Há algo em comum entre o "homem como medida de todas as coisas", famosa afirmação de Protágoras, o homem racional, cujo cogito (pensamento) é fonte de certeza e o além-do-homem de Nietzsche?
Todos os filósofos abordam o tema do homem, porém de diferentes modos e com diferentes propósitos.
Em meio aos entes, às coisas todas que nos cercam, há um ente cujo ser desvela todos os demais, condiciona o aparecer e as mudanças de tudo: é o homem medida das coisas que são e das que não são, das qualidades, das sensações.Tudo o que se conhece depende de o homem perceber e entender. Tudo é relativo às sensações, às percepções, enfim, ao modo de ser humano.
Mas, para Protágoras nem de longe há um sujeito de conhecimento, fonte de certeza, um sujeito que se sabe ser aquele por meio do qual há representação das coisas e que para isso se serve de algo que apensas ele possui: sua racionalidade, ou melhor, sua alma racional. Pensar, o cogito ergo sum, penso, logo existo de Descartes é em tudo diverso do homem medida de Protágoras. Distancia-os não apenas aproximadamente 20 séculos, mas uma nova visão de ser humano. Protágoras nem poderia entender a subjetividade do sujeito como pessoal, como doadora de certeza, inclusive a certeza da própria existência.
Com Descartes nasce o sujeito moderno, fonte de conhecimento e de liberdade, ele medita e conclui que se ele, Descartes, pensa necessariamente existe. E não simplesmente em meio às coisas do mundo. A metafísica cartesiana pressupõe inclusive que Deus depende do pensamento humano. Pensar em um ser supremo o mais perfeito de todos, sem que, ao mesmo tempo, este ser não exista, é destituí-lo da perfeição da existência. Conceber a perfeição inclui, pressupõe, exige a existência. De sua cadeira, em seu gabinete de trabalho, o filósofo reflete, medita, sabe que é ele o "dono" de si, de seus pensamentos, de sua existência. Não precisa saber do mundo, nem fazer experiências para concluir que a consciência de si basta. Essa autossuficiência é o ponto de partida para o reconhecimento da subjetividade, desse eu interior que tanta importância terá para a filosofia, para a psicologia, para a futura psicanálise, para fundamentar conceitos jurídicos como imputação de culpa ou dolo, para reconhecimento de autoria de obras de arte, etc.
Mal nasce o sujeito moderno, ele se vê, com Nietzsche transformado em vontade vital de superar, de sobreviver, de esforçar-se para obter mais e mais poder, a capacidade de satisfazer impulsos da vontade. Vontade de que? de poder, não no sentido de poder político ou econômico, nem de longe! Poder no sentido de potência vital, todos os entes são dotados desse poder, a vontade não é a de uma pessoa livre, um sujeito que pensa e de quem depende a verdade e a certeza. Esse sujeito cartesiano, metódico, que representa e que tem consciência de representar as coisas, cede lugar à vida, à sobrevivência por meio de luta, de força. Força vital caracteriza o homem, se ele se detiver nos valores de outro mundo, de Deus, do que transcende, é fraco, submete-se ao que ele próprio concebera como valor supremo, "ingenuidade hiperbólica", pois foram valores inventados pelo homem! Não percebe que ele criou o mundo de estilo platônico ao qual se submete. Atender à força vital implica negar os valores inventados para justificar sua fraqueza, e criar novos valores, dessa vez, terrenos. Ir além do homem, quer dizer, a busca de arte, criação, e não de verdade e nem de certeza, leva a potencializar o que é próprio à vontade de poder. Vontade e impulsos no lugar da consciência de si e da representação do sujeito.
Resposta à questão proposta no início, de se há algo em comum entre as três concepções de homem. Sim, há pelo menos nossa ignorância, nossa vontade de saber, os projetos e realizações ao longo da história, a defesa da liberdade de pensamento e da própria filosofia. A filosofia não está morta...
sábado, 30 de novembro de 2013
terça-feira, 12 de novembro de 2013
A morte da filosofia (cont.): dogmatismo e ideologização
Dogmatismo deriva de dogma, termo grego que significa o que aparenta, uma opinião ou crença. Para os gregos, em especial para a tradição filosófica que remonta a Platão, a aparência é enganadora. Somente o que está por detrás, o permanente, o essencial é que pode ser concebido como fonte de verdade, ou mesmo como o verdadeiro ser das coisas.
No sentido atual, dogma diz respeito às doutrinas e crenças de uma religião, de uma seita, de uma ideologia, e sempre vem relacionado com um conjunto explícito de regras e normas que devem ser respeitadas e seguidas estritamente, portanto, sem questionamento.
Ora, em que pesem a importância e a necessidade de doutrina e dogmas para as religiões, crenças e seitas, no território filosófico todo e qualquer tipo de dogma é inaceitável, impraticável e incompatível com a filosofia. O filósofo precisa de liberdade de pensamento para refletir, deduzir, expor conceitos, ideias, visões de mundo.
Mas, a filosofia não busca a verdade?!
