quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Política revolucionária X política autoritária, a trajetória do PT

Para uma melhor compreensão de um dos mais representativos fatos políticos da atualidade brasileira, o julgamento da compra e venda de votos de parlamentares no primeiro governo Lula, uma breve incursão na ideologia político-partidária do PT é esclarecedora.
A oposição ao regime militar fez surgir uma oposição combativa e corajosa. Um dos marcos foi a arregimentação, após a ditadura militar, de um partido de esquerda, socialista, surgido da militância de sindicatos e de intelectuais, com destaque para professores universitários.
Proclamava-se a esperança em um governo eleito, não por meio de revolução proletária, mas de instituições democráticas como via para o socialismo. Esse governo deveria levar a uma mudança radical, afinal socialismo é a repartição social igualitária de todos os bens produzidos. Deveria redimir a pobreza, aplicar a justiça social na cidade e no campo. A produção de riqueza viria da industrialização com base em crescimento de recursos internos. E, entre os mais radicais ou talvez mais ingênuos, a crença de que combater e mesmo eliminar o capitalismo, seria a redenção do povo brasileiro.
Com base nessas crenças e lutas, firmou-se certo autoritarismo, quem está do nosso lado, está no lado da verdade e do bem. Os outros, presume-se, estão errados e serão um dia vencidos. Ora, sem a pressuposição de que há diversidade ideológica, de que em uma democracia vozes diferentes e diversas expressões devem e podem coexistir, isso tudo gera intolerância
Aos poucos, e depois da vitória de Lula para o seu primeiro mandato, os motivos ideológicos acima descritos passaram por uma mudança inesperada. Um choque de realidade. Como de fato governar? Sem capitalismo, sem produção com lucro, sem investimento externo? Sem FHC, Banco Mundial e FMI surgiria o melhor dos mundos? Declarar a moratória?
Nada disso: para governar é preciso administrar a sociedade, a economia real (e do real, nossa moeda); há uma constituição a ser respeitada, cidadãos com direitos e deveres; também há três poderes, legítimos e independentes.
Praça dos Três Poderes - Brasília
Seguiram-se ações governamentais ancoradas na realidade econômica, projetos de mudança foram implementados, com ganhos visíveis. O malfadado capitalismo não pôde ser eliminado...
Mas havia ainda outro projeto ou estratégia: o que fazer para permanecer no poder? Além de planejar para bem governar e alcançar as metas de redução da pobreza e da enorme diferença social, do gritante déficit educacional, do sofrimento com doenças,projetos legítimos, alguns deles alcançados -, seria preciso também ganhar o total apoio do Congresso.
Nascia a ideia de compra de votos. Afinal parlamentares são corruptíveis, não é mesmo? Toma lá, dá cá, na surdina. Até que alguém dá com a língua nos dentes. 
Entretanto, o governo Lula seguiu, firme, forte e confiante, caiu um aqui, (Dirceu) outro ali (Genoino). Julgamento pelo Supremo Tribunal Federal? Adia-se, quando chegar a hora, contrata-se advogados, afinal o PT e seus membros acusados podem pagar, regiamente! Tinham, além disso, costas quentes, o próprio Lula. 
Imprevisto: passados 7 anos, juízes examinam o processo vindo da procuradoria, julgam e condenam!
Para o PT e seu presidente, Rui Falcão, houve "apenas" caixa 2, o partido da ética valida a prática de caixa 2, e vai além: 
Primeiro uma reforma política, financiamento público de campanhas; mas quem em sã consciência quer dinheiro público, do meu e do seu imposto para pagar campanhas de pessoas que visam o poder a qualquer preço, quantos medíocres se candidatem e se elegem! 
Segundo ponto: controlar a mídia. Afinal, jornais "estragam" e "deturpam" tudo, por isso precisam ser monitorados...
E o antigo projeto de ética na política? O partido não o menciona mais! Não expulsará de seus quadros os condenados pelo STF. Ao invés disso pretende regulamentar a mídia. Jornalistas teriam então regras sobre o que escrever e noticiar?
No século 18 Kant defendia a liberdade de escrita e de publicação! Esclarecimento, é disso que o público precisa. Sim, pois a imprensa pauta-se pela defesa da liberdade de expressão, cuidado com a verificação e a veracidade, resposta do leitor, não precisa de um partido político para "regulamentá-la".
O cunho autoritário do PT é o lado avesso de suas pretensões revolucionárias.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Kant na velhice: rigor na teoria e na prática

Não bastasse a genial contribuição da Crítica da Razão Pura para uma revisão sem volta da metafísica tradicional, Kant se volta para a razão prática, para as fronteiras entre filosofia e teologia, para o papel dos juízos de valor, as avaliações morais, sempre guiado pelos princípios da pura racionalidade.

