quarta-feira, 27 de maio de 2026

Duas personagens literárias: a anti-heroína e a apaixonada.

 Personagens femininas centrais na literatura, têm sua história narrada, em sua grande maioria, por autores. O modo como eles entendem e descrevem a mulher requer que assumam a sensibilidade, os desejos, as virtudes, até mesmo o modo de pensar feminino. Do contrário o valor do conto ou do romance se perde. Trago aqui dois exemplos entre milhares de outros.

J. M. Coetzee (1940), escritor sul-africano, ganhador do Nobel de Literatura, em seu romance In the Heart of the Country (1977), relata a vida de Magda, órfã de mãe, o pai dono de uma fazenda de criação de ovelhas na África do Sul, a personagem expõe seus dramas, solidão, solteira desejosa de amor, oprimida pelo destino de se ver presa àquele local, leitora para quem as palavras são isso mesmo, palavras ("there is no private language" p. 35), lida com pequenos afazeres, seu mundo roda em si mesmo, em luta contra si mesma, anseia por amor, sabe-se sem futuro, isolada. 


Coetzee retrata a África do Sul, sua visão do apartheid levanta polêmicas.

Quando o pai de Magda emprega o jovem casal Anna e Hendrick, a moça se torna sua amante. O clima da casa muda, Magda flagra o pai, atira no estômago dele. Mata o pai, no qual ela mesma havia se projetado, este sofre, morre, renasce, Magda mata-o novamente e enterra. 

Magda inveja o casal, deseja o moço, que atende dominando-a. O passado colonial, de dizimação e escravização dos negros como que se inverte.  Tomam conta dela a opressão, a solidão, o abandono da propriedade, vinga-se do pai, vingança simbólica, expõe a ambiguidade de ser dona e submissa, sem saída, lamentando ser solteirona, condenada a essa condição.

Hendrick e Anna vão embora em busca de trabalho, não estavam sendo pagos. A fazenda decai, sem recursos, não há mais cerca, os cavalos foram soltos, as ovelhas sem tosa morrerão. A comida acaba, ela como que se esvai, alucina.

Um parêntese: Magda considera que não há mulheres proeminentes na filosofia porque elas não veem o todo. Coetzee pensa da mesma forma que sua personagem? Creio que sim...

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A apaixonada Rosalie, personagem de Thomas Mann ( 1875-1955) no conto Die Betrogene (Os Enganados), último escrito de Mann, é viúva, mãe de Anna e do jovem Eduard. Anna é artista, nasceu com um dos pés torto, o que, provavelmente a torna candidata à solteirice, condição que ela aceita. A família conhece um jovem americano, Ken Keaton, viajante em busca de paisagens e locais históricos da Europa. Ele é contratado para dar aulas particulares de inglês a Eduard.


     Thomas Mann, a magia da escrita.
Rosalie se vê seduzida pelo vigor, pelo físico de Ken, a filha adivinha esses sentimentos, a desencoraja, Rosalie atende os conselhos de Anna. Passeios ao ar livre, o encanto pelo jovem não se desfaz, ao contrário, as aulas ao seu filho são aguardadas com um misto de ansiedade, desejo e alguma esperança, a de que ele não ceda seus encantos às duas vizinhas.

Surge a ideia de uma viagem a um local histórico, banhado por um lago com cisnes, um castelo a que eles chegam para visita aos aposentos suntuosos, para Rosalie, cheios de magia, arquitetura feudal entrelaçada com trepadeiras. Conduzida por Ken pelo braço, ele a guia, eles se afastam dos demais, entram em aposento que parece ser uma alcova, depois saem em uma espécie de gruta, ela se inclina ao ombro de Ken: "Ken, Ken, eu te amo, posso beijar seus lábios?" Ela se justifica, "não sou libertina". Eles prosseguem no escuro do que parece ser um cemitério, ela pede um encontro mas que não seja nesse lugar de mortos.