Ao considerar a própria questão da verdade surgem diferentes modos de pensar e de conceber a verdade. Isso indica que não há a verdade, justamente reivindicar para si ou para sua corrente filosófica a posse da verdade leva a outro questionamento: se uma escola filosófica ou um filósofo chegou à verdade com seu sistema, ou bem ele é o único verdadeiro (e como ficam os demais?) ou todos são legítimos filósofos e também têm cada qual a sua verdade. Logo, a verdade é a de cada qual, o que implica negar o conceito mesmo de verdade!
Então, filosofia e verdade são incompatíveis?
Filosofia e verdade como posse, como dogma é que são incompatíveis. O dogmático se vê como o único a chegar ao sistema conceitual verdadeiro e isso é a morte da filosofia.
Realistas, idealistas, céticos, empiristas, analíticos, racionalistas, enfim, cada uma das várias correntes filosóficas investiga, pesquisa, analisa, conceitua e tem sim, concepções diferentes de como a verdade é possível de se atingir, ou mesmo de que não é possível verdade, como os céticos.
Assim, se verdade for considerada a ideia permanente, ou a experiência com dados dos sentidos, ou o que a linguagem estrutura, ou o que o pensamento capacita, isso não significa multiplicar a verdade (o que é absurdo). Isso significa que o trabalho do filósofo é comparável ao cultivo de plantas ou de um jardim, cada espécie vegetal requer um terreno, um tipo de cultivo, uma época de colheita, etc. Um jardim difere de outro, entrar num deles e usufruir de sua sombra ou beleza, não impede apreciar outro(s).
Ideologizar ocorre quando uma ideologia é importada da sociedade política e penetra com disfarces na filosofia e no seu ensino, nas pseudo narrativas históricas, nas concepções pedagógicas, e sempre que certo modo de ver e de pensar se propõe como salvador, como promissor da redenção de todos os males, da desigualdade social ao fim do lucro e da exploração.
Esse tipo de ideologização penetrou fundo no sistema "educacional" brasileiro há algumas décadas e "fez a cabeça", como se diz, de um sem número de professores, autores de livros didáticos, pedagogos, e de propostas para a educação.
Ideologização e dogmatismo se dão as mãos no projeto educacional brasileiro, gerações adotam o pensamento único e a verdade universal de que a visão marxista da história como luta de classes é a verdade.
Morre a filosofia e também a educação...
No sentido atual, dogma diz respeito às doutrinas e crenças de uma religião, de uma seita, de uma ideologia, e sempre vem relacionado com um conjunto explícito de regras e normas que devem ser respeitadas e seguidas estritamente, portanto, sem questionamento.
Ora, em que pesem a importância e a necessidade de doutrina e dogmas para as religiões, crenças e seitas, no território filosófico todo e qualquer tipo de dogma é inaceitável, impraticável e incompatível com a filosofia. O filósofo precisa de liberdade de pensamento para refletir, deduzir, expor conceitos, ideias, visões de mundo.
Mas, a filosofia não busca a verdade?!
Ao considerar a própria questão da verdade surgem diferentes modos de pensar e de conceber a verdade. Isso indica que não há a verdade, justamente reivindicar para si ou para sua corrente filosófica a posse da verdade leva a outro questionamento: se uma escola filosófica ou um filósofo chegou à verdade com seu sistema, ou bem ele é o único verdadeiro (e como ficam os demais?) ou todos são legítimos filósofos e também têm cada qual a sua verdade. Logo, a verdade é a de cada qual, o que implica negar o conceito mesmo de verdade!
Então, filosofia e verdade são incompatíveis?
Filosofia e verdade como posse, como dogma é que são incompatíveis. O dogmático se vê como o único a chegar ao sistema conceitual verdadeiro e isso é a morte da filosofia.
Realistas, idealistas, céticos, empiristas, analíticos, racionalistas, enfim, cada uma das várias correntes filosóficas investiga, pesquisa, analisa, conceitua e tem sim, concepções diferentes de como a verdade é possível de se atingir, ou mesmo de que não é possível verdade, como os céticos.
Assim, se verdade for considerada a ideia permanente, ou a experiência com dados dos sentidos, ou o que a linguagem estrutura, ou o que o pensamento capacita, isso não significa multiplicar a verdade (o que é absurdo). Isso significa que o trabalho do filósofo é comparável ao cultivo de plantas ou de um jardim, cada espécie vegetal requer um terreno, um tipo de cultivo, uma época de colheita, etc. Um jardim difere de outro, entrar num deles e usufruir de sua sombra ou beleza, não impede apreciar outro(s).
***
A ideologia não tem nada a ver com verdade. Justamente, é um modo de julgar e de avaliar que passa por um conjunto de propostas de ordem social, política, jurídica, que influencia e é influenciado tanto pela sociedade na qual nascem e da qual fazem parte, como pela época histórica da qual são também parte integrante. Abolir ideologias, nas atuais sociedades de Estado, com organização política, partidária, com tipos de governos e poderes legítimos, levaria automaticamente à imposição de uma única ideologia. Exemplos recentes: URSS stalinista, China de Mao, "república" dos aiatolás e, infelizmente, outros mais, houve ou há a imposição da ideologia única.Ideologizar ocorre quando uma ideologia é importada da sociedade política e penetra com disfarces na filosofia e no seu ensino, nas pseudo narrativas históricas, nas concepções pedagógicas, e sempre que certo modo de ver e de pensar se propõe como salvador, como promissor da redenção de todos os males, da desigualdade social ao fim do lucro e da exploração.
