, a concepção de dialética hegeliana.
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