Encontro que não aconteceu. Rosalie teve uma indisposição, permaneceu no quarto, o médico da família é chamado, exames constataram estado avançado de câncer no útero, "alta malignidade". De mãos com sua filha, ela diz "Anna, não fale de engano (Betrug) da natureza", a vida tem sua primavera, "mas, o que seria da primavera sem a morte? A morte é propriedade da vida, sua forma se nutre de ressureição e desejo de amor, então não, ela não engana, é sim bem e graça", ao que a filha responde que ama a natureza e que ela e o irmão são a prova disso. Mann encerra sua obra e este conto com a frase:

"Rosalie teve uma morte suave, lamentada por todos que a conheceram". 

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Para concluir: Os homens conhecem a alma feminina ou nela projetam seus desejos?


 

sábado, 16 de maio de 2026

O sentido da hermenêutica do sujeito para Foucault

 O curso de Foucault no Collège de France, "Hermenêutica do Sujeito" (1982) indica a possibilidade de aplicação do conceito que definimos no post anterior.

 O ponto de partida é a diferença entre conhecer a si mesmo e cuidar de si mesmo, sendo que o primeiro tipo prevaleceu na cultura ocidental. 

Cuidar de si remonta a Sócrates e, especialmente aos estoicos. Conhecer a si mesmo remonta a Platão, se torna crucial na tradição do cristianismo, chega ao racionalismo de Descartes, a Kant e, com exceções à contemporaneidade. 

No curso Foucault ressalta a meditação, o olhar para dentro de si, o cuidado com os regimes, a importância do preparo de Alcebíades instruído por Platão para ser um bom governante, com o controle de sua alma que conduz à sabedoria, a agir com justiça, a distinguir o bem do mal. Aos ensinamentos práticos de Platão, se alinham a teoria do mundo das ideias e da reminiscência, conhecer, conceituar. 

Cuidar do corpo e da alma, a vida toda, como se fosse uma arte de viver sem imposição, sem obrigação e sim por meio da prática de virtudes, como a coragem, a resistência, o fortalecimento da vontade, pressupõe, ou melhor, exige falar com franqueza, não obediência a regras. A relação sincera consigo e com os outros capacita para a prática da justiça.

Essa história da subjetividade ocidental de Foucault, essa hermenêutica do sujeito, dos modos de ser de nossa subjetividade, resgata o modo do cuidado, indica que a tradição estoica foi como que amordaçada pela obrigação de revelar sua alma, seus desejos e impulsos na confissão, salvar a alma do pecado, a noção de punição e castigo do cristianismo.

Ponderar, ser simples, justo, cuidar de si para bem cuidar dos outros, difere da renúncia de si, da vigilância permanente de seus atos e pensamentos, do exame de consciência, decifrar sua alma, livrá-la das tentações, características do modelo cristão. Modelo que remonta a Platão, no qual como que se bifurcaram as duas tendências, com o prevalecimento do conhecer a si mesmo, herdada pelo modo de ser da cultura ocidental. 

Os estoicos privilegiam o modo de ser livre, que somos capazes de dar razões, que a vida virtuosa não objetiva prêmio e nem castigo eterno, que as coisas são efêmeras, que há guias para a ação, para conduzir-se com coerência, que o prêmio é a própria vida.

O pressuposto dessa hermenêutica do sujeito é o de que ser sujeito significava ser sujeito de ação reta, gratificante, a verdade exercida, ser sujeito ético dessa verdade, o modelo sendo o estoicismo. Que não há sujeito universal, imutável, que nossa tradição é muito mais a de escarafunchar e classificar do que viver em harmonia, com coragem e coerência.

Creio que a mensagem seja a de que não só o modo de ser sujeito se modificou, tanto para o si mesmo como para os outros, mas que o retorno para o cuidar, para o livre falar, pode ser alcançado por meio de uma ética, a dos atos de liberdade, inteiramente diversa da obrigação de conhecer, de que há lei e que a ela estamos presos, que precisamos da palavra verdadeira do outro. 