Esse tipo de ideologização penetrou fundo no sistema "educacional" brasileiro há algumas décadas e "fez a cabeça", como se diz, de um sem número de professores, autores de livros didáticos, pedagogos, e de propostas para a educação.
Ideologização e dogmatismo se dão as mãos no projeto educacional brasileiro, gerações adotam o pensamento único e a verdade universal de que a visão marxista da história como luta de classes é a verdade.
Morre a filosofia e também a educação...
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
A morte da filosofia: incoerência, inconsistência, contradição
As condições basilares da escritura filosófica são a coerência, a consistência e a intenção de evitar contradições. Daí o título indicar que a filosofia (e demais textos teóricos, científicos, jornalísticos) são feridos de morte quando há neles incoerências, inconsistências e contradições.
A incoerência decorre muitas vezes do despreparo do autor, muitas vezes como que perdido em meio às ideias e conceitos do filósofo abordado, do tema estudado ou de ambos.
A coerência reside em indicar os propósitos e objetivos do texto ou do estudo, ir fundo neles, explicitá-los para o leitor ou estudioso do assunto e/ou do filósofo. Se o objeto de estudo for um filósofo, por exemplo, Platão, especificar o modo como será abordado, quais diálogos, com que objetivo. Ser coerente implica em formação intelectual, honestidade consigo e com o leitor, segurança, completude nos raciocínios e argumentação. Ou seja, evita-se a repetição, a vagueza, as frases longas e complicadas, os conceitos mal delineados.
Wittgenstein teria sido incoerente com seus princípios e conceitos na passagem da lógica do Tractatus para a linguagem cotidiana de Investigações Filosóficas? Não! Ele permaneceu coerente com seu objetivo ao fazer filosofia: a busca da base, da ponte, do que permite pensar, falar, compreender, verificar a verdade ou não de enunciados, enfim como entender o funcionamento da relação entre linguagem e realidade. Se fosse incoerente, não seria filósofo!
Quase nunca se discute a necessidade da consistência, tanto a dos textos a serem elaborados por alunos e pesquisadores na área da filosofia, como o que representa a consistência no pensamento e nas doutrinas dos filósofos. O texto se firma em pé ou desmorona a cada parágrafo? Contribui para o exercício do raciocínio, da reflexão, há nele alguma argúcia, ou se perde em minúcias inúteis ou generalidades vazias? O texto tem o que dizer, renova pelo menos algum modo de ver, de interpretar? Traduz um tema ou autor de modo interessante e instigante? Ou é morno, raso, terminada a leitura nada fica, nada se modifica em nossas visões? É enriquecedor ou pobre? Diz a que veio ou se arrasta cansativamente?
Mesmo difíceis, os filósofos todos produzem reflexões consistentes, por vezes pesadas. A superficialidade e os artifícios ficam longe da filosofia. O famoso ditado de Sócrates "Só sei que nada sei" é a um só tempo revelação, renúncia, absolutamente consistente com sua meta, a de aprender sempre e de ensinar, a "douta ignorância" que permite ao filósofo reiniciar, sempre.
Contradizer-se é ainda mais grave: afirmar algo e em seguida negar, basear-se no conceito X e mais adiante considerar esse mesmo conceito como inválido. Por vezes, na mesma sentença declara-se que, por exemplo, é possível obter verdade, mas que a verdade é impossível!
Quanto à contradição há um problema extra: os dialéticos a têm como fundamental. Ser e não ser na transformação e evolução histórica, assim como ontologicamente, se determinam mutuamente, um depende do outro para haver mudança, devir ou vir a ser. Mas não é disso que se trata quando se diz que o filósofo e a filosofia não podem ser contraditórios. O que fazer diante de duas afirmações contraditórias? Contradizer-se impede a argumentação, defender ideias e ideais, chegar a conclusões, "fechar" um raciocínio. Impossível defender a tese de que o cogito, o "eu penso" é fundamental e negar o poder do pensamento individual. Se Descartes assim o tivesse feito, não seria filósofo.
Isso não significa ser possível e desejável olhar e interpretar as várias facetas do que está sendo investigado. Se A, então... tal. Se B, então...tal. Isso não é contraditório, amplia as razões para se refletir e fazer filosofia.
A incoerência decorre muitas vezes do despreparo do autor, muitas vezes como que perdido em meio às ideias e conceitos do filósofo abordado, do tema estudado ou de ambos.
A coerência reside em indicar os propósitos e objetivos do texto ou do estudo, ir fundo neles, explicitá-los para o leitor ou estudioso do assunto e/ou do filósofo. Se o objeto de estudo for um filósofo, por exemplo, Platão, especificar o modo como será abordado, quais diálogos, com que objetivo. Ser coerente implica em formação intelectual, honestidade consigo e com o leitor, segurança, completude nos raciocínios e argumentação. Ou seja, evita-se a repetição, a vagueza, as frases longas e complicadas, os conceitos mal delineados.
