segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Fanáticos são um perigo para a democracia

 Para constar: um dia histórico pelo avesso da história, a da vergonha e desonra do país. A depredação do Palácio do Planalto, do Congresso e do STF será um dia marcado pelo obscurantismo, pela quebra da segurança, pela omissão, e, principalmente pelo fanatismo, como já escrevi neste blog.

O fanatismo é cego, irresponsável, mas tem um lado ainda mais perigoso, a sua tenacidade, a sua esperteza para insuflar e retirar-se de cena assim que for conveniente. Como agora é conveniente que o chefe esteja em seu retiro covarde, refestelado em Miami.

E os asseclas a convocar e pagar para o gado miúdo ficar exposto e ser eventualmente punido em seu lugar? 

Como é possível haver regozijo e gritos de vitória na invasão e depredação de bens públicos, de prédios que simbolizam valores e instituições?!

                                              

                                    Terrorismo, dia 08 de janeiro de 2023

Isso só foi possível porque responsáveis fizeram uma retirada estratégica, deixaram que o circo pegasse fogo e lavaram as mãos.

Entre os terroristas presos, havia pessoas que foram pagas, que foram aliciadas cujos rostos assustados eram visíveis nos ônibus que as conduziram às delegacias. Pode acontecer de os verdadeiros mandantes que, evidentemente, tinham por objetivo causar o maior dano e abrir a passagem para uma eventual tomada de poder pelas mãos dos militares, que estes escapem. Pior, prossigam com as notícias falsas e apelo aos quartéis.

Sim, a democracia esteve em perigo. É preciso firmeza, investigação e, mais do que nunca, que o novo governo, que o novo governante assuma a responsabilidade de governar para todos. Que deixe de lado comparações com a esquerda, como fez Lula. Não cabe neste momento nenhuma comparação, é um momento de ação, de firmeza, de esclarecimento e de punição.

O ódio, o desprezo, o fanatismo, a violência devem ser expostos, documentados, que os infiltrados sejam interrogados, fichados. A pergunta deveria ser: você que arrebentou, que destruiu, ensinaria o mesmo aos seus filhos, aos seus netos? 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

O discurso de Lula sobre a desigualdade

 A visível emoção de Lula ao ressaltar as condições de desigualdade social e econômica foi um discurso demagógico, ele fez proselitismo?   

                                        


Seria mesmo inevitável esse tipo de apelo em seu discurso de posse, era mesmo isso que se esperava de um futuro governante preocupado com as condições de desigualdade em nosso país? Sim.

E por quais razões? A principal delas é a razão salvacionista. Todos fizeram errado, desde o descobrimento, e a prova são as condições de extrema pobreza e de extrema riqueza, muitos famintos e pouquíssimos frequentando restaurantes luxuosos; o pescador em sua canoa e o milionário em seu iate; as crianças nas escolas caindo aos pedaços e as crianças nas caras escolas particulares, e eu poderia ficar aqui tecendo as inúmeras condições desses polos que dividem a sociedade.

As causas da má distribuição de renda são históricas, culturais, sociais e econômicas. A má administração dos impostos, a dificuldade de adaptar e melhorar os mesmos, a corrupção, a inércia das prefeituras, o apadrinhamento político, a falta de iniciativa para encaminhar os problemas sociais, que sequer são diagnosticados, tudo contribui para a citada e tão propalada desigualdade. A que tipo de desigualdade Lula apelou? Para a econômica e social. 

Mas não haveria uma desigualdade mais aguda, mais profunda e que é relegada a segundo plano?

Sim, a da educação, da falta de saneamento, a precária saúde básica, e o pior, a falta de estudos, de diagnóstico acerca das dificuldades e de oportunidades de cada município. Os interesses políticos ficam em primeiro plano, idem as disputas, a farsa ideológica, e o puro e simples descaso.

Esse é um lado da moeda, o citado no discurso de Lula. Acontece que faltou ver o outro lado da moeda, o da impossibilidade de instituir a igualdade. Igualdade não se institui porque ela passa necessariamente pela liberdade de escolha, e esta liberdade de escolha é institucional, constitucional, jurídica, pessoal. Ditaduras, oligarquias, sociedades totalitárias, impõem ou uma absoluta desigualdade que submete todos ao pensamento único, ou uma absoluta igualdade que fere a liberdade, a iniciativa, e que transforma a população em um imenso exército obediente ao chefe.

As democracias modernas, constitucionais, legítimas prezam tanto a igualdade quanto a liberdade. Se a liberdade preponderar, o vale tudo prevalecerá. Se a igualdade preponderar, o pensamento único prevalecerá.