A experiência com as coisas que nos cercam só é possível quando situadas no tempo e no espaço (Crítica da Razão Pura - 1781) e também quando organizada pelas categorias, que são como que nossas habilidades lógicas de pensar, de tornar as coisas inteligíveis para nós, sem depender de uma noção cara à filosofia até então: a de que a própria realidade tal qual ela é em si mesmo chega às representações mentais, que as causas físicas são também causas metafísicas, que o mundo é gerado por causas independentes de nosso conhecimento, entre elas, a maior e mais inalcançável - Deus como criador.

Kant teve que enfrentar a censura devido a suas ideias sobre religião e Deus. Frederico Guilherme II primeiramente apoiou Kant, mas depois censurou os escritos sobre religião (entre eles: Religião nos Limites da Razão Pura). Havia um comitê para assuntos religiosos que ameaçava com reclusão e perda do cargo na universidade. O rei era adepto do movimento Rosa Cruz, para Kant fruto da irracionalidade, do fanatismo e do obscurantismo.
Aos homens é necessário postular Deus, mas não há como provar que é ele o criador, que o mundo teve um começo. Problemas que a própria razão levanta ela não pode resolver. Há os limites da razão, ela só funciona situando as coisas, classificando-as, buscando sua causalidade, predicando sua existência. E isso sempre por meio de princípios puros a priori. É próprio aos homens especular, a razão se esforça, mas as ideias de Deus, alma imortal e origem do mundo extrapolam tempo e espaço, não são "captáveis" pelos conceitos e categorias racionais. A lei moral que cada um traz em si é a base para a crença em Deus e não o inverso, quer dizer, agimos moralmente não por ordem divina e sim livremente. Deus e alma imortal são, portando, objeto de fé, a certeza que se tem deles é moral, não racional. Em religião vale a "sinceridade do coração". 

Do que a razão precisa, com o que ela "aprende"? Apenas com a experiência.

Essa lição kantiana tem sido sistematicamente ignorada até em nossos dias: moral e religiosidade diferem do conhecimento (científico ou não). Impor uma religião, acreditar que ela é única, que sem ela a humanidade estaria sem rumo, tem acarretado trágicos resultados: fanatismo, perseguição e muita crueldade...
A moralidade, por sua vez, depende da liberdade, da autonomia, dar a si mesmo suas leis, sem precisar de uma autoridade, de dogmas, de doutrinas. A moralidade prescinde de base externa, esteja ela na natureza ou nos"céus". 

Nessa altura Kant já morava em sua própria casa e ainda levantava bem cedo, fumava seu cachimbo, tomava o chá, passeava nos arredores, sempre bem vestido. Recebia convidados para o jantar, os divertia com assuntos diversos. Com a morte de Green, perdeu o amigo que lia seus escritos, ouvia suas confidências e o recebia com regularidade. Kraus foi outro amigo bastante próximo. Era uma personalidade controvertida, escritor de vários livros sob anonimato, mas bastante caro a Kant. Essa morte também foi outro choque.
Königsberg, com o castelo nos fundos e a casa de Kant na frente, à esquerda