Wittgenstein teria sido incoerente com seus princípios e conceitos na passagem da lógica do Tractatus para a linguagem cotidiana de Investigações Filosóficas? Não! Ele permaneceu coerente com seu objetivo ao fazer filosofia: a busca da base, da ponte, do que permite pensar, falar, compreender, verificar a verdade ou não de enunciados, enfim como entender o funcionamento da relação entre linguagem e realidade. Se fosse incoerente, não seria filósofo!
Quase nunca se discute a necessidade da consistência, tanto a dos textos a serem elaborados por alunos e pesquisadores na área da filosofia, como o que representa a consistência no pensamento e nas doutrinas dos filósofos. O texto se firma em pé ou desmorona a cada parágrafo? Contribui para o exercício do raciocínio, da reflexão, há nele alguma argúcia, ou se perde em minúcias inúteis ou generalidades vazias? O texto tem o que dizer, renova pelo menos algum modo de ver, de interpretar? Traduz um tema ou autor de modo interessante e instigante? Ou é morno, raso, terminada a leitura nada fica, nada se modifica em nossas visões? É enriquecedor ou pobre? Diz a que veio ou se arrasta cansativamente?
Mesmo difíceis, os filósofos todos produzem reflexões consistentes, por vezes pesadas. A superficialidade e os artifícios ficam longe da filosofia. O famoso ditado de Sócrates "Só sei que nada sei" é a um só tempo revelação, renúncia, absolutamente consistente com sua meta, a de aprender sempre e de ensinar, a "douta ignorância" que permite ao filósofo reiniciar, sempre.
Contradizer-se é ainda mais grave: afirmar algo e em seguida negar, basear-se no conceito X e mais adiante considerar esse mesmo conceito como inválido. Por vezes, na mesma sentença declara-se que, por exemplo, é possível obter verdade, mas que a verdade é impossível!
Quanto à contradição há um problema extra: os dialéticos a têm como fundamental. Ser e não ser na transformação e evolução histórica, assim como ontologicamente, se determinam mutuamente, um depende do outro para haver mudança, devir ou vir a ser. Mas não é disso que se trata quando se diz que o filósofo e a filosofia não podem ser contraditórios. O que fazer diante de duas afirmações contraditórias? Contradizer-se impede a argumentação, defender ideias e ideais, chegar a conclusões, "fechar" um raciocínio. Impossível defender a tese de que o cogito, o "eu penso" é fundamental e negar o poder do pensamento individual. Se Descartes assim o tivesse feito, não seria filósofo.
Isso não significa ser possível e desejável olhar e interpretar as várias facetas do que está sendo investigado. Se A, então... tal. Se B, então...tal. Isso não é contraditório, amplia as razões para se refletir e fazer filosofia.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
A importância da Filosofia
Um dos mais interessantes paradoxos da filosofia (tanto em sua longa história quanto como matéria de estudo e reflexão) é que ela não tem nenhuma aplicação imediata, por vezes é incompreendida, descartável e mesmo ridicularizada, e nada disso impede, pelo contrário, estimula, a que filosofar e os filósofos sejam imprescindíveis.
Como interpretar essas duas atitudes antagônicas?
Em sociedades tecnocráticas, de produção e consumo imediato de bens e serviços, sendo inclusive a educação vista como um desses bens, é possível dispensar a Filosofia devido a sua inutilidade. Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade produz um efeito inverso: para que servem todos esses bens e produtos? Eles satisfazem e preenchem todos os aspectos e vicissitudes da vida? Basta trabalhar, pesquisar, comprar e vender, cumprir horários e realizar tarefas? E isso quanto à vida cotidiana.
E as outras questões mais profundas e amplas, que não se restringem à economia, à política, que partem para problemas como o da aplicação da justiça e dos direitos humanos, como conciliar as relações entre poder público e vida privada, liberdade e cidadania?
E quando sociedades inteiras se mobilizam por meio da religião e consideram sua crença como única, verdadeira e insubstituível, como ficam as demais doutrinas religiosas? Qual é o valor, afinal, dessas crenças? Se elas respondem pelo sentido do cosmo, pelo sentido da vida, se preenchem os anseios pela busca de um bem supremo, de um ser superior, se suprem as necessidades espirituais, como ainda assim a filosofia permanece viva e atuante?
A necessidade da filosofia é inerente à capacidade racional de compreensão, de indagação, de atenção e cuidado pelo que é básico e fundamental. O que funda, o que fundamenta nossa capacidade de conhecer o que nos cerca e o que somos nós, seres humanos? Como entender que o tempo nos constitui, tanto o tempo de todas as coisas que nascem e morrem, como o tempo sem o qual não há memória, nem apreensão das situações presentes, nem possibilidade de projetar, de planejar, de imaginar o futuro e novas situações?
E quando o tempo se transforma em puro acaso, quando ocorrências díspares confluem e mudam inteiramente o fluxo de nossa existência? O que é causado e pode ser dominado, e o que é fortuito e escapa ao nosso controle?
E isso porque ela segue outro caminho. Seu campo de saber é o das avaliações, a pergunta pelo sentido da vida, apreender todos os entes existentes por meio de categorias e conceitos gerais, como: causalidade, totalidade, verdade, teoria, matéria e forma, ideias, mente, tempo, eternidade, finito e infinito. Não se prova e nem se comprova nada nessas digressões, nessas interpretações, nessas valorações.