O difícil equilíbrio se dá com respeito às leis legitimamente instituídas, com a livre iniciativa baseada em princípios e regras que são transparentes e eficazes, com a base social educada justamente por um eficiente ensino básico, com as condições de saúde que permitem às crianças frequentar e usufruir do que as escolas devem proporcionar. E esses são deveres do Estado.

Então, não me convencem as comparações da desigualdade elencadas por Lula. Ninguém precisará chorar porque há escolas particulares de excelente qualidade e caras, sim muito caras. É preciso chorar porque o ensino público é ruim, precário, ineficiente.

O discurso foi sim, demagógico, Lula fez sim proselitismo.


quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

Plenitude existencial

 Há momentos de satisfação e de contentamento, em geral porque alguma expectativa ou projeto deu certo, ou porque encontramos a solução para um problema, ou tivemos um encontro feliz e inesperado, entre muitas outras situações.

Mas a plenitude existencial é mais rara, não  é fugaz, não deve servir como moeda de troca, não é disponível como um produto, não está à mão, nem sempre é compartilhável, não se confunde com uma sensação de estar alegre e mesmo feliz. Em suma, não se preenche, pois tudo aquilo que se preenche pode ou será esvaziado mais cedo ou mais tarde.

A plenitude existencial é incompatível com a soberba dos que se consideram superiores a todos e a tudo, até mesmo com relação à natureza e às regras mais básicas de convívio; incompatível com o orgulho daqueles que jamais se voltam para si e reconhecem seus erros; com a insegurança que paralisa decisões; com a irresponsabilidade que delega aos outros ou ao acaso ações que deveria assumir. 

A fraqueza moral, a falta de coragem e de respeito provocam cegueira existencial que é justamente o oposto da plenitude existencial.

A plenitude existencial é uma atitude muito mais do que um sentimento. Uma atitude diante da vida e do mistério da vida, portanto, do mistério de ser, de existir e de não mais existir. Sim, justamente a morte, o não mais ser, o fim inevitável, inescapável, a consciência aberta, a mala pronta para sua partida agem como um alerta. O que não significa ater-se à morte, pois essa atitude imobiliza a ação, a responsabilização de que falávamos acima, trata-se de um negativismo doentio.

Então, que atitudes conduzem à plenitude? Pleno não significa saturado, cheio e sim satisfeito. Estar e ser aqui e agora, saber-se si mesmo, contentar-se com o simples fato de viver, de olhar, de contemplar por instantes os movimentos, as cores, parar e prestar atenção a sons, sentir-se íntegro com seu corpo, aquietar-se e entender o sentido que tudo tem para você. Assim refletir: isso basta...

E para tal não é preciso um guia, um mestre que diga a você o que pensar e fazer. Ser dono de sua decisões, poder encontrar-se e refugiar-se em si, mas não como se isso fosse uma prisão. Não somos prisioneiros de nós mesmos, cabe a cada um procurar sua própria libertação, e assim experimentar o sublime, acessar o inacessível, ir além, alçar voo e depois pousar,  repousar, tranquilamente.

É impossível alcançar o sublime e o inacessível enquanto a alma pertencer a si mesma: é preciso que ela se desvie de seu caminho habitual, se liberte; e que, mordendo o freio, arrebate seu cavaleiro e o faça subir a alturas onde jamais ele se arriscaria por si mesmo.

Sêneca in: "Da Tranquilidade da Alma"

PS: vale ouvir "Força Estranha" com a Gal Costa, letra e música inspiradoras.                           

                                              


                                                                      1945-2022                       

terça-feira, 15 de novembro de 2022

O livre pensar é mesmo ilimitado?

 O tema do momento é o do título, o pensar livre, ou, como nos debates atuais, a "liberdade de expressão". Há algum tempo atrás dava para abordar o tema de forma leve e irônica com a frase de Millôr Fernandes: "Livre pensar é só pensar".

Entre pensar e expressar vai uma enorme distância que apenas o uso da linguagem transpõe. E esse uso varia conforme o lugar, público ou privado; a situação, que acarrete ou não consequências e responsabilização; o meio, redes sociais ou canais jurídicos. 

Num bar entre amigos, você pode dizer o que bem entende? Evidente que não! No espaço de lazer e prazer, também há limites, por exemplo, a ofensa, a calúnia, a ambiguidade, ou o inverso, a deslavada bajulação, o fingimento. E tudo pode acabar em tapinhas nas costas ou brigas...

O mesmo ocorre nos grupos familiares. Convívio, amizade, troca de experiências, afeto que podem desandar a depender de uma questão mal resolvida, de segredos que vêm à tona.

O momento político e social trouxe para o campo jurídico a decisão do que é livre pensar, do que é liberdade de expressão. No centro disso, as redes sociais e as notícias fabricadas com explícita intenção de prejudicar, de atingir a honra, de manipular fatos, de tecer intrigas, de deixar no ar suspeitas, de forjar acontecimentos. 