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Se há um conceito que dá sentido e amarra a obra, o pensamento e a vida de Kant, esse conceito é o da liberdade. Por ela lutaram os franceses, a liberdade e a autonomia fundamentam a moral, a própria natureza tem como fim último constituir um tipo de cultura humana regulando a ação para que os homens, com sua liberdade individual, não lutem entre si. Para tal eles podem constituir uma sociedade civil cosmopolita, que administre a justiça por leis universais, para todas as nações. Liberdade de palavra e de escrita, um público cultivado, um estado ético que una os homens sob leis sem coerção, apenas seguindo as leis da virtude, esse é o ideal, um ideal cosmopolita. Pode-se dizer que ainda não o alcançamos, mas almejarmos chegar a ele já vale.
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Nos últimos seis ou sete anos Kant decaiu, física e mentalmente. Fraco, passou a levar uma vida reclusa, suas notas eram confusas, o grande pensador perdia a capacidade de pensar. "Muitas das anedotas sobre as visões e hábitos indecentes se originam, claro, deste período. Não são indicativos de sua filosofia e nem de sua personalidade" diz o biógrafo M. Kuehn (p. 416). Quando morreu (fevereiro de 1804) já não reconhecia as pessoas, gostaria de ter ido antes, não temia a morte. Seguira na prática o que elaborara nas teorias: aguentar as vicissitudes da vida e abster-se, moderar, seguir o imperativo do dever enquanto homem livre. 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Kant na maturidade

Aos 40 anos adquirimos nosso caráter, segundo Kant. Essa aquisição é como que um renascimento, uma palingênese, uma promessa feita a si mesmo. "A fundação de um caráter é de fato a absoluta unidade do princípio interno de como viver em geral", afirma ele. É dever de cada um formar seu caráter no sentido moral, ser sincero, honesto e confiável. A maturidade favorece uma melhor compreensão das coisas, a ação diária segue máximas ou princípios que são um guia a ser seguido com firmeza e constância. 
As máximas morais estão ligadas ao nosso modo de pensar e não ao de sentir, por meio delas se distingue o bom do mau caráter. Somos nossos próprios legisladores, não há necessidade de tutela, de seguir um líder, nem uma ideologia, nem ficar cego por doutrinas ou por ditames divinos.
Nessa época Kant começa a levar menos uma vida social e mais uma vida metódica e previsível, segue suas máximas como rigor nos estudos, na preparação das aulas, nas leituras e na sua produção intelectual.
Faz amizade com Green, que tem um estilo de vida que Kant admirava: a construção do caráter depende de seguir um estilo de vida regrado; visitava-o à tarde e saia pontualmente às 7:00 da noite. Green lia e comentava os escritos de Kant, tinha acesso às obras de Hume e Rousseau que estavam entre os escritores favoritos de ambos.
A obra de Kant começa a repercutir, inclusive em Berlim, para cuja universidade foi convidado, mas declinou da cadeira de poesia, pois seu interesse era a metafísica e a moral. 
Em 1765 passou a trabalhar na biblioteca de Königsberg, 4as e sábados à tarde, o que lhe dava proventos e a oportunidade de ler. Morou em quarto alugado na casa de seu editor. Comprou sua casa apenas aos 59 anos.
Acordava cedo, 5 horas da manhã, fumava seu cachimbo, depois do café preparava aulas e conferências. Lecionou a vida toda, pelo menos 20 horas semanais. Nas aulas de Antropologia e de Geografia, favorecia a compreensão dos alunos com exemplos. Mais tarde, a dificuldade dos temas metafísicos e morais prevaleceu.
Há um lado irônico pouco conhecido. Publicou anonimamente reflexões sobre visões e espíritos em resposta  a um famoso vidente, Swedenborg. Espíritos não são de outro mundo como afirmam os visionários. Estes deveriam ser despachados para um hospital para investigação. Não seria caso de doença nas entranhas? Em seus momentos de humor, Kant se saiu com esta tirada: "visões são caso de entranhas, se para baixo, um pum (!), se para cima se confundem com uma aparição ou inspiração divina". Esse humor fazia parte das reuniões da sociedade literária, a qual Kant frequentou durante algum tempo.
Esse Kant pré-crítico, buscava um conceito de natureza, de tempo, sob influência da física e também de Rousseau. Natureza e razão humana se complementam. 
Mas já há indícios do Kant crítico, as pessoas não se devem levar por conhecimentos ilusórios. O mundo dos espíritos é incognoscível, adota certo ceticismo propedêutico e catártico, ao estilo de Hume que viria a ser o filósofo responsável em grande parte por sua virada crítica. Crítica da razão, da metafísica tradicional, da moral dos sentimentos.
Kant das críticas e da metafísica dos costumes fica para a próxima postagem.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O jovem Kant: desmanchando alguns pré-juízos