Elas insistem e persistem porque ao pensamento não é dado não pensar.
Como interpretar essas duas atitudes antagônicas?
Em sociedades tecnocráticas, de produção e consumo imediato de bens e serviços, sendo inclusive a educação vista como um desses bens, é possível dispensar a Filosofia devido a sua inutilidade. Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade produz um efeito inverso: para que servem todos esses bens e produtos? Eles satisfazem e preenchem todos os aspectos e vicissitudes da vida? Basta trabalhar, pesquisar, comprar e vender, cumprir horários e realizar tarefas? E isso quanto à vida cotidiana.
E as outras questões mais profundas e amplas, que não se restringem à economia, à política, que partem para problemas como o da aplicação da justiça e dos direitos humanos, como conciliar as relações entre poder público e vida privada, liberdade e cidadania?
E quando sociedades inteiras se mobilizam por meio da religião e consideram sua crença como única, verdadeira e insubstituível, como ficam as demais doutrinas religiosas? Qual é o valor, afinal, dessas crenças? Se elas respondem pelo sentido do cosmo, pelo sentido da vida, se preenchem os anseios pela busca de um bem supremo, de um ser superior, se suprem as necessidades espirituais, como ainda assim a filosofia permanece viva e atuante?
A necessidade da filosofia é inerente à capacidade racional de compreensão, de indagação, de atenção e cuidado pelo que é básico e fundamental. O que funda, o que fundamenta nossa capacidade de conhecer o que nos cerca e o que somos nós, seres humanos? Como entender que o tempo nos constitui, tanto o tempo de todas as coisas que nascem e morrem, como o tempo sem o qual não há memória, nem apreensão das situações presentes, nem possibilidade de projetar, de planejar, de imaginar o futuro e novas situações?
E quando o tempo se transforma em puro acaso, quando ocorrências díspares confluem e mudam inteiramente o fluxo de nossa existência? O que é causado e pode ser dominado, e o que é fortuito e escapa ao nosso controle?
Nessas condições, é possível filosofar?! Note que a pergunta instiga a pensar justamente sobre a condição humana!
Se a ciência responde com leis da física sobre moléculas, átomos, teorias sobre o início do universo; se a biologia responde sobre a origem da vida e sua evolução; se a medicina avança e mapeia o cérebro e todo o corpo, previne e controla doenças, prolonga e dá condições para saúde e bem-estar; enfim, se as ciências controlam muitos fenômenos e os explicam, a filosofia ainda assim persiste.E isso porque ela segue outro caminho. Seu campo de saber é o das avaliações, a pergunta pelo sentido da vida, apreender todos os entes existentes por meio de categorias e conceitos gerais, como: causalidade, totalidade, verdade, teoria, matéria e forma, ideias, mente, tempo, eternidade, finito e infinito. Não se prova e nem se comprova nada nessas digressões, nessas interpretações, nessas valorações.
Elas insistem e persistem porque ao pensamento não é dado não pensar.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Pensamento metafísico: totalidade, ente e ser
Nas preleções de Heidegger sobre Nietzsche, na Universidade de Freiburg, entre 1936-1940 (Vol. I Nietzsche, editora Forense Universitária, trad. de Marco Antonio Casanova, 2010, 510 páginas) aprende-se muito não só sobre Nietzsche, mas também sobre metafísica, história da filosofia e as próprias teses heideggerianas.
O ponto central é a pergunta da metafísica, feita há muito pelo pensamento grego, "o que é o ente?" Para Heráclito, o ser do ente, isto é, para os entes (ente é tudo o que há, exceto o nada) serem, o que os faz existirem de certo modo, seu ser, é o devir. A causa primeira é o devir. Para Parmênides o ser dos entes vem de sua permanência.
Heidegger mostra que Nietzsche pergunta também sobre a totalidade, mas extrai essa questão da própria história da filosofia; a ele interessam os percursos do pensamento, inclusive o devir e a permanência do ser, que ele absorve. Mas rejeita o platonismo que permeou todo o pensamento ocidental. Para o platonismo, os entes se constituem de ideias, que são ideais como o nome indica, de outro mundo, não do nosso mundo sensível. Assim ficou postulada a existência de um além perfeito e difícil de alcançar e concomitantemente a noção de que o mundo em que nos movemos é falho e imperfeito.
Nietzsche considera que a inversão do platonismo valoriza a vida em um sentido amplo (entes animados e inanimados, orgânicos e inorgânicos), e vida para ser valorizada requer novas perspectivas, novos valores. Onde encontrá-los e como modificá-los?
Na vontade de poder, pela força (não física e nem moral) do devir, do retornar sempre, do encontro entre passado que já não é, e futuro que vem a ser. O ente na totalidade é eterno retorno do mesmo. O encontro de passado e futuro se dá no instante, nele o tempo é como que "agarrado". Daí a força, que nega a conciliação final e resiste na luta permanente, nos eternos elos da corrente do tempo. Todo ente que é, é vontade de poder. Existe por ter lutado, resistido; impulso, paixão, sentimento caracterizam a vida, que por isso é vontade de poder, mais que razão e lógica.