Mais detalhes, no curso de Foucault. Arrisco indicar espero que sem cabotinismo, a publicação abaixo, p. 193-216.

Ps.: recado à amiga Dayse: p. 231-232 em "Hermenêutica do Sujeito", Foucault se refere a Lacan. Vale conferir a relação entre sujeito e verdade.


sexta-feira, 8 de maio de 2026

O que é hermenêutica?

 Os estados de coisas, as situações, a história e a cultura, se abrem não de modo único, permanente, estabilizado e sim sob perspectivas, modos de interpretação, reagimos, precisamos nos entender. Isso vale para a concepção hermenêutica.

O relativismo, em contraste, propõe que toda e qualquer percepção, avaliação e conceituação depende de um ponto de vista, ora isso, ora aquilo. Desse modo, não há como sustentar um argumento ou uma causa, pois argumentos requerem decisão, defender causas requer um vai e vem entre oponentes em um discurso que visa entendimento.

Essas dificuldades inexistem para o hermeneuta. A capacidade de avaliar, de conceituar, incide em certo ângulo, em certo tópico da discussão, investiga-se, obstáculos não levam à desistência, problemas permanecem como farol que aponta para a busca, para ir ao âmago de uma questão.

O hermeneuta pergunta, o que se apresenta, como se apresenta, se é um estado de coisa perdurável, mutável, passível de interferência ou se vale mais aguardar. Além disso, ele comunica o resultado de suas avaliações e as submete a seu grupo para discussão. O hermeneuta não exige regra fixa, não demanda clareza total, dispensa chefia, mando, obrigação. Há busca de abertura, de troca de ideias fundamentadas, não exibe performances para ganhar adeptos, "likes", não supõe que suas avaliações sejam definitivas e acima de suspeita, ele expõe criteriosamente, quer dizer, suas posições seguem critérios, do grego krinein, quer dizer, separar, decidir, julgar.

- separar: identificar um problema, um aspecto, uma questão; 

- decidir: capacidade de discernir, optar por caminhos e possíveis soluções;

-julgar: difícil e arriscado, pois o erro, a pressa, o despreparo e a arrogância põem tudo a perder.

Gadamer, representante alemão da corrente hermenêutica, diz que o texto, a mensagem, a proposta recebidos, mesmo que inicialmente de difícil compreensão, evidenciam racionalidade fundamentável sob certas pressuposições, por expectativas de sentido provenientes da relação da verdade com o que é dito, que nascem de nosso próprio conhecimento prévio de algo. Se a pressuposição de verdade fracassa, quer dizer que não se conseguiu compreender o que está em jogo. Jogo esse que a pressuposição de falsidade invalida.



Gadamer (1900-2002)

Para Habermas, verdade se deve a uma racionalidade que compreende do que se trata, segundo quais normas, se há autenticidade e veracidade, base para haver entendimento e possibilidade de interpretação em um sistema de referências válido para os agentes capazes de decidir, sob o pano de fundo de uma compreensão ampla do mundo, comum ao autor da comunicação e ao seu ouvinte, ao seu público.

Habermas (1929-2026)

As matrizes de racionalidade devem ser equacionadas, do contrário, como interpretar atitudes e valores de uma cultura com bases inteiramente diversas?

 Ao contrário da psicanálise que vai ao inconsciente re-velador, ao contrário da arte com seus múltiplos efeitos fruto de sensibilidade, a hermenêutica se vale de compreensão, interpretação, avaliação e reavaliação, fundamentadas. 

Essa é uma das razões pelas quais os julgamentos com base política, ideológica e partidária são tão nefastos. Os fundamentos jurídicos são essenciais ao estado de direito democrático.

Obs.: um exemplo de estudo hermenêutico é o curso de Foucault "Hermenêutica do Sujeito" analisado por mim em "Os Cursos de Foucault no Collège de France, um Guia de Leitura", PUCPRESS, 2025. Na próxima postagem.