 Atualmente há nada menos do que 483 biografias de Kant. Mas não é exagero afirmar a necessidade de ler a biografia escrita com primor de estilo e seriedade de pesquisa de Manfred Kuehn (2001), "Kant, a biography". Ele recorre a biógrafos, a cartas, a uma extensa pesquisa histórica e sociológica para reconstituir em detalhes a vida de Kant, seu modo de viver, sua educação, sua família, sua cidade natal, Königsberg, a Prússia, enfim, a evolução pessoal e intelectual de Kant.
Kant tinha uma constitução franzina (1.57 de altura), louro, com penetrantes olhos azuis; provavelmente sofria de angina.


(1724-1804)

Seu pai fabricava arreios, a infância decorreu sem dificuldades financeiras, que vieram mais tarde quando da morte de seu pai. Kant tinha apenas 22 anos. Com a morte da mãe, aos 40 anos, Kant que era o filho mais velho, teve que assumir a responsabilidade pelos seus irmãos. Teve ajuda financeira de um tio. Os estudos foram feitos em colégio que seguia a ortodoxia da teologia pietista e cuja disciplina era extremamente rígida.
Todos conhecem episódios até mesmo anedóticos sobre a vida metódica e a influência da religião pietista (os pietistas faziam seu próprio estudo e leitura da Bíblia, importava a devoção pessoal, caridade, desprendimento e a salvação viria após arrependimento e conversão).
Mas Kuehn considera que a teologia pietista não teve o efeito poderoso na filosofia madura de Kant. Ele admirava as ações dos pietistas, não suas teorias teológicas. Que ações eram essas? Respeito, cumprimento dos deveres não pelo medo de punição, evitar excessos, a sinceridade, ter confiança em si, separação entre moralidade e religião.
"Se o pietismo teve absolutamente alguma influência em Kant, então essa foi negativa" afirma o biógrafo (p. 54). Basta pensar em teses fundamentais, como a da autonomia da vontade, a moralidade racional e não sentimental, a separação entre religião e moral para concordar com Kuehn.
Kant era solitário, metódico ao extremo, misógeno, nunca saiu de Königsberg?
Em geral é assim que Kant é conhecido, o que não passa de uma caricatura. 
Sua vida era modesta, tinha hábitos frugais, mas não vivia isolado, teve amigos, alguns dos quais bem próximos, se interessou por algumas mulheres, pensou até em pedir uma delas em casamento, desistiu por não ter como sustentar uma família.
Quando passou a dar conferências na universidade e ser pago por elas, se tornou um "elegante professor" entre os anos 1755-1764, participando ativamente do debate intelectual entre os influentes professores da universidade. Dos 36 aos 39 anos foi figura central nos círculos sociais de Königsberg.
Enfim, há todo um conjunto de circunstâncias que pesaram na constituição do pensamento maduro de Kant e que são desconhecidas ou menosprezadas.

Com relação à amizade, quando da morte de seu amigo Funk, assim ele reflete em carta escrita à mãe do amigo morto prematuramente:

Todo ser humano faz planos sobre seu próprio destino no mundo. Há habilidades que ele quer aprender, há a honra e a paz que ele espera assim alcançar, felicidade duradoura na vida conjugal e uma longa lista de prazeres ou projetos compõem as figuras da lanterna mágica, que ele imagina para si mesmo e que passam continuamente em seus devaneiios. A morte, que põe um fim a este jogo de sombras, se mostra apenas a uma grande distância e é obscurecida e tornada estranha pela luz que envolve os locais mais aprazíveis. Enquanto sonhamos, nosso verdadeiro destino nos conduz de um modo inteiramente diferente. A parte que esperamos raramente aparece do jeito que gostaríamos e vemos nossa esperança ser arremessada a cada passo nosso ... até que a morte, que sempre pareceu distante, de repente acaba com todo o jogo (1760).

PS: sobre Kant na maturidade e na velhice, escreverei oportunamente.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Bóson de Higgs, Deus e a metafísica

A Física teórica, que usa cálculos e comprova suas hipóteses pela experiência e/ou pelos produtos técnicos e tecnológicos, é de certo ponto de vista, recente. Surgiu nos século 16, com Galileu, foi aperfeiçoada por Newton no século 17 e deu enormes saltos no século 20 com o modelo atômico.