Aquele que pode produzir é o artista, o sentido disso para Nietzsche vai além da produção de obras de arte propriamente ditas. Isso porque o ente se faz, se produz, cria. A arte combate o niilismo entendido como anulação dos valores que promovem vida e renovação. Na história ocidental tem prevalecido o niilismo, a negação da vida, da embriaguez de viver, da plenitude; a doutrina do eterno retorno traz ao ente abertura, audácia, risco e não aceitação passiva de considerar que, como tudo volta, não preciso fazer nada.
Esse lado estético caminha pari passu com a metafísica, esta entendida como a pergunta que o filósofo faz acerca do que determina o ser dos entes. E a metafísica de Nietzsche, sustenta Heidegger, é o eterno retorno do mesmo.
Esse "pensamento pesado" ocorreu a Nietzsche na solidão, na compreensão de que abismo pressupõe altura, que na luz do meio-dia, sem sombras, tudo retorna, as coisas são finitas e voltam eternamente. A força finita reside no instante, se fosse infinita, não teria do que extrair força. Só se extrai força, vida, de coisas finitas nesse devir constante.
Sem causa primeira nem final, tudo vem a ser eternamente. A enigmática doutrina do eterno retorno foi o difícil pensamento que ocorreu a Nietzsche, aceitar e amar a vida, aceitar isso que ocorre basta.
O ponto central é a pergunta da metafísica, feita há muito pelo pensamento grego, "o que é o ente?" Para Heráclito, o ser do ente, isto é, para os entes (ente é tudo o que há, exceto o nada) serem, o que os faz existirem de certo modo, seu ser, é o devir. A causa primeira é o devir. Para Parmênides o ser dos entes vem de sua permanência.
Heidegger mostra que Nietzsche pergunta também sobre a totalidade, mas extrai essa questão da própria história da filosofia; a ele interessam os percursos do pensamento, inclusive o devir e a permanência do ser, que ele absorve. Mas rejeita o platonismo que permeou todo o pensamento ocidental. Para o platonismo, os entes se constituem de ideias, que são ideais como o nome indica, de outro mundo, não do nosso mundo sensível. Assim ficou postulada a existência de um além perfeito e difícil de alcançar e concomitantemente a noção de que o mundo em que nos movemos é falho e imperfeito.
Nietzsche considera que a inversão do platonismo valoriza a vida em um sentido amplo (entes animados e inanimados, orgânicos e inorgânicos), e vida para ser valorizada requer novas perspectivas, novos valores. Onde encontrá-los e como modificá-los?
Na vontade de poder, pela força (não física e nem moral) do devir, do retornar sempre, do encontro entre passado que já não é, e futuro que vem a ser. O ente na totalidade é eterno retorno do mesmo. O encontro de passado e futuro se dá no instante, nele o tempo é como que "agarrado". Daí a força, que nega a conciliação final e resiste na luta permanente, nos eternos elos da corrente do tempo. Todo ente que é, é vontade de poder. Existe por ter lutado, resistido; impulso, paixão, sentimento caracterizam a vida, que por isso é vontade de poder, mais que razão e lógica.
Aquele que pode produzir é o artista, o sentido disso para Nietzsche vai além da produção de obras de arte propriamente ditas. Isso porque o ente se faz, se produz, cria. A arte combate o niilismo entendido como anulação dos valores que promovem vida e renovação. Na história ocidental tem prevalecido o niilismo, a negação da vida, da embriaguez de viver, da plenitude; a doutrina do eterno retorno traz ao ente abertura, audácia, risco e não aceitação passiva de considerar que, como tudo volta, não preciso fazer nada.
Esse lado estético caminha pari passu com a metafísica, esta entendida como a pergunta que o filósofo faz acerca do que determina o ser dos entes. E a metafísica de Nietzsche, sustenta Heidegger, é o eterno retorno do mesmo.
Esse "pensamento pesado" ocorreu a Nietzsche na solidão, na compreensão de que abismo pressupõe altura, que na luz do meio-dia, sem sombras, tudo retorna, as coisas são finitas e voltam eternamente. A força finita reside no instante, se fosse infinita, não teria do que extrair força. Só se extrai força, vida, de coisas finitas nesse devir constante.
Solidão inspiradora de Nietzsche em Sils Maria - Suíça
Portanto, a pergunta metafísica fundamental pela totalidade dos entes, como eles se perpetuam, seu modo de ser, é o eterno retorno, a totalidade do mundo é caos (nada a ver com teorias científicas). E para haver e terem sentido o tempo, a vida, o instante, é preciso o homem. Este deve ser pensado a partir do mundo e o mundo a partir do homem. É preciso partir de um canto, de um lugar, e não há como perguntar sem a linguagem, que é humana. Desse modo, o que pertence ao homem o leva para além do homem.
É como se Nietzsche tivesse proposto um pensar difícil em lugar de pensar na resposta pronta de um mundo platônico, ou em uma causa inicial ou final para todos os entes. Sem causa primeira nem final, tudo vem a ser eternamente. A enigmática doutrina do eterno retorno foi o difícil pensamento que ocorreu a Nietzsche, aceitar e amar a vida, aceitar isso que ocorre basta.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Algumas dicas para trabalho científico - mestrado
Diretrizes para dissertação de mestrado
Quando lecionava no programa de mestrado da PUCPR, criei este texto, que pode ajudar na elaboração do projeto e na própria dissertação de mestrado.