E para onde essa rede de mentiras pretende levar, o que ela dissemina, o que ela cria? A aceitação sem verificar fontes de uma parcela enorme do público, as redes criam verdade, produzem guerra de informação e contra informação, vale tudo. 

A consequência mais polêmica foram as sucessivas tomadas de decisão por parte dos tribunais superiores, que se deram a missão de punir os disseminadores de notícias falsas, e de roldão punir conforme o que os próprios juízes decidem que seja prejudicial ou inverídico no tocante às eleições presidenciais deste ano. Isso é chamado de "arbítrio".

Certa ou não, uma decisão judicial tem o mérito ou demérito implícito. Cumpra-se.

                                                    ***

Acho que há um outro lado, digamos, filosófico e ético. Refletir, lado filosófico; o reto agir, lado ético. 

Do lado filosófico, o livre pensar só é possível por meio da linguagem. Então, é limitado por ela. Basta uma simples observação: "O que você quis dizer com isso?" É a linguagem usada para esclarecer a própria linguagem. E a resposta é um ato de fala, que esclarece, que compromete, que possibilita o diálogo.

Por isso mesmo a linguagem, ao responsabilizar o dito e aquele que diz, entra no terreno ético. "Eu afirmo tal ou tal coisa, sim, e me comprometo com a veracidade do que eu estou dizendo".

Ora, nenhum destes aspectos, o do dizer verdadeiro e autêntico, o do dizer responsável e comprometido valem no território político e dos influenciadores, nem nas decisões supostamente corretas de cortes de justiça. 

Como ficamos, então? Mal, muito mal, tanto pelas notícias fabricadas como pelo seu controle pelos meios jurídicos.


terça-feira, 1 de novembro de 2022

Guerra de ideologias

 Nada chama mais a atenção nos dias de hoje, não que isso seja unicamente questão da atualidade, o jogo das ideologias. Esquerda e extrema esquerda, direita e extrema direita se digladiam. Por que é impossível, ao menos de um ponto de vista filosófico sustentar uma ou outra posição?

Ideologia significa conjunto de ideias que são defendidas sem respaldo filosófico e nem científico. Seu respaldo é social e político. Ora, para haver fundamentação é preciso que um tipo de razão, de argumentação, de raciocínio, de análise pelo qual certa ideologia deveria ou poderia ser sustentada. Ou que a ideologia passasse por prova, experiência, que a corrobore ou que a falseie.

Então qual é a força que move uma ideologia? Se é um conjunto de ideias, valores, posições políticas, propostas partidárias, a base não é a da argumentação, e sim a da valoração de um conjunto de posições,  de preferências que impulsionam a ação política. A política por sua vez, é a trama da cidade, da polis, do poder. A modernidade (a qual nem todas as nações ou países alcançaram) é caracterizada principalmente pela liberdade de pensamento e de ação, pela responsabilidade cívica, pela representação legítima de seus cidadãos, pela independência e atuação dos poderes de legislar, de governar e jurídico, sob certa constituição, ela igualmente legítima. 

É neste âmbito social e político que as ideologias atuam. Partidos políticos com expressão, certamente não os nascidos de interesse pessoal ou para simplesmente acomodar grupos e personalidades, aqueles partidos têm um fundo ideológico. De que natureza é esse fundo? Ele se caracteriza por ser pró ou contra, por exemplo, ao papel do Estado, ao direito à propriedade, à preservação da natureza, à liberdade de expressão, à saúde pública, e outros tantos direitos e deveres. 

Mas, ao se defrontarem com a realidade social e econômica, as ideologias travam. Alguns exemplos: sistema bancário, indústrias de grande porte, mobilidade social, meios e sistemas de transporte, conservação de rodovias, implantação de parques, manutenção de museus e prédios públicos. Em nenhum deles há ou deve haver preferência ideológica. 

Já na educação, na arte, nos símbolos há escolhas, há valores e portanto, algum tipo de infiltração ideológica ou de postura explicitamente ideológica. Até que ponto as ideologias mascaram, até que ponto influenciam, até que ponto vale a pena lutar por certa ideologia?

Impossível responder devido à própria natureza das ideologias. Elas são máscaras que, de tão coladas impedem todo e qualquer juízo de realidade. Indefensáveis à luz da razão argumentativa, porém capazes de fanatizar, de cegar.  Véus de ilusão... 

 

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Sociedade esfacelada

 Habermas entende que as sociedades modernas se compõe de duas faces, uma formada e dirigida pela ação comunicativa e a outra formada e dirigida pela ação estratégica.