Partículas já foram pressupostas pela filosofia natural com Demócrito, século 6 a. C., mas a intenção dos primeiros filósofos era dar uma resposta metafísica sobre a causa natural e primeira da existência de corpos e de seu movimento.

Há diferenças importantes entre a fé em Deus (monoteísmo cristão), a ciência natural e a indagação filosófica. Essa diferença reside em métodos, propósitos, perspectivas, resultados e visões de mundo.A religião e a crença em Deus dispensam provas, não requerem experiência sensível, muito menos resultados aplicáveis.

É muito estranho e mesmo absurdo, paradoxal, que a comprovação da existência de uma partícula, por mais essencial que ela seja para entender a relação entre matéria e energia, seja "a partícula de Deus", como tem sido chamado o bóson de Higgs.
bóson de Higgs

Nesse caso Deus ou seria materializado ou então teria que fazer parte de sua própria criação. Então, não seria Deus como os cristãos o concebem, e como pressupõe a fé em um ser absoluto, transcendente, que tudo sabe e que não está em lugar ou espaço algum. Criar algo, a tal partícula que decifraria todo o universo, significa que o próprio Deus seria perfeitamente inteligível pelos humanos. Mas como Deus criou, precisou sair de si? E partir do que, como? De sua vontade?

Faz parte da religião e mesmo da ciência e da filosofia, o desconhecido, o misterioso. Nossa mente, nossa inteligência e o modo como significamos e nos comunicamos resultou de uma evolução histórica; o modo como produzimos conhecimento depende de teorias, cálculos, fórmulas, instrumentos. A ciência progride com esses recursos. E todos eles são produtos de nossa história e de nossa evolução. Não há como sair dessas situações e circunstâncias. Quer dizer, o modo como indagamos e as razões que nos incitam dependem dos tipos de conhecimento, da curiosidade, da linguagem e dos signos. São eles que permitem fazer essas perguntas. Respondê-las pode abrir caminhos, ou não...
E essas são reflexões filosóficas.

A metafísica é aquela parte da filosofia que indaga pelas causas primeiras de todas as coisas, os princípios do ser, como é possível que haja ser e não nada. É um pouco difícil entender essas perguntas em torno do ser, do nada, do vir a ser, se os seres são determinados, como identificá-los, se todos têm uma finalidade ou não, se são fruto do acaso ou de um princípio superior.

A ciência até pode ser reflexiva e mesmo crítica quando os cientistas se perguntam sobre os limites de seu conhecimento e os objetivos mais gerais da ciência, sobre seus fundamentos e modelos (matemático, empírico, lógico, tecnológico).
Mas a ciência não deve e nem pode pretender ter a verdade última ou ter descoberto e decifrado a origem do universo.
Certa dose de ceticismo é uma precaução contra a risível pretensão de, com nossos instrumentos e recursos, responder a todas as nossas dúvidas.
Inclusive porque o tipo de pergunta que fazemos, pela causa ou origem, é característica de nosso humano modo de ser.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A cultura de uma "moral" da egolatria

Nossa época vê surgir um novo tipo de personalidade que pode ser analisado de um ponto de vista moral. E de que ponto de vista moral? Sugerimos um contraste com uma moral que propõe uma vida virtuosa no sentido do cultivo de hábitos moderados, como a ética de Aristóteles.

O que um executivo, um profissional hoje em geral cultiva, aprecia e valoriza?
Ele precisa ser empreendedor, seu corpo é seu ego, o estilo de vida depende de mostrar-se, construir um eu e fazer sua vida girar em torno desse ego, bastante inflado. O corpo precisa de músculos, vestir-se requer marcas, conviver exige espaços de prazer imediato, como bares e restaurantes da moda, shoppings e todo e qualquer lugar onde ele possa exibir suas conquistas. Pode ser um automóvel ou um objeto da mais recente tecnologia.