A dissertação segue as mesmas exigências de um estudo
científico, como um estudo monográfico. Assim como a tese de
doutorado, a dissertação versa sobre um tema no qual foi feito um recorte bem
delimitado, acerca de um autor (es) e/ou assunto. O importante é a delimitação,
o alcance, os objetivos da abordagem ficarem claros, não pode haver
superposição e nem cabe abordar o que não diz respeito ao
tema/autor(es) propostos. Nela são abordados aspecto(s) relevante(s) sobre dado assunto em uma área do
saber científico ou especializado. Trata-se de um trabalho que provém de
leituras, experiências, observações feitas pelo profissional ou estudante,
trabalho esse que vem contribuir para abordagens teóricas e práticas, com novas
visões de um problema, sugestões, críticas, enfim, tudo o que possa contribuir
para o avanço do saber.
O projeto bem elaborado é o passo inicial. É preciso:
1. Determinação
do tema/problema a ser abordado: deve ser relevante, deve evidenciar a formação
em uma especialidade, aprofundando um aspecto da área estudada ou das experiências
do profissional, mostrando que sua proposta é séria e produtiva. O tema deve
ser interessante, o problema deve ser bem formulado e bem analisado. Para que
surja a problematização, o pesquisador deve ter feito leituras, questionamentos, vale sua experiência
profissional, alta dose de criatividade, curiosidade intelectual e,
principalmente, ideias inteligentes. Se o problema for bem colocado, começam a
surgir hipóteses de trabalho que serão desenvolvidas a partir de uma ideia
central e dos objetivos a serem atingidos.
2. Levantamento
das hipóteses: as hipóteses são questionamentos como: Por que não? Como isso se dá? Qual a origem ou fonte do
problema levantado? Como solucionar certas questões? Quais são os resultados
possíveis de certas abordagens? O que fazer diante de um suposto diagnóstico do
problema levantado? O problema levantado tem em vista quais novas perspectivas?
A causa provável de tal anomalia ou as causas prováveis quais seriam? Por que
justamente essas causas ou essa problemática é mais atuante e mais importante
do que outras? Sem essas hipóteses o trabalho resulta em banalidades ou
repetições, sem problematização a pesquisa fica sem rumo, sem objetivo, fora de
propósito.
3. Levantamento
de bibliografia: pesquisa em bibliotecas e institutos, pesquisa na internet,
sugestões do professor orientador, enriquecimento de fontes a partir de livros
básicos.
4. Cronograma detalhando as etapas da pesquisa.
A dissertação:
1. Após a seleção e leitura de capítulos, itens, artigos, é proveitoso fichá-los na forma de resumo, esquema ou resenha. É do estudo desta
bibliografia e dos assuntos selecionados nos esquemas ou resumos, que sairá o
trabalho final. Essa coleta bibliográfica não deve ser apenas
cópia, mas sim uma análise dos pontos essenciais e dos argumentos desenvolvidos
nos textos. Isso possibilitará a redação final da dissertação.
2. Estrutura da dissertação: o trabalho se compõe de uma introdução (tema, objetivos, justificativa), itens desenvolvidos: hipóteses abordadas, desenvolvimento dos objetivos, em que
entram: análises, modo de desenvolver os aspectos principais do tema,
resultados alcançados e isso tudo de forma lógica, argumentando e mostrando a
situação do problema, o modo como a questão pode ser abordada; conclusões com
um relato resumido dos objetivos alcançados.
3. Pesquisa
propriamente dita: há várias metodologias de pesquisa, que variam conforme a
natureza do tema e do problema; elas podem vir isoladas ou combinadas:
a) Pesquisa
bibliográfica: já mencionada acima; b) pesquisa
laboratorial e/ou de campo: requer recursos experimentais como resultado de
observação participante, investigação de um campo de estudo, em que ideias ou
problemas possam ser examinados, selecionados, organizados, manipulados,
demonstrados. Eles são fruto de observação inteligente, de experiências
dirigidas por uma ideia ou hipótese, análise dos resultados obtidos,
intervenção para corrigir desvios, investigação do modo como certos casos se
desenvolvem, se modificam, enfim, é preciso um local (laboratório ou campo
pesquisado), um objeto/problema/caso a ser investigado e meios disponíveis para
a verificação de cada etapa da pesquisa e de seus resultados; c) estudos a
partir de documentos: ir às fontes documentais, recorrer a dados estatísticos,
estudos de institutos especializados. Em algumas áreas esse estudo é
complementado com entrevistas, questionários, estudo de casos, registros
documentados de uma série de observações que representam o resultado de uma
atividade acadêmica (relatórios de pesquisa ou de estágio) ou profissional,
inventários de acompanhamento da evolução de um ou mais casos (com tratamento
estatístico), as intervenções realizadas e os resultados obtidos.
Todo estudo bem feito tem resultados que fazem avançar o
estado da arte, a situação da área investigada, apontando perspectivas novas,
soluções criativas, mostrando onde há erros, desvios, o que pode ser
aperfeiçoado, enfim, resultados em termos de avanço científico, ou
aprofundamento de um tema, desenvolvimento de um novo produto ou artefato, de
uma tecnologia ou de um método de trabalho mais produtivo. E isto só se dá com
estudo sério, projetos úteis e interessantes, uma grande dose de ousadia e curiosidade,
gosto especial pela sua área de atuação, e um preparo profissional adequado e
estimulante.