A ação comunicativa é a que sustenta o mundo da vida, o qual por sua vez se forma com o tripé: sociedade propriamente dita, cultura e personalidade. A ação estratégica sustenta o sistema, formado pelas relações econômicas que visam objetivos de ganho, de sucesso,  a lida com ocorrências, o controle da natureza. São ações que em geral não  requerem interação subjetiva.

Na ação comunicativa os atos de fala, a interação social, a possibilidade de validar o que se afirma, de sustentar valores, de respeito, ética, educação, cultura são permeados pela linguagem, pelos processos de entendimento, pelo diálogo argumentativo.

A modernidade se caracteriza pela progressiva "invasão" dos sistemas econômicos no mundo da vida. Os meios de comunicação se valem cada vez menos da ação mediada pela linguagem, a sociedade sofre um processo de instrumentalização que penetra a vida pessoal, a educação, os valores, a cultura e a ética. 

Nas sociedades modernas a comunicação fica crivada de mensagens da propaganda, com o uso massivo da capacidade de influenciar, de inventar verdades, de falsificar, de deslegitimar, de uso abusivo do poder em todas as esferas. Daí o titulo desta postagem, a sociedade esfacelada.

A distinção entre a ação validável, o saber compartilhado, os ordenamentos de valor, a formação da personalidade entraram no jogo do poder político e do poder econômico. Evidente que estes são parte necessária e fundante da sociedade. O problema, segundo Habermas, com o qual eu concordo, é que o mundo da vida (sociedade, cultura e personalidade) foi colonizado, foi cooptado pelo sistema político e econômico.

A modernização implica a expansão dos processos econômicos e administrativos, mas o que assistimos é a expansão e por vezes o aniquilamento da crítica, da fundamentação e busca de razões, do lema kantiano do esclarecimento, da responsabilização. O resultado é o uso do direito para coagir, a ética é neutralizada, quem se mostra mais e melhor nas redes sociais se impõe e impõe prestígio, e tudo e todos são vendáveis.

Esse é o quadro triste e caótico das eleições presidenciais de 2022, um Brasil polarizado, amedrontado, ameaçado de um lado e de outro. Na balança o voto que se mostre o mais responsável possível. 

Creio que a sociedade brasileira irá resistir às chantagens, às mistificações, às palavras de ordem da esquerda exacerbada e da direita desfocada.


sábado, 1 de outubro de 2022

O fanatismo X engajamento

 O fanatismo cega, distorce, adota o pensamento único, desinforma, visa a adesão sem possibilidade de contestação, de ouvir os outros lados, de respeitar o contraditório. A enorme diversidade de crenças, de posições políticas e partidárias se resumem a um só caminho, eu nem diria caminho pois o fanático não anda, não olha para o lado, acredita que a sua seita é a verdadeira, como se seita e verdade estivessem do mesmo lado.

O fanatismo mata, dias atrás matou uma jovem iraniana que se recusou a usar o véu. E esse é mais um dos problemas que mostra a gravidade do sectarismo: o seguidor deve ser fiel aos símbolos, à letra da doutrina se for uma religião, às obrigações e imposições, sem possibilidade de contestar pois o risco vai de uma expulsão até o castigo físico e moral. 

Os fanáticos tratam os outros como impostores, como infiéis, como inimigos. Se apegam a um livro considerado sagrado cujos "ensinamentos" devem ser lidos ao pé da letra. O que implica em negar toda e qualquer possibilidade de interpretação. Ora, entender, significar, interpretar e contextualizar formam a base racional, intelectual, mental da vida humana em sociedade. 

Esse obscurecimento da razão é que leva às perseguições, ao racismo, à violência, à violação dos princípios morais. São princípios inerentes à liberdade, ao direito à informação fidedigna, à formação educacional, ao direito de ir e vir. Como é possível explicar que sejam espalhadas notícias falsas, fabricadas com a intenção de ludibriar, de atacar? A explicação para quem está do lado racional é uma só, fanatismo, terror, miséria moral.  

O fanático segue seita, já o engajado segue ideias, propostas, causas. O engajado luta por suas ideias que são permeáveis, no sentido de serem comunicáveis, quer dizer, podem e devem ser contestadas ou validadas. O fanático não se comunica, ele se impõe e impõe regras, ele vocifera palavras de ordem.

O engajado discute com base em argumentos retirados da experiência, de visões de mundo, de um aprendizado cujas fontes foram a educação refletida, com valores, com princípios. E isso nada tem de burguês, de privilegiado, de elite. Educar e ser educado é um direito em sociedades abertas. O engajamento requer sociedades abertas, que respeitem direitos, aliás, que tenham estabelecidos esses direitos.

O engajado é livre, pois suas ideias e propostas nasceram da argumentação, do conhecimento, da participação.

O fanático é escravo de suas paixões, não pensa, só reage.

Problema: como enfrentar um fanático se ele se recusa a pensar?!