O respeito, o cuidado com relação aos outros, a bela e boa vida interior são deixados de lado. Coisa de fracos ou inferiores.
O ególatra aprecia e tem como objetivos apenas o que pode ser medido, calculado, ranqueado. Escalar degraus na empresa, sucesso profissional, viajar para mostrar para onde foi, aliás, mostrar-se é imperativo. E como é fácil, mil fotos, filmes, eu fiz isso ou aquilo, o menor gesto ou atitude é sempre o de uma conquista de si que é exposta diariamente nas redes sociais. Sua vida gira em torno de si mesmo, a "moral" da egolatria. Valores são todos os que levam ao crescimento ou engrandecimento de si mesmo. Foi publicado recentemente um livro chamado, pasmem, "A anatomia da liderança ética" (sic), autoajuda para ter sucesso.

Para que modéstia ou moderação? Para que sinceridade ou autenticidade? Para que desprendimento ou altruísmo?
Essas e outras capacidades como a coragem moral, a justa indignação, a busca da calma e da paz interior, não servem ao ególatra.
Ao passo que contar vantagem, a gabolice, as bravatas, vencer a qualquer preço, isso lhe serve. Por vezes precisa ser subserviente, ele curva a espinha se precisar. O que pode levar ao despeito, ao vazio, sempre insatisfeito, talvez mesmo infeliz.

Entretanto, é possível ser bem-sucedido no trabalho, ser uma boa pessoa na vida familiar, cultivar amizades e atingir certa plenitude e satisfação, mesmo em meios competitivos.
É uma questão de estilo de vida, de escolha de valores, de reflexão e moderação. Buscar o que é justo. Uma vida plena não pode ser medida, ela não cabe em escalas ou rankings.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Com qual desses filósofos você se identifica?

Você é platônico se considera importante se comprometer com o ideal, com a realização perfeita de valores e se esses valores forem principalmente os do Belo e do Bem. Se você gosta de ensinar e entregar-se de corpo e alma à busca incessante de melhoria em especial a da alma, em tudo superior ao corpo, seu mestre é Platão.
Aristótelicos preferem a ordem lógica, a busca das causas principais e essencias por meio do raciocínio, a pesquisa de todos os setores da realidade de modo a chegar ao cerne das questões. Para você tudo tem um limite e não há mistério para a investigação humana. As coisas todas se encaixam, é possível ser feliz desde que se pratique atos justos e virtuosos.
Aqueles para quem a matemática é o compasso para medir todos os seres e ordená-los, aqueles que gostam da razão e consideram que clareza é o mesmo que verdade, que a negação e as dúvidas podem ser vencidas, aqueles para os quais pensar na solidão de seu quarto é a maior das aventuras, estes são cartesianos.
A confiança estrita no poder da razão e no cumprimento do dever pelo dever, caracteriza kantianos. Se, além disso você gostar de levar uma vida metódica e preferir sua cidade a todas as outras, aplicar-se com rigor a não transigir em matéria moral, você se identifica com Kant.
Mas se você se inclina ao que é transitório, ao que muda e evolui seguindo uma trajetória histórica, então sua afinidade é com Hegel. As coisas estão em curso para você, e se elas mudam, o fazem para melhor, culminam em algo absoluto; tudo o que for realizável o será por ser racional.
Esse otimismo não cabe para os nietzschianos. Eles são os irônicos, céticos, do alto da montanha contemplam ridículas criaturas perseguindo valores gastos como se a vida dependesse disso. A vida não pode depender de nada, há que inventar, há que criar seus próprios valores. Mesmo que isso os faça sofrer.
Os wittgensteinianos são intransigentes, exigentes consigo mesmos, acham que podem decifrar os códigos humanos, mas que Deus e religião são indecifráveis. Também gostam da vida simples e da solidão. Abrem mão da riqueza e seu espírito é investigador. A verdade pertence às atividades cotidianas, nelas há tudo do que se precisa para dar e encontrar sentido nas coisas. Sua metáfora predileta é a do jogo. Jogos exigem regras, cálculo e lógica.
Se você é desconfiado, se você não aceita regra alguma sem dar uma olhada no que a produziu e quais são os resultados dessas regras aparentemente inocentes e pretensamente científicas, você é um crítico de nossa cultura e do modo como as instituições nos limitam. O filósofo mais próximo a esse modo de ver é Foucault.