Há que se evitar a mera repetição, temas desgastados, e a "inútil erudição".
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Impossível ser filósofo sem ser justo
Diógenes de Laércio relata a
seguinte passagem: “Conta-se ter dito Heráclito a estranhos que o queriam
visitar e espantam-se ao vê-lo aquecer-se junto ao fogão: podeis entrar, aqui
também moram deuses”. Filosofia e vida cotidiana, essa união de real e ideal é o alimento da filosofia: há duas esferas, aquela em que projetamos como ideal filosófico a sabedoria, o logos; e a esfera prática com a necessidade de pensar, avaliar e lidar com as condições históricas herdadas e as experimentadas.
A filosofia e seus objetos de análise mudam com o passar do tempo histórico e o surgimento de novos temas e problemas. Permanece a necessidade de pensar, raciocinar, ampliar o limiar da razão reflexionante, mas sem ultrapassar esses limites, pois não há como usar a razão e, ao mesmo tempo inventar
procedimentos que fogem às regras do pensar. Quer dizer, estamos sempre imersos na lógica do possível,
nos signos aprendidos, nas formas significantes.
***
A filosofia circunscreve quatro
dimensões: a da atividade filosófica na cultura; a do rigor da reflexão, ou
seja, o uso de conceitos próprios ao pensar de tipo filosófico; a dimensão da vida prática e as possíveis transformações; e aquilo a que a filosofia pode almejar e permite alcançar.
Como exemplo da primeira dimensão, Dewey (1859-1952) mostrou que a filosofia não pode se
restringir às puras Formas, ao Ser, às Ideias como entidades em si mesmas,
sublimes e superiores. Assim ela se fecha, se torna missão de experts e como tal inacessível como bem cultural e imprestável
para a tarefa educacional. Pelo contrário, as noções, as ideias, os conceitos,
os propósitos da filosofia devem e podem ser abertos para um público mais
amplo. O uso do vocabulário hermético, a pseudo erudição e a superespecialização, nada mais são do que refúgio de
intelectuais afetados e pouco ou nada afeitos à difícil tarefa de levar a
reflexão para iniciantes, para a escola, para a discussão pública de ideias.
O segundo ponto, o rigor da análise e da reflexão, a tarefa intelectual de busca da
exatidão, do conceito apropriado, da noção iluminadora, podem ser ilustrados por Wittgenstein
(1889-1951), com a atitude prático-teórica do uso habitual de conceitos, sempre relacional, com papel específico em nossas formas de vida. A filosofia tem a função
terapêutica de reconduzir os conceitos ao seu uso normal, cotidiano. Se alguém tem dificuldade em compreender o conceito de "essência", por exemplo, veja como este signo é empregado nos jogos de linguagem cotidianos. Exercita-se a análise e mergulha-se nas indagações, sem precisar de inúteis erudições.
O terceiro aspecto, o que a filosofia permite realizar, sua missão pedagógica, reside em capacitar à reflexão, à abstração, à apreensão da realidade, em três áreas afins: a da ética e da política; a da crítica cultural; e a dimensão do sujeito, isto é, a análise
das formas pelas quais experimentamos nossa subjetividade, nossa individualidade.
Para Aristóteles (385-322 a C.), a ética e a política são
co-dependentes. A sociedade política é um bem para todos, o homem é um animal
social com noção do bem e do mal, do justo e
do injusto. A sociedade política é uma reunião para o viver bem, possibilitar uma
vida feliz e virtuosa; justo é o governante que busca a felicidade geral.
Quanto à cultura, Nietzsche
(1844-1900) critica a adesão a valores gastos, é preciso reinventá-los, como faz o poeta solitário. A cultura, diz ele, foi arrancada da simplicidade e da contemplatividade,
há pressa, as águas da religião fluem e refluem, deixando para trás pântanos e
poças; as nações se separam e querem esquartejar-se; nessa mundanização, as classes eruditas não são mais o farol, impera a barbárie, inclusive na arte e na ciência (cf. Considerações Extemporâneas).
E o sujeito? Foucault (1926-1984), analisa a história das
práticas humanas que constituíram o sujeito moderno, o que desmistifica a pretensa essência, universalidade e unidade do homem.
E a última característica, o que se pode almejar com a filosofia? R. Rorty (1931- 2007) diz que ela não nos impele e nem obriga a um dever acima da
reflexão e da crítica nem à defesa cega de uma ideologia; a filosofia não serve para solucionar problemas, para tal há governos e diversas ciências que podem oferecer soluções e novas práticas para
problemas sociais, políticos e econômicos. Mas ela é indispensável para nossos projetos de vida, para transformar e apontar direções, para alcançar mais solidariedade, respeito à diferença,
liberdade de crítica. A liberdade é imprescindível, sociedades com liberdade plena para refletir e agir, para valorar e criar, evitam o medo, a intolerância, o
sectarismo, a cegueira ideológica.
Daí o título desta postagem: o filósofo ao refletir, avaliar, ser criterioso, ponderar, só pode e deve ser justo.
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